A dependência de tecnologia e o déficit de credibilidade da grande imprensa brasileira voltaram a ficar expostos ontem, quando se publicou uma informação errada sobre uma aeronave, sustentada por uma “pesquisa” feita com Inteligência Artificial.
Com a aproximação da Copa do Mundo de 2026, em que o Brasil buscará o inédito hexa, a atenção naturalmente se concentra na Seleção Brasileira de futebol masculino, como acontece a cada quatro anos. Desde que saiu a lista oficial de convocados, a cobertura se intensificou - e seguiu até a despedida do grupo, que deixou ontem o Rio com destino a Newark.
Desde março, informamos aqui qual seria a aeronave usada pela delegação, o que, na prática, não chega a ser novidade: o Boeing 767 da companhia aérea sul-africana Aeronexus já havia sido empregado pela própria CBF em partidas das Eliminatórias desta mesma Copa e, curiosamente, naquela ocasião não houve destaque para valores da aeronave.
O boato do Boeing 767 de R$ 1 bilhão
Entre animações e especulações, na manhã desta segunda-feira alguns “jornalistas” passaram a comentar o planejamento logístico até o centro de treinamento do New York Red Bulls, que servirá como base da CBF na Copa do Mundo da América do Norte. Foi aí que apareceu uma alegação que, no bom português, é “sem pé nem cabeça”: a de que o jato que transportava a seleção valeria R$ 1 bilhão, isto é, R$ 1.000.000.000.
Ao que tudo indica, a afirmação voltou a circular com força depois de ter sido publicada neste ano pela ESPN Brasil, um veículo visto como relevante no esporte e que leva a marca global da ESPN, líder do segmento. Em seguida, a cifra foi reproduzida por canais que transmitirão oficialmente as partidas, como a Globo e a CazéTV, e daí ganhou tração em páginas de fofocas que já são frequentes na disseminação de informações falsas, como a Choquei.
Mas a origem anterior do número aparece no portal Terra, no ano passado, também sem indicar fontes, afirmando que o avião teria sido avaliado em R$ 1 bilhão. Naquele momento, o Flamengo fretou a aeronave para viajar ao Mundial de Clubes; por se tratar de um clube - e não da seleção - o valor não recebeu o mesmo destaque em outros meios.
Desde o começo, o montante chamou atenção por parecer fora da realidade. O 767 em questão foi fabricado em 1990, em uma encomenda da LOT Polish Airlines, a companhia aérea de bandeira da Polônia. E hoje, em junho de 2026, bastam poucos minutos no Google para encontrar, por exemplo, outro 767-300ER anunciado por US$ 9,5 milhões - o que, na cotação atual, dá cerca de R$ 47 milhões, um número 20 vezes menor do que o divulgado pela grande mídia.
Ainda com uma busca rápida, também na primeira página do Google, aparece um 767-200ER (menor) ofertado por US$ 2,9 milhões, ou seja, R$ 14 milhões. Nesse caso, além de ter dimensões inferiores, a aeronave é cinco anos mais velha do que o jato utilizado pela seleção e, por isso, tende a ter um preço de mercado mais baixo.
Esses dois exemplos já deixam claro que a cifra repetida por mídias esportivas não se encaixa na realidade. Então, de onde saiu a história dos R$ 1 bilhão? A resposta é mais simples do que parece.
De onde saiu o número: tabela da Boeing, IA e US$ 217 milhões
Alguns leitores nos enviaram a imagem abaixo, mostrando um extrato gerado por IA (possivelmente o ChatGPT) com uma tabela de valores do Boeing 767 - e é aí que a trama se revela. No material, afirma-se, sem apontar fontes, que o último valor de tabela de um 767-300ER chegaria a até US$ 217 milhões, quantia que, de fato, se aproxima de R$ 1 bilhão.
É importante observar que a maioria dos números dessa tabela parece relativamente correta e coerente - inclusive o adicional por interior VIP. Ainda assim, por conveniência (ou por conivência), escolheu-se o maior valor disponível, além de não se tratar de um dado atualizado.
Com uma pesquisa um pouco mais cuidadosa, sem exigir muito tempo, dá para localizar a origem do número de US$ 217 milhões: a última tabela oficial de preços de lista da Boeing, publicada em 2019. Depois disso, a fabricante americana deixou de divulgar valores de tabela - que nunca são os montantes contratuais (normalmente com descontos de 30% ou mais), mas sim referências de mercado. A Airbus também interrompeu a publicação desses dados.
Em 2019, já haviam se passado cinco anos desde o fim da produção do 767 de passageiros, de modo que o valor tinha caráter basicamente simbólico. E, mesmo que não fosse, refletiria o preço de uma aeronave nova de fábrica - não de um jato produzido em 1990. Tratar esse montante como se fosse “o valor do avião” hoje seria como afirmar que um automóvel fabricado em 2020 vale o mesmo que a versão topo de linha deste ano de 2026, mesmo estando descontinuado.
O valor de mercado, no fim, é ditado por oferta e demanda: atualmente um 767 entrega menos alcance que jatos mais novos, emite mais poluição e custa mais caro para manter. A demanda efetiva de compra se concentra, sobretudo, nas variantes cargueiras e na versão de reabastecimento aéreo militar, o KC-46A Pegasus, que nos contratos mais recentes foi adquirido por US$ 160 milhões cada (R$ 806 milhões) - ainda assim, longe de R$ 1 bilhão.
Só por esses elementos, já seria possível concluir que a imprensa brasileira tem atuado com preguiça, aceitando respostas rápidas de IA sem compreender como usar a ferramenta de forma responsável, selecionando o que “fecha” melhor para a narrativa e abandonando o compromisso com a verdade - mesmo quando ela aparece algumas linhas acima.
O que os dados históricos e o mercado mostram
Ainda assim, resolvemos ir além e checar quanto de fato se pagou por esse avião no momento da compra, fazendo o trabalho que se espera de uma mídia especializada e independente.
Os 767 da LOT foram os primeiros aviões não soviéticos a integrarem a frota da companhia polonesa e, por isso, receberam ampla atenção da imprensa quando o pedido foi feito, em 1988, já no período em que a União Soviética se aproximava do colapso.
Naquele tempo, a Boeing mantinha seu escritório em Chicago, e o jornal local Chicago Tribune noticiou que a encomenda dos três primeiros jatos (incluindo motores) foi estimada em US$ 220 milhões em valores de tabela - o que também pode ter alimentado a desinformação original. Ao dividir o total por três, chega-se a US$ 73 milhões por aeronave. Atualizando pela inflação do período, o número alcançaria US$ 190 milhões (R$ 950 milhões) em valores atuais, mas sem considerar depreciação e ainda dentro da lógica de “preço de lista”, não de valor efetivamente pago.
No fim das contas, o 767 usado pela CBF nunca valeu R$ 1 bilhão - nem quando saiu da fábrica. A cifra reproduzida por veículos sem compromisso com a verdade serviu, ao que parece, apenas para enaltecer uma seleção que anda desacreditada ou para gerar polêmica sobre gastos.
O que pode soar como um erro sem impacto direto na vida do cidadão comum revela um problema maior: até que ponto é confiável a informação despejada diariamente? Se um jato tem o preço inflado em 20 vezes, números de crimes podem ser exagerados em duas vezes ou índices eleitorais reduzidos em três vezes, já que pouca gente percebe e as agências de checagem mal dão conta do seu pouco trabalho. Mas é Copa do Mundo!
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