O arrasto de fundo carrega a fama de ser uma das ferramentas mais brutas do oceano: uma rede pesada puxada pelo leito marinho, varrendo o que encontra pela frente e, com frequência, deixando para trás um habitat danificado.
Apesar de toda a atenção que essa prática recebe, a discussão tinha uma lacuna surpreendentemente elementar: afinal, exatamente quantas espécies de peixes estão sendo capturadas.
Um novo estudo de pesquisadores da University of British Columbia (UBC) buscou responder a essa pergunta - e o total é maior do que a maioria das pessoas imaginaria.
Milhares de espécies capturadas
A equipe analisou mais de 9.000 registros de espécies de peixes reportadas em operações de arrasto de fundo entre 1895 e 2021. Com isso, constatou que mais de 3.000 espécies de peixes já foram registradas em capturas por arrasto de fundo no mundo.
E esse número provavelmente ainda está abaixo da realidade: as estimativas do grupo indicam que o total verdadeiro pode ser quase o dobro.
A primeira autora do estudo, Sarah Foster, é pesquisadora sênior e líder de programa no Project Seahorse, da UBC.
“Este é o retrato mais claro que já tivemos da amplitude do arrasto de fundo. Ele revela quantas espécies estão sendo capturadas e o quanto temos deixado passar”, disse Foster.
O arrasto de fundo pesa sobre a biodiversidade
O arrasto de fundo não se parece com fisgar algumas espécies-alvo em uma linha. Ele funciona mais como aparar um gramado - só que o “gramado” é um ecossistema complexo do fundo do mar, e a máquina não para por nada.
Por isso, é visto como uma das práticas de pesca mais destrutivas: além de remover animais em diferentes níveis da cadeia alimentar, também pode degradar habitats do leito marinho que levam anos ou décadas para se recuperar.
O novo inventário acrescenta mais um motivo de preocupação: a lista do que é capturado não é apenas extensa - ela inclui espécies que já enfrentam forte pressão de conservação.
Risco de extinção dentro da rede
Entre as espécies de peixes registradas em capturas de arrasto de fundo que têm um status de conservação atribuído, o estudo aponta que 1 em cada 7 está ameaçada ou quase ameaçada, com base na Lista Vermelha da IUCN.
Já 1 em cada 4 das espécies reportadas foi classificada como com dados insuficientes (informação insuficiente para avaliar o risco) ou sequer foi avaliada.
Em outras palavras, uma parcela enorme do arrasto ocorre sob uma névoa de informação. Estamos retirando animais do mar sem saber sequer se suas populações conseguem suportar isso.
Algumas espécies que aparecem nos registros de arrasto são animais que muita gente presume estar protegidos de equipamentos industriais de pesca.
Segundo o estudo, entre elas estão o peixe-viola gigante (criticamente ameaçado), o tubarão-zebra (ameaçado) e pelo menos três espécies vulneráveis de cavalos-marinhos.
“Não dá para gerir o que não se conhece. Quando removemos milhares de espécies sem entender os impactos sobre suas populações selvagens, corremos o risco de desestabilizar os próprios sistemas dos quais as pescarias dependem”, disse Foster.
Não se trata de poucas espécies azaradas
Um padrão marcante no conjunto de dados é como a pressão do arrasto pode recair sobre ramos inteiros da evolução. O inventário sugere que o arrasto de fundo captura todas ou a maioria das espécies em algumas famílias de peixes.
Isso inclui grupos de alta importância comercial e amplamente consumidos - como xaréus e corvinas -, mas também linhagens mais raras e incomuns, incluindo o peixe-viola gigante e a quimera de focinho de arado.
“O arrasto de fundo varre ramos inteiros da árvore da vida marinha. Ele não distingue entre espécies comuns e aquelas já à beira da extinção”, afirmou o coautor do estudo Syd Ascione, biólogo pesquisador do Project Seahorse.
“De peixes-viola gigantes criticamente ameaçados a quimeras de focinho de arado e cavalos-marinhos vulneráveis, exercemos pressão sobre espécies evolutivamente únicas, incluindo muitas sobre as quais ainda sabemos pouco demais.”
Esse ponto da “árvore da vida” é relevante porque biodiversidade não é apenas quantas espécies existem. Também envolve preservar uma história evolutiva singular.
Perder uma espécie realmente distinta pode significar apagar um ramo inteiro de características e funções que nenhum outro peixe consegue substituir.
O problema do “peixe-lixo”
Os pesquisadores também defendem que o que aparece nos dados provavelmente é só a parte visível do iceberg.
Espécies menores, muitas vezes, não são identificadas nem reportadas com detalhe e podem ser agrupadas em categorias como “peixe-lixo” ou “peixe misto”.
Esse tipo de registro até pode fazer sentido numa operação comercial corrida, mas para a ciência é um pesadelo, pois esconde a diversidade real que está sendo retirada.
Mesmo quando havia informação por espécie, o cenário continuou longe de ser tranquilizador: cerca de 95% das espécies registradas não eram alvo, mas 64% foram mantidas mesmo assim. Isso lembra que “captura acessória” nem sempre significa “devolvida ao mar”.
O arrasto precisa ser tratado como atividade de alto risco
Um detalhe central aqui é o controle: o arrasto de fundo não acontece majoritariamente em alto-mar sem lei.
O estudo destaca que quase 99% do arrasto de fundo ocorre em águas nacionais, o que significa que governos individuais têm poder para mudar as regras.
“Permitimos que pelo menos 100.000 embarcações de arrasto raspem o fundo do oceano, sem sequer saber o que estão capturando e que dano estão causando a essas espécies”, explicou a autora sênior Amanda Vincent, diretora do Project Seahorse.
“É importante que os governos adotem uma abordagem de precaução e excluam o arrasto de fundo de grandes áreas do oceano, e especialmente das chamadas áreas marinhas protegidas.”
O recado básico do inventário é direto: o arrasto de fundo não está capturando apenas “peixes”. Ele está capturando milhares de espécies, inclusive espécies ameaçadas - e ainda não estamos acompanhando os danos de forma adequada.
Se formuladores de políticas quiserem proteger a biodiversidade oceânica e, ao mesmo tempo, manter as pescarias viáveis no longo prazo, o primeiro passo é dolorosamente óbvio: contabilizar o que está sendo retirado e tratar os desconhecidos como risco - não como desculpa.
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