Pular para o conteúdo

Mount St. Helens: como um dia de esquilos-terrestres mudou a recuperação 43 anos depois

Esquilo saindo de sua toca em solo rochoso com flores amarelas e montanha ao fundo em área selvagem.

Décadas depois, a constatação é inevitável: a ideia foi genial.

Quando o vulcão Mount St. Helens explodiu em 1980, a região pareceu condenada por décadas. Ainda assim, três anos após a catástrofe, uma equipe de pesquisa apostou em um teste que soava quase absurdo: soltar esquilos-terrestres sobre um deserto de cinzas - com a esperança de que, ao cavarem, os animais reativassem uma rede invisível de micróbios e fungos. Hoje, 43 anos depois, um estudo novo mostra o alcance surpreendente desse empurrão inicial.

Um vulcão despedaça uma paisagem inteira

Em 18 de maio de 1980, o Mount St. Helens, no estado de Washington (EUA), entrou em erupção. Foi a explosão vulcânica mais forte da história dos Estados Unidos no século 20. Morreram 57 pessoas; florestas inteiras foram derrubadas; populações de animais despencaram; rios ficaram entupidos por lama e troncos. O que restou foi uma planície cinzenta e empoeirada, formada por pedra-pomes e cinzas.

Para ecólogos, a recuperação seria dolorosamente lenta. O solo havia ficado estéril, nutrientes foram lavados, e a camada fértil (húmus) acabou soterrada a metros de profundidade sob material vulcânico recém-depositado. As plantas mal conseguiam se fixar, e as raízes secavam depressa. Nos primeiros anos após a erupção, apenas algumas plantas pioneiras conseguiram, em pontos isolados, atravessar a camada de pedra-pomes.

"As encostas do vulcão pareciam outro mundo: cinzentas, mortas, silenciosas - longe de qualquer vida verde."

Por que justamente esquilos-terrestres deveriam correr para o resgate

No começo dos anos 1980, um grupo de pesquisadores da Califórnia e de outras instituições dos EUA procurava maneiras de acelerar o recomeço da natureza. A aposta era que não bastava levar sementes para a área: era preciso reativar a vida do solo que estava enterrada sob a camada de cinzas.

Nesse cenário, entraram os esquilos-terrestres. Na agricultura, esses roedores que vivem no chão costumam ser vistos como praga por escavarem e fragilizarem terrenos. Para os cientistas, porém, essa mesma característica ganhou outro sentido: os túneis poderiam trazer à superfície porções de solos antigos - e, com eles, microrganismos ainda presentes ali.

A lógica era direta:

  • Esquilos-terrestres abrem túneis e empurram terra para cima.
  • Em camadas mais profundas, ainda existem bactérias, fungos e nutrientes.
  • Essa terra “antiga” se mistura à cinza vulcânica estéril.
  • As plantas voltam a ter acesso a um ecossistema de solo funcional.

Por isso, em maio de 1983, os pesquisadores levaram vários esquilos-terrestres para duas áreas de pedra-pomes selecionadas na encosta do vulcão. Os animais ficaram ali por um dia, cavando, construindo e se alimentando - e então o experimento foi encerrado. Nada de intervenção contínua: apenas um impulso curto.

De campo morto a explosão de plantas em seis anos

Antes da intervenção, os cientistas contavam nas áreas de teste pouco mais de uma dúzia de plantas que, de algum modo, resistiam na camada dura de pedra-pomes. Ao redor, quase não havia verde.

Seis anos depois, veio a surpresa - no melhor sentido. Onde os esquilos-terrestres haviam remexido o solo, já existiam cerca de 40.000 plantas: gramíneas, ervas e arbustos, formando um tapete denso de vida. A poucos metros dali, em trechos semelhantes onde não houve esquilos-terrestres, a paisagem continuava praticamente vazia e cinzenta.

"Um único dia de atividade bastou para desviar o rumo de uma área inteira por décadas."

Para a equipe, ficou evidente que isso não poderia ser explicado apenas por algumas sementes espalhadas. Alguma transformação profunda havia acontecido abaixo da superfície.

As estrelas discretas: fungos micorrízicos no subsolo

Um estudo recente publicado na revista científica “Frontiers” detalhou o que, de fato, ocorreu. O foco recai sobre os chamados fungos micorrízicos. Esses fungos do solo vivem dentro ou ao redor das raízes e estabelecem com as plantas uma parceria íntima.

De forma simplificada, a troca funciona assim:

Papel O que oferecem
Planta Fornece açúcar e outras fontes de energia produzidas pela fotossíntese.
Fungo micorrízico Amplia o sistema radicular com filamentos finos, acessando água, fósforo e minerais.
Vantagem conjunta As plantas crescem mais rápido, toleram melhor a seca e ajudam a estabilizar o solo.

Foi justamente essa rede subterrânea que os esquilos-terrestres colocaram de volta em funcionamento. Ao cavarem, eles trouxeram para cima fragmentos de solos mais profundos, nos quais ainda restavam esporos de fungos micorrízicos e outros micróbios. Esses esporos aproveitaram a oportunidade: colonizaram as poucas raízes disponíveis e, com o tempo, reconstruíram uma comunidade microbiana estável dentro da camada de pedra-pomes que antes era praticamente “morta”.

Quatro décadas depois: o efeito ainda permanece

O mais inesperado é que os benefícios daquele único dia com esquilos-terrestres ainda aparecem hoje, 43 anos após a erupção. Amostras das áreas testadas naquela época mostram uma comunidade microbiana rica. Os fungos micorrízicos seguem ativos: ajudam árvores e arbustos a absorver nutrientes e contribuem para a fixação de carbono no solo.

Nessas partes, as árvores crescem de forma mais densa e se recuperam com mais rapidez quando perdem agulhas ou sofrem danos por tempestades. As agulhas caídas devolvem nutrientes ao ambiente; os fungos os capturam e redistribuem às raízes. Assim, a espiral negativa de escassez de nutrientes e erosão foi convertida em uma espiral positiva de formação de húmus e crescimento vegetal.

"A vida invisível do solo decide se uma paisagem continua estéril ou volta, em pouco tempo, a ser um ecossistema vivo."

O que essa história significa para conservação e crise climática

O experimento no Mount St. Helens evidencia como processos subestimados no solo podem moldar ecossistemas inteiros. Em vez de focar apenas em plantar mudas ou lançar sementes, a biologia do solo ganha protagonismo: micróbios, fungos, vermes - e também mamíferos escavadores.

Em projetos de restauração após incêndios, mineração ou enchentes, isso pode trazer implicações práticas. Entre as possibilidades, estão:

  • incentivar de forma direcionada animais do solo, como camundongos ou esquilos-terrestres, em áreas degradadas;
  • incorporar terra de florestas saudáveis que contenha comunidades ativas de fungos;
  • reduzir o uso de pesticidas, que prejudicam fortemente fungos e bactérias do solo;
  • pesquisar combinações entre reflorestamento e inoculação de fungos em mudas.

No contexto da crise climática - com aumento de incêndios florestais e eventos extremos - esse tipo de conhecimento ganha ainda mais importância. Para reconstruir florestas com rapidez, é preciso pensar no que acontece abaixo da superfície, e não apenas no que se vê nas copas.

Por que esquilos-terrestres passaram a ser vistos como aliados do clima

Esquilos-terrestres, esquilos de solo, cães-da-pradaria e outros roedores escavadores têm má fama em muitas regiões. Eles abrem buracos em pastagens, fragilizam diques e roem raízes. O caso do Mount St. Helens, porém, reposiciona esses animais.

As atividades deles:

  • afrouxam solos compactados,
  • misturam camadas e trazem solos antigos para a superfície,
  • criam micro-habitats para insetos, fungos e sementes,
  • favorecem a infiltração de água da chuva e reduzem a erosão.

No fim, tudo isso ajuda paisagens a ficarem mais resistentes a secas, chuvas intensas e oscilações de temperatura. Em ecossistemas marcados por perturbações - como estepes, áreas vulcânicas ou regiões queimadas - esses animais podem funcionar como espécies-chave discretas.

O que realmente está por trás de termos como micorriza

Para entender por que essa história vai além de uma curiosidade sobre roedores, vale situar o termo micorriza. Em muitas florestas da Europa, até 80 ou 90 por cento das espécies de árvores dependem dessas parcerias com fungos. Sem elas, as árvores crescem mais lentamente e ficam mais vulneráveis ao estresse hídrico e a doenças.

Na agricultura e na silvicultura, já existem iniciativas de “inocular” mudas com fungos selecionados ainda no viveiro. Na prática, isso busca o mesmo mecanismo que os esquilos-terrestres desencadearam no Mount St. Helens - só que de forma mais controlada e direcionada. O estudo do vulcão, por sua vez, oferece um grande experimento a céu aberto.

Há exemplos práticos também mais próximos da Europa Central: em antigas áreas de mineração a céu aberto na Alemanha, projetos de restauração vêm começando cada vez mais com ações para “acordar” o solo - como aplicar camada superficial rica em vida ou criar estruturas de madeira morta, que servem de base para fungos e pequenos animais. São estratégias alinhadas ao que foi observado no vulcão americano - apenas sem uma erupção espetacular ao fundo.

A lição do episódio com os esquilos-terrestres, portanto, é surpreendentemente clara: para curar paisagens, não basta pensar em máquinas grandes ou apenas em árvores. É preciso considerar o que é pequeno e invisível - fungos, bactérias e os animais que cavam e revolvem o chão. Justamente as espécies muitas vezes tratadas como incômodo podem acabar sendo as heroínas silenciosas de um ecossistema inteiro.


Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário