Os depósitos fossilíferos da Era do Gelo em Taiwan já renderam mamutes, crocodilos gigantes e até um gato-dentes-de-sabre - mas, até agora, nenhum pássaro extinto. A descrição recente de um pavão fóssil encontrado na ilha muda esse cenário e registra a primeira espécie de ave do Pleistoceno identificada em Taiwan.
O osso pertenceu a uma ave do tamanho de um pavão que percorreu o sul de Taiwan há centenas de milhares de anos. Ela não deixou descendentes vivos e tampouco aparece em qualquer registro moderno.
Descoberta perto de Tainan
O fóssil veio da Formação Chiting, uma faixa de rochas do Pleistoceno Médio próxima à cidade de Tainan, no sul de Taiwan. Os sedimentos têm entre 400.000 e 800.000 anos, formados numa época em que a ilha tinha um aspecto muito diferente do atual.
Um colecionador local, Li-Ren Hou, encontrou o osso e o doou ao Dr. Cheng-Hsiu Tsai, professor associado da Universidade Nacional de Taiwan (NTU). Tsai coordena o principal laboratório do país dedicado a fósseis de vertebrados e construiu boa parte do registro paleontológico de Taiwan com doações como esta.
Ao lado do primeiro autor Yong-Jie Lan e de Gerald Mayr, do Instituto de Pesquisa Senckenberg (SMF), na Alemanha, Tsai confrontou o material com ossos de aves atuais e extintas. A comparação levou o espécime diretamente ao gênero Pavo, o grupo dos pavões.
Hoje, não existe qualquer representante desse gênero em Taiwan. Com isso, o achado se tornou a primeira ocorrência de um pavão no registro fóssil da ilha.
Pavão fóssil de Taiwan
Com cerca de 13 centímetros (aproximadamente 5 polegadas) de comprimento, o úmero - o osso da parte superior da asa - é relativamente modesto em termos globais entre as aves. Dentro de Taiwan, porém, ele é enorme.
Os maiores faisões que vivem atualmente na ilha têm ossos da asa mais próximos de 8 centímetros (cerca de 3 polegadas). Este fóssil teria superado todos eles em tamanho.
Lan e colaboradores compararam o espécime tanto com pavões vivos quanto com o único pavão fóssil previamente nomeado - uma espécie europeia descrita a partir de material com vários milhões de anos. As diferenças observadas foram sutis, mas repetidas de forma consistente.
Na extremidade próxima ao ombro, o osso é mais esguio; os sulcos onde os músculos se fixavam são mais rasos; e há câmaras ocas presentes nos pavões atuais que, aqui, não aparecem.
A equipe batizou a nova espécie de Pavo miejue - sendo a segunda palavra derivada de um termo chinês que significa “evento de extinção”.
Construído de modo diferente dos parentes
O esqueleto costuma revelar bastante sobre o modo de vida de um animal. No úmero, ficam marcadas as áreas de inserção dos músculos do voo - e, neste caso, esses pontos não coincidem exatamente com os das duas espécies viventes de pavão.
Pavo miejue se encaixa no gênero, mas se distingue claramente dos parentes modernos. O pavão-indiano possui uma pequena cavidade na parte posterior do úmero, enquanto o fóssil de Taiwan não apresenta essa estrutura.
Já uma saliência óssea perto do cotovelo - bem evidente nos pavões atuais - aparece achatada neste exemplar. Para o leitor comum, são detalhes discretos; para especialistas, somam evidências suficientes para reconhecer uma espécie distinta.
O pavão fóssil europeu é o parente temporal mais próximo conhecido, mas viveu em outro continente e exibe um conjunto próprio de diferenças ósseas. Pavo miejue representa uma linhagem particular - que chegou ao extremo leste da Ásia e, depois, desapareceu.
Savana sob o gelo
No Pleistoceno, Taiwan não era a ilha densamente florestada de hoje. Um estudo independente reconstruiu um cenário de savana quente cortada por rios alimentados pelas monções, com base em análise isotópica de dentes de elefantes-de-presas-retas encontrados na mesma região.
Esses elefantes se alimentavam de gramíneas, e não de folhas - um indício de que paisagens abertas ocupavam áreas que atualmente são cobertas por floresta subtropical densa.
Esse ambiente combinaria com um pavão. O pavão-verde moderno prospera em áreas abertas e de borda, explorando campos e limites de floresta em busca de alimento. Uma ave do porte de Pavo miejue precisaria de espaço e de abundância de recursos.
Pelo que tudo indica, Taiwan na Era do Gelo oferecia as duas coisas. E o pavão não era o único grande animal por lá. Os mesmos depósitos fósseis já forneceram restos de crocodilos extintos, pítons grandes, mamutes e um gato-dentes-de-sabre.
Pesquisas recentes defendem que Taiwan abrigou um ecossistema completo, com predadores de topo bem estabelecidos - uma visão que ficou mais nítida a cada osso recuperado da Formação Chiting.
Desapareceu sem deixar rastro
Hoje, todos esses animais sumiram. Crocodilos, mamutes, rinocerontes, gatos-dentes-de-sabre e pítons grandes não têm descendentes vivos em Taiwan.
O novo estudo acrescenta à lista um pavão de grande porte - a primeira espécie de ave extinta do Pleistoceno já descrita para a ilha.
Ossos de aves são pequenos e frágeis, o que facilita sua perda no registro fóssil. O laboratório de Tsai já havia publicado, anteriormente, um osso parcial de perna de um faisão menor, mas um gênero grande e extinto não tinha surgido até agora.
O que exatamente tirou esse pavão do mapa ainda é uma questão em aberto. No fim do Pleistoceno, mudanças climáticas remodelaram o leste da Ásia: o nível do mar subiu e a savana aberta provavelmente deu lugar a formações florestais. Extinções de megafauna pela região seguiram um padrão semelhante.
É provável que a espécie tenha desaparecido muito antes de qualquer ser humano chegar a Taiwan. Seu fim parece se alinhar mais com a transformação do habitat do que com pressão de caça.
Reescrevendo a história das aves
Antes deste trabalho, o Pleistoceno de Taiwan dava a impressão de que mamíferos e répteis desapareceram, enquanto as aves persistiram. Essa leitura, no entanto, dependia de ausência de dados - não de evidência concreta.
O novo fóssil é o primeiro sinal sólido de que as extinções de aves na ilha foram mais profundas do que se supunha. Outras aves grandes podem ter dividido a mesma paisagem, e outras espécies podem estar à espera em coleções de museus, gavetas de armazenamento e leitos de rios ainda não examinados.
Há muito tempo, o registro fóssil de aves terrestres do leste da Ásia é considerado extremamente pobre. Isso significa que mapas de conservação sobre distribuições históricas de aves na região talvez precisem ser revistos - especialmente para grupos como os pavões, cuja presença no extremo leste asiático era invisível.
Cada novo exemplar extraído das colinas do sul de Taiwan torna essa imagem mais nítida. Um único osso bastou para redefinir o que se sabia sobre a história das aves na ilha.
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