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Ondas internas nos fiordes da Groenlândia revelam um sistema oculto

Dois homens com jaquetas laranja usam tablets enquanto observam derretimento de geleira no mar ao pôr do sol.

Nos fiordes estreitos da Groenlândia, acontece muito mais do que imagens aéreas ou boias de medição deixam perceber. Pesquisadores identificaram agora um sistema oculto: ondas internas no oceano, com altura de prédios, acionadas por icebergs que despencam. Essas ondas atacam as geleiras exatamente no ponto mais vulnerável - por baixo, muito abaixo da superfície do mar.

Quando um iceberg cai, começa uma reação em cadeia

Quando um enorme bloco se rompe na frente de uma geleira e despenca no mar, de fora parece um único episódio dramático. Há o estrondo, a água espirrando, as cenas impressionantes. Só que, dentro do fiorde, o evento desencadeia muito mais processos.

A queda dessa massa libera uma quantidade gigantesca de energia. Essa energia se propaga pela água na forma de ondas. Parte dela aparece na superfície, por exemplo como uma ondulação perceptível ou um pequeno “maremoto”. Mas esses movimentos visíveis são apenas uma fração do que realmente está em curso.

“Abaixo da superfície, pacotes de ondas invisíveis percorrem o fiorde, tão altos quanto arranha-céus e com várias centenas de metros de profundidade.”

Os cientistas chamam esse fenômeno de ondas internas. Elas não se deslocam na superfície, e sim ao longo de camadas de transição entre águas com densidades diferentes - por exemplo, entre uma água mais fria e menos densa acima e outra um pouco mais quente e mais salgada abaixo. Na Groenlândia, essas ondas internas podem alcançar alturas da ordem de um edifício.

O efeito é parecido com o de um misturador colossal: as ondas puxam água mais quente das profundezas para cima e empurram água mais fria da superfície para baixo. Assim, repetidamente, uma massa de água relativamente mais quente chega direto à base das línguas de gelo que avançam para dentro do mar.

Fibra óptica como “ouvido” no fundo do mar

Para registrar esses processos, a oceanografia tradicional já não dava conta. Satélites enxergam apenas a superfície, e boias pontuais produzem dados com resolução insuficiente. Por isso, uma equipe internacional adotou uma saída incomum em um fiorde do sul da Groenlândia: usar fibra óptica como um sensor gigantesco.

Um cabo de fibra óptica com cerca de 10 quilômetros foi instalado no fundo do mar. Com a técnica chamada sensoriamento acústico distribuído (Distributed Acoustic Sensing), cada metro da fibra vira um ponto de medição. Pulsos curtos de laser percorrem o cabo, e deformações mínimas e pequenas variações de temperatura alteram o sinal retroespalhado.

  • cada trecho da fibra responde a vibrações no solo e na água
  • o sistema detecta movimentos de ondas, correntes e icebergs
  • mudanças de temperatura podem ser mapeadas com altíssima resolução espacial

A partir dessa malha densa de dados, os pesquisadores conseguiram acompanhar como, após cada desprendimento de iceberg, uma sequência de ondas atravessava o fiorde. As primeiras ondas se deslocavam de forma visível pela superfície e perdiam força relativamente rápido. Em seguida, surgia uma série de ondas internas que continuava rolando pela coluna d’água por horas - invisível, mas muito eficiente.

Derretimento no ritmo das ondas internas

Com as novas medições, foi possível apresentar números concretos pela primeira vez. As ondas internas repetidamente levam água mais quente das profundezas até a base da geleira. Ali, a temperatura sobe localmente a ponto de o gelo derreter diretamente em contato com a água do mar.

“Uma única fase de onda pode derreter a parte inferior de uma geleira em cerca de um centímetro - e isso se repete continuamente.”

Somando ao longo do dia, o derretimento pode chegar a até 1 metro. Essa taxa é da mesma ordem do avanço diário de algumas geleiras. Em outras palavras: enquanto a massa de gelo avança lentamente para dentro do fiorde, a água remove material por baixo praticamente no mesmo ritmo.

Com isso, a própria geometria da frente da geleira muda. Ela fica escavada por baixo, mais frágil e perde estabilidade. O resultado é que novos blocos grandes se soltam e caem na água - e, por sua vez, disparam novas séries de ondas. Os pesquisadores descrevem isso como um tipo de “efeito de tigela”: cada desprendimento ajuda a preparar o seguinte.

Geleiras como uma máquina própria de derretimento

Esse novo olhar reposiciona as geleiras da Groenlândia. Até aqui, a atenção se concentrava sobretudo no aumento da temperatura do ar e no aquecimento geral do oceano. Agora fica claro que as próprias geleiras funcionam como amplificadores.

A ideia de que elas derretem na superfície no verão e ficam quase “paradas” no inverno já não se sustenta. Com o desprendimento constante (calving) dentro dos fiordes e a geração de ondas internas, o sistema entra num ciclo de reforço: mais quedas produzem mais mistura, que intensifica o derretimento na base - o que, por sua vez, favorece novos desprendimentos.

Esse mecanismo de amplificação quase não aparecia em modelos de derretimento subaquático. Por isso, estimativas anteriores do derretimento abaixo da água ficaram, em alguns casos, várias vezes abaixo do real. Só com a análise dos dados da fibra óptica ficou evidente quão energéticos e persistentes são esses trens de ondas escondidos.

Um fiorde como laboratório para o futuro dos mares

A geleira Eqalorutsit Kangilliit Sermiat, no sul da Groenlândia, é um dos casos mais bem documentados. Sua língua de gelo chega diretamente ao mar e ela é considerada um exemplo típico de geleira de maré. Geleiras desse tipo reagem de forma sensível a mudanças no oceano.

Sozinha, essa geleira lança no mar cerca de 3,6 quilômetros cúbicos de gelo por ano. Para comparação: é quase três vezes o volume da conhecida Geleira do Ródano, na Suíça. E cada iceberg que despenca no fiorde volta a acionar as ondas invisíveis que misturam a água.

O que se observa aqui em escala local é uma peça de um quadro muito maior. A camada de gelo da Groenlândia armazena volumes gigantescos de água. Se ela derretesse por completo, o nível do mar no planeta subiria cerca de 7 metros. Ainda estamos longe disso, mas cada centímetro extra afeta cidades costeiras, ressacas e o lençol freático.

Consequências para clima e correntes

O derretimento acelerado nos fiordes da Groenlândia também altera a circulação oceânica. A água de degelo é mais doce e mais leve do que a água salgada do mar. Ela se espalha pela superfície e interfere em sistemas de correntes de grande escala, como a Corrente do Atlântico Norte, da qual faz parte a famosa Corrente do Golfo.

Se esse enorme transporte de calor muda, padrões de tempo em todo o Atlântico Norte também se deslocam. Na Europa, isso pode aparecer como mudanças nas trajetórias de tempestades, períodos chuvosos mais longos ou ondas de calor em outras épocas. Assim, as ondas silenciosas sob os icebergs da Groenlândia acabam tendo um efeito de longo alcance, chegando até o cotidiano da Europa Central.

Por que os satélites esbarram em limites

Muita gente associa derretimento do gelo a imagens aéreas impressionantes: línguas de geleira encolhendo, campos de neve sujos, placas de gelo se partindo. Tudo isso é real - mas mostra principalmente a superfície. Só que os processos decisivos muitas vezes acontecem a várias centenas de metros de profundidade.

Satélites medem diferenças de altitude, velocidade de escoamento e temperatura na superfície. As ondas internas no fiorde, porém, ficam fora do alcance deles. Até agora, esses processos só podiam ser inferidos por sondas isoladas em boias ou medições a partir de navios. A técnica com fibra, em contraste, aumenta a densidade de pontos de observação a um patamar antes inalcançável - na prática, cada metro de cabo gera informação.

“Com isso, entra em foco uma parte inteira do sistema climático que antes parecia uma caixa-preta: a interação entre gelo e mar em profundidade.”

Termos e contexto em poucas palavras

O que são ondas internas?

Ondas internas não se movem por cima da água, mas ao longo de interfaces dentro da coluna d’água. Onde massas de água com temperatura ou salinidade diferentes se encontram, forma-se uma espécie de fronteira invisível. Quando essa fronteira é perturbada - por exemplo, pelo impacto de um iceberg em queda - uma onda passa a se propagar ao longo dessa linha interna.

Essas ondas podem ficar enormes porque a água mais densa do fundo responde de maneira mais lenta. Elas transportam energia e misturam as camadas. Para as geleiras, isso significa: água mais quente das profundezas chega a regiões que por muito tempo foram consideradas relativamente estáveis.

Potencial do Distributed Acoustic Sensing no dia a dia

A técnica de fibra óptica foi criada originalmente para finalidades bem diferentes, como monitoramento de dutos ou de trilhos ferroviários. O fato de agora ganhar espaço na pesquisa polar mostra o alcance do método:

  • cabos de fibra óptica existentes poderão ser usados no futuro como sensores climáticos
  • grandes trechos de litoral podem ser monitorados de forma contínua
  • riscos de deslizamentos submarinos ou terremotos sob o mar se tornam detectáveis mais cedo

Para a pesquisa climática, isso abre uma fonte de dados nova, que não se limita à Groenlândia. Geleiras no Alasca, nas bordas da Antártica ou em lagos de alta montanha reagem a mecanismos semelhantes. Onde gelo encontra água, ondas internas e correntes escondidas podem alterar fortemente a taxa de derretimento.

Para regiões costeiras no mundo todo, surge então uma questão bem concreta: com que rapidez obras de proteção, planejamento urbano e modelos de seguro conseguem se adaptar a um mar que não apenas sobe devagar, mas também se comporta de forma mais imprevisível do que se imaginava por causa desses efeitos amplificadores?


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