Quando uma rainha some de uma colônia de vespas de papel, tudo indica que o caos vai tomar conta. Um ninho organizado em torno de uma única fêmea dominante, responsável por pôr a maior parte dos ovos, de repente fica sem o seu centro.
Fêmeas rivais podem passar a se reproduzir, as tensões aumentam e o destino da colônia fica por um fio. Em muitas sociedades animais, uma disputa desse tipo pelo poder acaba desagregando o grupo.
Ainda assim, uma vespa de papel tropical encontrou uma forma de atravessar a tempestade.
Um estudo recente, publicado por pesquisadores da University College London (UCL) e da Zoological Society of London (ZSL), investigou como a vespa de papel tropical Polistes canadensis lida com a perda da rainha.
O que eles observaram aponta para um equilíbrio marcante entre conflito e cooperação dentro dessas sociedades minúsculas.
Uma fêmea controla a colônia
A reprodução cooperativa aparece em diferentes grupos do reino animal. Suricatos, ratos-toupeira-pelados, peixes ciclídeos e vespas de papel seguem um padrão parecido.
Uma única fêmea gera a maior parte da prole, enquanto outras ajudam a criar os filhotes.
Essas ajudantes não são operárias estéreis como as abelhas do mel. Se tiverem a oportunidade, elas também conseguem se reproduzir.
Isso vira um problema sério quando a reprodutora dominante desaparece. Cada ajudante passa a ser uma possível sucessora.
A colônia precisa definir quem assume, mas o caminho é arriscado. Brigas podem atrapalhar a coleta de alimento, o cuidado com a cria e a defesa.
Se o conflito se estender por muito tempo, a colônia pode ruir antes que uma nova rainha estabeleça o controle.
Removendo a rainha
A Polistes canadensis vive em florestas tropicais e também em cidades da América Central.
Observações anteriores já indicavam que essas vespas ficam extremamente agressivas após perderem a rainha.
Mesmo assim, as colônias normalmente sobrevivem - e os pesquisadores queriam entender o motivo.
A equipe trabalhou em quatro locais na Zona do Canal do Panamá. Eles acompanharam 306 vespas em 19 colônias, identificando cada indivíduo com pequenos pontos de tinta colorida.
Ao longo do estudo, registraram milhares de interações comportamentais.
Em seguida, fizeram o experimento decisivo: retiraram a rainha.
Conflito após a perda da rainha
Antes da remoção, a vida no ninho parecia relativamente tranquila. A rainha concentrava a maior parte dos comportamentos agressivos, enquanto as operárias executavam tarefas como caçar lagartas e alimentar as larvas.
Em até 24 horas depois do sumiço da rainha, tudo mudou.
As taxas de agressão aumentaram em cerca de dez vezes. Mais vespas passaram a entrar em lutas físicas, e as operárias começaram a se atacar entre si, em vez de apenas sofrer agressões vindas da rainha.
Em algumas colônias, mais de 40 por cento das operárias se envolveram no conflito. O ninho virou um campo de batalha com vários rivais, e não apenas uma única desafiante.
Identidade da futura rainha
Uma das maiores surpresas do estudo veio de quem acabou vencendo.
A futura rainha não apresentava características especiais antes do desaparecimento da rainha. Ela não era mais agressiva, nem maior, nem mais dominante do que as outras.
A rainha original também não parecia favorecê-la.
Só depois de alguns dias de conflito a fêmea vencedora começou a se destacar das demais.
Esse resultado sugere que a colônia não mantém uma sucessão “oculta” preparada.
Quando a rainha some, a herança do posto precisa ser definida por competição direta.
O trabalho da colônia não para
À primeira vista, o cenário parece desastroso.
Se um grande número de operárias está ocupado brigando, quem alimenta as larvas? Quem sai para buscar comida? Em muitas espécies, essas funções entram em colapso durante disputas de sucessão.
Mas a Polistes canadensis evitou esse desfecho.
As taxas de forrageamento permaneceram surpreendentemente estáveis após a remoção da rainha. As redes de compartilhamento de alimento também continuaram funcionando.
Mesmo em meio a um conflito intenso, a colônia seguiu alimentando a cria. E o motivo se mostrou notavelmente engenhoso.
Operárias mudam de função
Os pesquisadores descobriram que muitos indivíduos que antes coletavam alimento interromperam o forrageamento e entraram na disputa por dominância.
Ao mesmo tempo, outras vespas que nunca tinham sido vistas forrageando passaram a sair do ninho de repente para buscar comida.
Essas “substitutas” assumiram as necessidades diárias da colônia enquanto as competidoras brigavam pelo trono. Quase 70 por cento das forrageadoras após a remoção da rainha vieram desse novo grupo que se tornou ativo.
Na prática, a colônia se dividiu em dois campos: um lutou por poder reprodutivo; o outro manteve a sociedade funcionando.
“O conflito após a remoção da rainha foi intenso, mas não era a história inteira”, observou o autor principal do estudo, Dr. Owen Corbett.
“Enquanto alguns indivíduos brigavam por dominância, outros evitaram completamente o conflito e, em silêncio, assumiram o papel de manter a colônia em funcionamento. A cooperação não desapareceu; ela foi redistribuída.”
Vespas ociosas evitam responsabilidades
Os pesquisadores esperavam que os membros inativos da colônia virassem uma força de trabalho de emergência. Não foi o que aconteceu.
A maior parte das vespas que antes eram inativas continuou inativa mesmo depois que a rainha desapareceu.
Em vez disso, operárias ativas que não forrageavam trocaram de papel e compensaram a desorganização.
Os pesquisadores ainda não sabem por que algumas vespas competem enquanto outras evitam a briga.
Sinais de fertilidade, diferenças de idade ou fatores fisiológicos podem influenciar essas escolhas.
Lições além dos insetos
Os resultados podem ter implicações muito além das vespas de papel.
Muitos animais cooperativos ficam mais agressivos depois de perder uma fêmea dominante. Ainda assim, apenas parte do grupo entra na competição, enquanto outros seguem cumprindo tarefas essenciais.
“Entender como sociedades animais administram conflitos pode nos ajudar a pensar de outra forma sobre cooperação de maneira mais ampla”, disse a autora sênior do estudo, professora Seirian Sumner.
“Em tempos de turbulência, a sociedade depende de quem continua fazendo o trabalho essencial nos bastidores. Em muitos sentidos, talvez sejamos mais parecidos com vespas do que imaginamos.”
Para um inseto minúsculo, com um cérebro menor do que um grão de gergelim, a Polistes canadensis desenvolveu uma solução impressionante para um dos problemas mais antigos da vida em sociedade.
O trono pode acender o conflito, mas a colônia segue viva porque alguém continua alimentando a próxima geração.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário