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Estudo na Science mapeia hotspots da queda de aves na América do Norte em áreas de agricultura intensiva

Jovem caminhando por trilha florida numa fazenda, com pássaros voando e trator ao fundo.

Na América do Norte, a quantidade de muitas espécies de aves despenca rapidamente - e um novo estudo agora mostra com bastante precisão onde essa queda é mais intensa.

Há anos se sabe que as aves estão diminuindo. O que pesquisadores fazem agora é colocar no mapa, pela primeira vez, quais regiões não apenas continuam perdendo aves, como também passam a perdê-las em ritmo cada vez mais acelerado - e quem tem um papel central nesse processo. O rastro aponta diretamente para áreas de agricultura de alta intensidade, isto é, zonas em que pesticidas, herbicidas e fertilizantes sintéticos são usados em larga escala.

Agricultura industrializada como epicentro da mortalidade de aves

A análise mais recente, publicada na revista científica Science, examinou dados populacionais de 261 espécies de aves na América do Norte ao longo de um período extenso, de 1987 a 2021. Em média, nesses pouco mais de 30 anos, as populações encolheram cerca de 15%. Quase metade das espécies monitoradas apresentou um declínio estatisticamente bem comprovado.

Mas o grupo foi além do “quanto” caiu. Eles também investigaram se a velocidade do declínio mudou com o tempo. Em outras palavras: as populações diminuem de forma constante - ou a queda vai ficando mais rápida ano após ano?

Em quase um quarto das espécies, as perdas não só aumentam - elas também aceleram. É aí que aparecem os novos hotspots da mortalidade de aves.

E esses hotspots surgem, de maneira chamativa, justamente onde a agricultura opera com mais intensidade: grandes extensões de lavouras, uso elevado de fertilizantes e defensivos agrícolas, poucas sebes, quase nenhuma árvore e quase nenhuma área em pousio. As estatísticas mostram uma associação clara entre esse tipo de paisagem e o declínio acentuado de determinadas espécies.

Um relatório anterior da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) já havia indicado que, no mundo todo, a maioria das espécies de aves está em retração - e que a expansão e a intensificação da agricultura estão entre os principais motores. A nova pesquisa explicita o quanto as regiões agrícolas altamente industrializadas afetam as aves e como esse impacto pode se intensificar em escala local.

Como sistemas agrícolas modernos prejudicam as aves

A agricultura industrializada pressiona as aves por diferentes vias. Para começar, ela elimina habitats. Campos naturais, áreas úmidas e faixas de arbustos dão lugar a talhões retos e uniformes. Árvores desaparecem, bordas de campo são “limpas”, e caminhos e estradas fragmentam o território. Para muitas espécies, isso significa menos locais de nidificação, menos abrigo e menos alimento.

Ao mesmo tempo, as propriedades recorrem em grande volume a fertilizantes sintéticos, venenos contra insetos e herbicidas. Esses produtos miram sobretudo pragas ou plantas consideradas “indesejáveis”, mas, indiretamente, atingem todo o ecossistema associado às áreas agrícolas.

A tragédia real não é que as aves sejam envenenadas diretamente - e sim que, simplesmente, o alimento delas desaparece.

Quando os insetos somem, as aves passam fome

Nesse cenário, os insetos são peça-chave. Eles são a principal fonte de alimento para inúmeras espécies, especialmente durante a reprodução. Muitos passeriformes alimentam os filhotes quase exclusivamente com insetos, mesmo quando, na fase adulta, consomem sobretudo sementes.

Em áreas de manejo intensivo, porém, muitos insetos são tratados como pragas. Inseticidas buscam eliminá-los antes que causem perdas de produtividade. Herbicidas removem plantas espontâneas que sustentam uma grande diversidade de insetos. Já os fertilizantes sintéticos alteram a composição da vegetação, favorecendo poucas espécies de crescimento rápido - em detrimento de ambientes variados e ricos em flores, onde insetos poderiam ocorrer em grande quantidade.

As consequências para as aves aparecem de forma concreta:

  • menos insetos no solo - menos alimento para aves que nidificam no chão ou procuram comida no solo, como cotovias ou o abibe
  • menos plantas silvestres em floração - menos polinizadores, menos lagartas, menos aranhas como fonte de proteína
  • talhões maiores e mais homogêneos - distâncias maiores até a comida e mais exposição a predadores
  • ciclos curtos de corte e colheita - ninhos destruídos e períodos de reprodução interrompidos

Os cientistas descrevem isso como “efeitos em cascata”: uma intervenção em um ponto - por exemplo, a aplicação de herbicida - desencadeia uma sequência de mudanças que, pouco a pouco, atravessa toda a cadeia alimentar, até culminar em quedas nas populações de aves.

O calor aumenta os riscos para as populações de aves

O estudo não se limitou ao uso agrícola da terra: ele também considerou o aumento das temperaturas. O resultado mostrou um quadro duplo: regiões mais quentes, de forma geral, já apresentavam menos aves, enquanto a agricultura intensiva foi especialmente associada a um aumento na velocidade do declínio.

O ponto mais preocupante é que, em áreas que ao mesmo tempo aqueceram mais e foram manejadas de forma mais intensiva, o impacto sobre as aves foi claramente mais severo. Os autores suspeitam de vários motivos:

  • Menos sombra: campos sem árvores e arbustos aquecem mais do que paisagens com maior diversidade estrutural.
  • Perda de estoques de carbono: florestas e sebes derrubadas capturam menos CO₂, o que contribui para aquecer ainda mais o entorno.
  • Carga dupla de estresse: as aves enfrentam simultaneamente falta de alimento e estresse térmico, o que reduz sua capacidade de resistência.

Muitos estudos já mostram que, durante ondas de calor, as aves chegam rapidamente ao limite. Filhotes superaquecem no ninho, corpos d’água secam e presas desaparecem. Se, além disso, dominam paisagens agrícolas simplificadas e sem refúgios, quase não há margem de proteção.

Novos conceitos de agricultura como oportunidade para as aves

Apesar dos números alarmantes, há espaço para esperança. Especialistas apontam que sistemas alternativos de cultivo podem ajudar a frear a tendência. Entre os conceitos-chave estão agricultura regenerativa, rotação diversificada de culturas e redução (ou eliminação) de certos pesticidas.

Onde as propriedades usam menos veneno, mantêm mais estruturas e apostam na diversidade, as populações de aves podem se recuperar - ao menos localmente.

O que significa, na prática, uma agricultura favorável às aves

Produtores podem atuar com um conjunto amplo de medidas. Entre elas, por exemplo:

  • implantação de sebes, fileiras de árvores e faixas floridas nas bordas das lavouras
  • evitar inseticidas em fases sensíveis da época de reprodução
  • adiar o corte de pastagens ou fazer corte parcial, para que posturas não sejam destruídas
  • manter áreas úmidas, pequenas lagoas e capões/fragmentos arbóreos no mosaico agrícola
  • substituir monoculturas por rotações variadas, com culturas de cobertura

Em muitas regiões da Europa já existem programas agroambientais que incentivam justamente esse tipo de ação. Os resultados norte-americanos adicionam mais evidência científica: preservar estruturas e reduzir o uso de químicos não só beneficia solos e insetos, como também protege populações de aves.

Por que o estudo também é relevante para a Alemanha

Embora a pesquisa trate da América do Norte, os mecanismos se parecem muito com a situação na Europa Central. Também ali, em diversas regiões, predominam grandes talhões, uso elevado de fertilizantes e pesticidas e a perda de sebes e áreas úmidas. A queda de aves típicas de ambientes agrícolas, como a cotovia-de-campo, a perdiz e o abibe, vem mostrando isso há anos.

Alguns fatores ainda se reforçam mutuamente: quando agricultoras e agricultores tentam garantir produtividade sob estresse térmico, costuma aumentar a pressão por variedades de ciclo curto e por manejo intensivo com fertilização e defensivos. Com isso, avança exatamente o modelo de agricultura que coloca as aves sob maior pressão.

Interações complexas, sinais claros

Os autores do estudo ressaltam que raramente existe uma única causa. Intensificação agrícola, mudanças climáticas, impermeabilização do solo e infraestrutura energética se combinam. Ainda assim, os dados enviam um recado direto: onde áreas agrícolas são simplificadas e “turbinadas” com química, as populações de aves entram em declínio mais rapidamente.

Para a conservação, isso significa que unidades de proteção, sozinhas, não bastam. O que pesa é como são manejadas as áreas entre elas. Mesmo pequenas ilhas de estrutura - uma sebe, uma borda vegetada, uma poça - podem virar “degraus” vitais em uma paisagem agrícola esvaziada.

Para consumidoras e consumidores, surge a questão de como decisões de compra influenciam esse quadro. Produtos de sistemas menos intensivos e mais ecológicos geralmente custam mais, mas, em regra, reduzem a pressão sobre solos, insetos e aves. No fim, o estudo norte-americano evidencia sobretudo uma coisa: o tipo de agricultura que escolhemos apoiar também determina se as próximas gerações ainda viverão uma primavera com canto de aves - ou apenas campos silenciosos.


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