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Aves marinhas e o aquecimento dos oceanos: 63 milhões de anos de história

Pássaro adulto e filhote sobre pedra no mar com barco e bóia ao fundo em dia ensolarado.

Quando a temperatura do oceano sobe, a regra mais comum na biologia do clima é a diminuição do tamanho corporal: muitos animais marinhos encolhem. Peixes e invertebrados ficam menores.

Esse padrão já foi registado em dezenas de espécies e acabou por se tornar uma das regularidades mais consistentes associadas ao aquecimento.

Com as aves marinhas, porém, a história é diferente. Um estudo novo, que reconstruiu 63 milhões de anos de evolução, concluiu que, quando o oceano aquece depressa, essas aves não reduzem o corpo - o que encolhe é o “mapa” em que vivem.

Rastreando as árvores genealógicas

O biólogo evolutivo Dr. Jorge Avaria-Llautureo, da Universidade de Reading, liderou uma equipa que montou árvores filogenéticas de albatrozes, petréis, cagarras e petréis-de-tempestade.

Depois, cada ramificação dessas árvores foi confrontada com registos antigos de temperatura e com a geografia oceânica, recuando milhões de anos no tempo.

Com isso, os investigadores conseguiram acompanhar como as aves marinhas se deslocaram, evoluíram e alteraram as suas áreas de ocorrência ao longo de 63 milhões de anos.

A abordagem também permitiu responder a uma pergunta que estudos de campo dificilmente resolveriam dentro de uma vida humana: como as aves marinhas reagem quando o clima muda rapidamente?

Aves marinhas fogem à regra do aquecimento

O palpite mais esperado era simples: elas encolheriam. Em muitos peixes e outros organismos do mar, o aquecimento levou à redução do tamanho, porque corpos menores dissipam calor com mais facilidade.

Um estudo independente com peixes descreveu precisamente esse efeito. Mas, nas aves marinhas, ele não apareceu.

A temperatura, por si só, praticamente não explicou as diferenças de tamanho entre as espécies, e a velocidade do aquecimento pesou ainda menos quando o assunto foi o porte corporal.

Em outras palavras, as espécies que atravessaram mudanças climáticas rápidas não “ajustaram” a resposta encurtando o próprio corpo.

Mapas menores, voos mais longos

O que se alterou, em vez disso, foi a geografia. As espécies que viveram os períodos históricos de aquecimento mais acelerado acabaram associadas às áreas de distribuição mais pequenas.

Além disso, essas mesmas aves foram as que passaram a voar mais longe. Elas traçaram novas rotas pelo oceano, procurando trechos de água que continuassem adequados.

A combinação é problemática: uma ave com área de vida reduzida e deslocamentos mais longos tende a gastar mais energia para encontrar alimentos menos previsíveis.

Em geral, espécies maiores ocupam áreas mais amplas, o que pode oferecer mais espaço para se reajustarem. Já as aves pequenas e com distribuição localizada têm menos folga. Bem menos.

“Seabirds have survived dramatic climate shifts before, but never at the speed we are seeing today”, disse Avaria-Llautureo.

A velocidade da mudança climática

Outro resultado contrariou o que muitos esperariam. Importou menos se o clima estava a aquecer ou a arrefecer; o que fez mais diferença foi a rapidez dessa mudança.

Considerando as 120 espécies analisadas, apenas o ritmo de variação da temperatura explicou cerca de um terço da diferença observada na contração das áreas de ocorrência.

Esse ponto muda a forma de encarar a conservação. Não basta focar apenas em espécies de águas frias, porque o risco central não está na direção da mudança - e sim na sua velocidade.

Trabalhos anteriores sobre velocidade climática chegaram a uma conclusão semelhante para a vida em terra. Os dados das aves marinhas levam essa evidência para o oceano aberto.

Taxa sem precedentes de aquecimento do oceano

A linhagem das aves marinhas surgiu em águas que já não existem hoje do mesmo modo.

O ancestral comum do grupo viveu perto do que agora é o Mar de Coral, a leste da Austrália, há cerca de 63 milhões de anos. Naquele período, o clima era de temperado a quente.

A partir desse ponto de origem, o grupo espalhou-se pelo planeta, sobretudo através do Oceano Pacífico.

No caminho, atravessou oscilações climáticas longas e lentas, adaptando-se a cada uma ao longo de centenas de gerações.

Atualmente, o aquecimento do oceano ocorre a um ritmo aproximadamente 10,000 vezes mais rápido do que a cadência histórica à qual essas aves se ajustaram. Nada no registo evolutivo delas se assemelha a isso.

Quatro espécies em risco

Em seguida, a equipa projetou os modelos até 2100, usando cenários de emissões baixos e altos. No trajeto de menores emissões, as perdas de área mantêm-se limitadas.

No pior cenário, mais de 70 por cento das espécies de aves marinhas do grupo perde território. E as que mais perdem área são empurradas para deslocamentos ainda mais longos.

Quatro espécies ficam na beira do precipício: o Petrél-das-Galápagos, o Petrél-de-Jouanin, a Cagarra-de-Newell e o Petrél-de-tempestade-de-ventre-branco. Todas têm áreas pequenas e pouca margem para recuar.

Com aquecimento severo, cada uma dessas espécies é empurrada para um risco real de extinção.

Cada uma dessas aves faz ninho em apenas algumas ilhas e alimenta-se numa faixa relativamente estreita de mar.

As aves marinhas tropicais eram menos estudadas antes deste trabalho, e o registo histórico prolongado sugere que as suas distribuições mais apertadas podem deixá-las mais expostas.

Implicações mais amplas do estudo

O manual mais comum da conservação protege os lugares onde os animais já vivem. Para aves marinhas, essa estratégia fica incompleta, porque as próprias aves mudam de lugar.

Até este estudo, ninguém tinha avaliado, no conjunto do grupo, se no passado a resposta mais frequente ao aquecimento rápido era a redução do território ou do corpo. O resultado é inequívoco.

Se as aves reagem ao aquecimento deslocando-se, elas precisam de destinos possíveis. Não apenas das áreas que ocupam hoje.

Por isso, os planos de conservação têm de identificar e resguardar as águas que essas espécies precisarão alcançar no futuro.

Outras pesquisas já colocam as aves marinhas entre os grupos de aves mais ameaçados do planeta. Estes achados tornam mais claro o que está em jogo e onde o esforço de conservação precisa de se expandir.

As aves marinhas transportam nutrientes entre o oceano e a terra, e as suas colónias sustentam pescarias.

Perdê-las não significa apenas reduzir uma lista de espécies. Significa retirar uma peça funcional do modo como o oceano opera.

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