Chimpanzés não frequentam a escola nem aprendem em livros. No lugar disso, os mais jovens passam anos acompanhando e observando indivíduos mais velhos do grupo para entender como viver na floresta.
Um novo estudo realizado em Uganda indica que esse processo de aprendizagem é bem mais intrincado do que os cientistas imaginavam.
Pesquisadores do Instituto Max Planck de Comportamento Animal, da Estação de Campo de Conservação de Budongo e da Universidade de St. Andrews acompanharam chimpanzés orientais selvagens na Floresta de Budongo por mais de dois anos e meio.
A equipa concluiu que a cultura dos chimpanzés ultrapassa com folga comportamentos famosos, como o uso de ferramentas.
Até ações rotineiras - como comer, fazer grooming e interagir socialmente - podem ser transmitidas de uma geração para outra.
Olhar para além das ferramentas
Durante anos, os cientistas reconheceram a cultura dos chimpanzés comparando comunidades diferentes.
Quando uma comunidade utilizava ferramentas de pedra para quebrar nozes e outra não, o comportamento era classificado como cultural se diferenças ambientais ou genéticas não dessem conta de explicá-lo.
Essa abordagem foi crucial para consolidar a ideia de que animais também podem ter cultura. Ainda assim, ela privilegiava comportamentos chamativos e fáceis de notar. Por parecerem comuns, muitas práticas partilhadas do dia a dia provavelmente passaram despercebidas.
“Excluir causas genéticas e ambientais da variação comportamental foi um primeiro passo metodológico importante para demonstrar a transmissão social e, com isso, a existência de cultura animal”, afirmou Nora Slania, do Instituto Max Planck de Comportamento Animal.
Observar quem observa
Para revelar essas camadas menos visíveis da cultura, os pesquisadores concentraram-se num comportamento conhecido como peering.
O peering acontece quando um chimpanzé fixa o olhar noutro por vários segundos, geralmente a curta distância e com atenção intensa.
Os cientistas suspeitavam que esse comportamento poderia indicar o que os chimpanzés consideram valioso aprender.
Se o peering estivesse ligado à aprendizagem, a expectativa era que chimpanzés jovens o fizessem mais do que adultos e que direcionassem a atenção a indivíduos experientes. O estudo confirmou as duas previsões.
Milhares de observações
A equipa acompanhou 28 chimpanzés da comunidade Sonso ao longo de aproximadamente 1,100 horas de observação. O conjunto incluía 17 chimpanzés imaturos e 11 adultos.
Os observadores registaram comportamentos a cada três minutos e anotaram todo episódio de peering visto. Ao todo, os pesquisadores documentaram 358 eventos de peering.
Os dados mostraram que o peering atinge o pico por volta dos cinco anos e, depois, diminui de forma constante até a vida adulta.
A maior parte dessa observação de perto foi realizada por jovens, o que reforça a ideia de que o peering ajuda os indivíduos a adquirir competências essenciais durante o desenvolvimento.
Alimentos raros chamam mais atenção
O tipo de alimento consumido influenciou fortemente o peering.
Os chimpanzés prestaram mais atenção a itens que exigiam várias etapas de processamento antes de serem comidos. Alimentos raros também despertaram mais interesse do que os itens comuns.
Esse padrão indica que chimpanzés jovens dependem muito da aprendizagem social quando enfrentam tarefas difíceis ou pouco frequentes.
“A cultura animal não precisa ser rara ou complexa. Ela pode incluir competências básicas usadas todos os dias, como encontrar alimento e saber como comê-lo”, disse Slania.
Chimpanzés com experiência
Os chimpanzés jovens demonstraram uma preferência clara por observar indivíduos mais velhos.
Adultos experientes provavelmente acumulam conhecimento valioso, adquirido ao longo de muitos anos na floresta.
Os pesquisadores também notaram um pico menor de atenção direcionada a pares de idade semelhante, sugerindo que juvenis também aprendem uns com os outros.
Já chimpanzés mais novos e com menos experiência receberam pouquíssima atenção.
Uma rede social ampla
Há muito tempo, os cientistas consideram as mães a principal fonte de aprendizagem cultural para jovens grandes símios. Os novos resultados apontam para um cenário mais complexo.
De facto, bebés muito novos observaram sobretudo as suas mães. No entanto, quando os pesquisadores ajustaram as análises para levar em conta quantas vezes as mães estavam simplesmente por perto, surgiu outro padrão.
Desde cedo, chimpanzés jovens também mostraram grande interesse por adultos sem parentesco. Por volta dos três anos, quando havia disponibilidade, membros não aparentados do grupo passaram a ser os alvos preferidos.
Isso sugere que a cultura dos chimpanzés se difunde por uma rede social mais ampla do que se pensava anteriormente.
A vida quotidiana conta
Talvez o resultado mais inesperado do estudo tenha sido a quantidade de comportamentos associados ao peering.
Os pesquisadores identificaram 166 comportamentos distintos na comunidade Sonso. Desses, 69 comportamentos atraíram peering pelo menos uma vez.
Esse número quase duplica catálogos anteriores de comportamentos culturais de chimpanzés reunidos em múltiplos locais de estudo.
A maior parte do peering não envolveu o uso de ferramentas. Cerca de 53% concentrou-se em comportamentos de alimentação sem ferramentas. Outros 26% estiveram ligados a atividades de grooming.
Os achados indicam que as rotinas diárias podem ter muito mais relevância cultural do que se reconhecia.
Tradições de grooming ganham forma
O grooming pode parecer instintivo, mas trabalhos anteriores já mostraram que diferentes grupos de chimpanzés podem realizar grooming de maneiras distintas.
O novo estudo observou que chimpanzés jovens dedicaram bastante tempo a acompanhar comportamentos de grooming. Isso sustenta a ideia de que estilos específicos de grooming podem espalhar-se socialmente por meio da observação.
“O facto de uma parte tão grande da dieta de um chimpanzé ser aprendida socialmente realça o quanto a aprendizagem social é importante para o desenvolvimento deles”, afirmou a Dra. Caroline Schuppli, autora sênior do estudo.
“Embora alguns comportamentos possam ser simples e aprendidos rapidamente, adquirir todo o repertório da cultura deles ainda leva muitos anos aos chimpanzés jovens.”
Animais com culturas ricas
As implicações do estudo vão muito além dos chimpanzés.
Se os cientistas subestimaram a cultura num dos parentes mais próximos da humanidade, o mesmo pode valer para golfinhos, macacos, aves e muitos outros animais.
“Nos humanos, o quotidiano está cheio de cultura, incluindo a forma como falamos, nos vestimos ou comemos. Não exigimos que os comportamentos sejam especialmente notáveis ou independentes do nosso ambiente”, disse Schuppli.
“Os animais, porém, por muito tempo foram avaliados por padrões mais rígidos. Ao adotar uma visão mais inclusiva de cultura e critérios mais comparáveis aos aplicados aos humanos, pesquisas futuras podem revelar que muitos animais possuem culturas mais ricas do que se reconhecia.”
Durante décadas, a procura por cultura em animais concentrou-se em feitos espetaculares.
Este estudo indica que talvez a lição mais importante tenha passado despercebida: as aprendizagens comuns, transmitidas todos os dias de olhos atentos para mentes curiosas.
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