Dar nome a uma espécie deveria encerrar a discussão: publica-se a descrição, um exemplar é depositado num museu e o animal passa a carregar uma etiqueta - às vezes por mais de um século e meio.
Foi, em essência, isso que aconteceu com uma cobra venenosa de montanha batizada pela primeira vez em 1864.
Só que um estudo recente extraiu DNA do exemplar original preservado - tecido que estava há 160 anos num museu britânico - e mostrou que um único nome, na prática, estava sendo aplicado a cinco animais totalmente diferentes.
Cinco espécies escondidas no mesmo rótulo
O que os cientistas chamavam de víbora-de-fosseta-do-Himalaia, na verdade, não é uma única espécie, e sim cinco espécies distintas. Duas já eram reconhecidas. Três são novas para a ciência.
A pesquisa foi liderada por Daniel Jablonski, biólogo evolutivo da Universidade Comenius Bratislava, na Eslováquia. Ele passou anos em expedições de campo pelo Paquistão e pelo Afeganistão, onde vive a maior parte das cobras agora identificadas.
Para chegar a esse resultado, a equipa reuniu num único conjunto de dados amostras de tecido recentes, animais preservados há mais de um século, medições corporais e varreduras de crânio em alta resolução. Os cinco grupos apresentaram um nível de separação genética que os biólogos consideram evidência de espécies diferentes.
Diversidade oculta ficou enterrada por décadas
Durante mais de 150 anos, a víbora-de-fosseta-do-Himalaia pareceu ser uma única espécie porque os animais são muito difíceis de distinguir. Eles partilham um corpo robusto, cabeça triangular, manchas escuras e preferência por encostas frias em grandes altitudes.
Em serpentes muito próximas, que se separam em espécies distintas, é comum que a aparência continue quase igual - sobretudo quando ocupam o mesmo tipo de habitat e exploram as mesmas presas.
Um estudo recente sobre lagartos-gecko de montanha da Arábia encontrou o mesmo padrão de diversidade escondida.
A descrição original baseou-se em exemplares enviados para a Grã-Bretanha por exploradores do século XIX. Esses animais viraram a referência para tudo o que veio depois; qualquer serpente parecida com eles acabava recebendo o mesmo nome.
Exemplares antigos de cobras revelam segredos
O maior feito técnico do trabalho envolveu obter DNA de cobras preservadas em álcool desde o século XIX e o início do século XX.
Exemplares de museu com essa idade não foram recolhidos pensando em genética moderna, e o DNA que guardam está altamente fragmentado.
Extrair DNA aproveitável desse tipo de tecido é um desafio sério, como explicou uma revisão recente da área. A equipa teve de lidar com a dificuldade de sequenciar DNA muito degradado de exemplares antigos e, ao mesmo tempo, recolher tecido fresco em novas expedições.
Entre os materiais analisados estava uma serpente estudada pelo próprio Albert Günther na década de 1860. O DNA desse exemplar ligou o nome original da espécie a uma “impressão digital” genética específica - que não correspondia a populações de outras regiões.
Sylvia Hofmann, investigadora do Museu Koenig em Bonn, na Alemanha, que co-liderou a análise, resumiu sem rodeios: essas coleções “não são apenas registros do passado” - são infraestrutura ativa para a ciência contemporânea.
Novas víboras são nomeadas oficialmente
Três novas espécies do género Gloydius ocupam, cada uma, uma faixa estreita de terreno em montanhas altas. Gloydius hindukushensis vive no Hindu Kush, no noroeste do Paquistão; G. hazarensis ocorre no nordeste do Paquistão; e G. nepalensis é encontrada no centro do Nepal.
A origem geográfica de cada cobra foi incorporada ao respetivo nome. A equipa também designou um lectótipo - um único exemplar de referência que fixa, de uma vez por todas, o nome original da espécie do Himalaia a um animal conhecido.
Além da genética, as três novas espécies diferem entre si e em relação a parentes mais conhecidos por contagens de escamas, proporções do corpo e detalhes do crânio.
As diferenças são pequenas, porém consistentes, e coincidem com os agrupamentos genéticos.
Ossos, genes e escamas
A análise incluiu sete genes de diferentes partes do DNA das serpentes. Entre os cinco grupos, um dos genes apresentou uma distância genética acima de 14 por cento - um valor bem dentro do intervalo que biólogos tratam como evidência de espécies separadas.
Para avaliar a estrutura corporal, a equipa mediu escamas e proporções do corpo e depois submeteu exemplares selecionados a um scanner ósseo de alta resolução.
A geometria do crânio revelou diferenças discretas que a contagem de escamas, sozinha, não captava.
Observações sobre onde cada espécie de facto vive - incluindo altitude, clima e tipo de habitat - completaram o quadro.
Nenhuma linha de evidência sustentou o caso por si só; a força dos resultados veio do facto de todas apontarem na mesma direção.
Cobras de montanha enfrentam ameaças
Cada espécie agora reconhecida ocupa uma área relativamente limitada. Vales isolados podem ter separado populações ao longo do tempo, empurrando gradualmente os grupos para se tornarem espécies distintas.
Uma serpente restrita a um canto do Paquistão ou a um trecho do Nepal teria menos opções de refúgio se mineração, abertura de estradas, mudanças climáticas ou pastejo alterassem o seu habitat.
Mineração, construção de estradas, aquecimento do clima e pressão do pastejo atingem com mais força as espécies de distribuição estreita.
Há também um lado médico concreto. Cobras venenosas no sul da Ásia provocam dezenas de milhares de mordidas por ano, e identificar qual espécie mordeu pode mudar o tratamento. Um artigo recente mostrou o quanto essa identificação influencia os desfechos dos pacientes.
Registos de soro antiofídico precisam de atualização
Até este estudo, a víbora-de-fosseta-do-Himalaia aparecia como uma única entrada em guias de campo e bases de dados de soro antiofídico. Agora, ela corresponde a cinco espécies distintas. Três estavam “escondidas” por décadas em frascos de museu e em vales remotos.
Cientistas terão de reavaliar listagens de conservação, porque a pesquisa dividiu o que antes era tratado como uma população ampla em várias espécies de distribuição restrita.
Médicos e autoridades de saúde no norte do Paquistão e no Nepal podem melhorar as orientações para tratamento de mordidas ao identificar exatamente qual espécie esteve por trás do acidente.
No fim, frascos antigos de museu não são apenas armazenamento: são ferramentas científicas em funcionamento, e a ciência guardada neles ainda está a ser revelada.
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