A cena de Interstellar virou referência: um pai preso no futuro, batendo mensagens para a filha, que vive décadas no passado dele.
Todo físico que assistiu ao filme pensou a mesma coisa: é assim que o tempo não funciona.
Agora, três pesquisadores calcularam com precisão de que maneira isso poderia funcionar. Eles determinaram quanta informação um emissor no futuro conseguiria enviar para um receptor no passado - não por um canal perfeito, e sim por um canal ruidoso.
Um problema à la Interstellar
O artigo científico espelha o enredo do filme. Um pai, preso “atrás” de um buraco negro, envia sinais para a filha ainda criança, que está no passado. No cinema, isso é tratado como poesia; no trabalho, vira matemática.
Kaiyuan Ji, pesquisador de informação quântica na Universidade Cornell (Cornell), formulou a pergunta com cuidado, em colaboração com pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
Se um canal desse tipo existisse - mesmo com ruído - quantos bits conseguiriam atravessá-lo de forma confiável?
O canal “de trás para frente no tempo” estudado por eles pode ser simulado com experimentos quânticos - uma forma de modelar viagem no tempo sem precisar dobrar o espaço-tempo.
A ideia circula há anos, e um teste inicial chegou a usar fótons emaranhados em um laboratório real.
Fugindo do paradoxo do avô
Sempre que se fala em mandar mensagens para o passado, o medo é o mesmo: paradoxos do avô. Histórias inconsistentes.
Um receptor mudaria aquilo que o emissor, no futuro, acabaria transmitindo - justamente por isso físicos encaram a sinalização retrotemporal com forte desconfiança.
O método do trabalho impõe uma regra rígida: apenas histórias autoconsistentes permanecem.
Qualquer cenário que apague a própria causa é descartado automaticamente - do mesmo jeito que a teletransmissão quântica (teleportação) só funciona quando um resultado aleatório específico acontece.
Com isso, sobra apenas uma janela estreita em que um loop causal é permitido, desde que ele “feche” sem contradições.
A filha decodifica uma mensagem e guarda um registro em armazenamento de longo prazo. Anos depois, o pai acessa esse registro e o consulta antes de escrever o sinal que vai enviar.
A mecânica da comunicação no tempo
Até este estudo, ninguém tinha um número limpo para dizer quanta informação sobreviveria a esse loop quando o canal é ruidoso.
Trabalhos anteriores mostravam que um canal retrotemporal idealizado poderia fazer coisas impressionantes, mas o ruído do mundo real destrói a maior parte desses truques.
A estratégia do grupo é elegante. No passado, a filha guarda em armazenamento de longo prazo metade de um par quântico correlacionado.
Anos depois, o pai recupera essa metade. Ele faz uma medição que a conecta à mensagem que quer mandar e, então, injeta o resultado no canal.
A arquitetura é o oposto do que qualquer emissor espera: o receptor age primeiro e deixa uma pista. O emissor aparece depois, recolhe essa pista e a usa para fazer o loop “encaixar”.
Os autores chamam esse procedimento de teleportação probabilística amplificada. A amplificação é a novidade: o próprio loop aumenta a probabilidade de a mensagem chegar intacta, muito além do que um único passo de teleportação conseguiria.
Quanta informação consegue passar?
No centro do artigo está uma fórmula exata para quantos bits o canal retrotemporal pode transportar.
Dois parâmetros entram nesse cálculo - o quanto o canal preserva informação no seu melhor cenário e o quanto ele a corrompe no pior.
A conclusão é direta: quanto mais ruído, menor a informação transmitida, e a fórmula mostra exatamente o “quanto menor”. Ao inserir um perfil específico de ruído, sai um número preciso - não um limite vago nem um aceno para o infinito.
Com isso, pesquisadores podem aplicar a fórmula a um canal ruidoso realista - que perde fótons ou embaralha bits - e obter um teto quantitativo para a largura de banda rumo ao passado.
Antes, o que existia era apenas o caso perfeitamente limpo, que sempre foi uma fantasia.
O que isso implica para buracos negros
O artigo termina com uma conexão marcante. Alguns modelos de buracos negros descrevem a evaporação usando as mesmas estruturas matemáticas analisadas pela equipe.
Uma proposta conhecida relaciona o estado final de um buraco negro à teleportação quântica.
Se essa visão estiver correta, a matemática do grupo se traduz diretamente em informação escapando de um buraco negro em colapso. A fórmula de capacidade, então, impõe um limite para quanto conteúdo poderia sair de volta.
Isso conversa com o antigo paradoxo da informação - a questão de saber se um buraco negro destrói os dados que engole.
A discussão se arrasta há quase 50 anos. Um limite de capacidade calculado com precisão oferece um caminho novo para atacar o problema.
Seth Lloyd, físico do MIT e coautor do trabalho, vem explorando essa linha há anos. Um artigo anterior dele sobre escape de informação em buracos negros preparou o terreno. A análise atual torna esses argumentos mais robustos.
Trazendo a viagem no tempo para a ciência
Antes deste artigo, não se sabia quanta informação útil conseguiria sobreviver a um canal ruidoso que envia sinais para trás no tempo. Agora há uma fórmula exata, derivada de primeiros princípios - um avanço importante de entendimento.
As consequências práticas podem parecer longínquas. Canais reais de comunicação para o passado continuam fora do alcance dos laboratórios atuais.
Ainda assim, a mesma matemática vale para computação quântica comum, para certos modelos de buracos negros e para uma classe de experimentos quânticos que físicos já realizam hoje.
O que começou como um exercício mental inspirado por um filme de ficção científica agora tem um limite matemático preciso associado.
Teóricos podem usá-lo para comparar modelos alternativos de como buracos negros vazam informação. Experimentalistas podem confrontar seus arranjos de laboratório com o limite calculado.
A matemática da viagem no tempo ficou resolvida. A física mais difícil, porém, está apenas começando. A questão passa a ser se a natureza permite alguma versão real desse loop - e os físicos agora têm uma ferramenta muito mais afiada para investigar isso.
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