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Grande Faixa Atlântica de Sargaço: estudo mostra que o Sargassum veio para ficar e já dá para prever as florações

Pesquisador em jaleco analisa dados em tablet na praia com algas marinhas e mar ao fundo.

Caminhe por quase qualquer praia do Caribe, do Golfo do México ou da costa da África Ocidental na época errada do ano e a cena se repete: montes castanhos e malcheirosos, acumulados a metros de altura, libertando sulfeto de hidrogênio à medida que apodrecem sob o calor.

Há mais de uma década, a alga marinha Sargassum vem chegando em volumes catastróficos, ano após ano.

O impacto é amplo: sufoca recifes, arruína áreas de pesca, esvazia hotéis e obriga a gastos de centenas de milhões de dólares com operações de remoção e limpeza.

Quem convive com isso na linha de frente - comunidades costeiras e pequenos negócios - tem sido forçado a absorver grande parte desses custos repetidamente, quase sempre sem apoio proporcional e sem sinais de que o problema fosse desaparecer.

Um novo estudo internacional, liderado por Annalisa Bracco, do Centro Euro-Mediterrânico sobre Mudanças Climáticas (CMCC), confirmou o que muitos já suspeitavam há tempo: a Grande Faixa Atlântica de Sargaço tornou-se uma característica permanente do oceano.

Ao mesmo tempo, a pesquisa trouxe algo inesperadamente prático: a capacidade de prever as florações.

Como se pensava que a floração se espalhava

A Grande Faixa Atlântica de Sargaço surgiu em 2011. Ventos de inverno mais fortes aprofundaram a camada de mistura do oceano e empurraram nutrientes para a superfície, desencadeando uma explosão no crescimento de algas.

A partir daí, a mancha continuou a avançar. Hoje, estende-se por mais de 8.000 quilômetros, da África Ocidental ao Caribe, e, em 2025, sua biomassa total já tinha ultrapassado 37 milhões de toneladas.

Nos primeiros anos, os cientistas atribuíram as florações sobretudo a forças físicas - como ventos, circulação oceânica ou ressurgência de nutrientes. O novo estudo indica que essa explicação, por si só, já não dá conta do fenômeno.

Construindo a própria ecologia da Grande Faixa Atlântica de Sargaço

A transformação aconteceu de dentro para fora. À medida que o Sargassum se expandiu, a faixa passou a criar a sua própria ecologia.

As esteiras flutuantes hoje abrigam comunidades de organismos marinhos que reciclam nutrientes, como o nitrogênio, no interior da própria massa de algas. Quando parte desse material se decompõe, esses nutrientes retornam para a água ao redor.

Em termos biológicos, o sistema “aprendeu” a se alimentar sozinho. Eventos de vento ainda exercem influência, mas já não são o motor principal.

Assim, temporada após temporada, a faixa passa a gerar condições favoráveis ao crescimento independentemente do que o tempo faça.

“É um exemplo marcante de como o oceano pode se reorganizar muito rapidamente”, disse Bracco.

“O que começou como um evento impulsionado pelo vento tornou-se um sistema biológico autossustentável. O fato de que agora conseguimos entendê-lo e prevê-lo significa que também podemos começar a pensar seriamente em como administrá-lo.”

A importância da previsão

Com um modelo construído a partir de dados de satélite e observações oceanográficas, a equipa de pesquisa reconstituiu como as concentrações de Sargassum variaram entre 2011 e 2022.

Em seguida, validou o modelo ao prever as concentrações para 2023 e 2024.

O fato de agora ser possível antecipar as florações com meses de antecedência muda completamente a lógica de resposta.

Hoje, a estratégia é essencialmente reativa: a alga chega, as comunidades correm para responder, recursos são gastos, as praias são limpas, e o ciclo recomeça. Nesse circuito, praticamente não há espaço para planeamento e preparação.

Já uma previsão confiável pode quebrar essa repetição. Governos conseguem se organizar com antecedência. Comunidades costeiras podem mobilizar equipamentos e equipas antes da chegada - e não depois.

E, talvez o ponto mais relevante, passa a existir a possibilidade de interceptar o Sargassum em mar aberto, antes mesmo que ele encoste na praia.

O argumento do carbono

Enquanto flutua em mar aberto, a alga remove dióxido de carbono da atmosfera por meio da fotossíntese. A faixa funciona, portanto, como um enorme sumidouro natural de carbono.

O problema começa quando ela chega à costa.

“O principal desafio é que, quando chega ao litoral e se decompõe, grande parte desse carbono é liberada de volta para a atmosfera. Se conseguirmos intervir antes que isso aconteça, este sistema poderia, em vez disso, fazer parte da solução”, disse Bracco.

Intervir pode significar colher a alga no alto-mar e afundá-la no oceano profundo, onde o carbono contido nela permaneceria sequestrado por séculos. Ou pode significar processá-la para produzir biocombustíveis ou outros materiais.

Nenhuma das opções é simples, mas ambas se tornam mais viáveis quando se consegue prever onde o Sargassum estará e qual será o seu volume. Não dá para estruturar uma operação de interceptação em torno de algo que surpreende todos os anos.

A verdade mais dura

As comunidades que lidam com isso vêm suportando custos enormes há quinze anos sem ferramentas de previsão, sem planos de gestão de longo prazo e sem coordenação internacional consistente.

O que existiu, em grande parte, foi financiamento emergencial de limpeza, repetido anualmente para um problema que já não é uma emergência, e sim uma condição permanente.

O estudo entrega o que faltava para uma abordagem diferente: uma explicação clara de como o sistema funciona, capacidade de previsão demonstrada e uma base científica para pensar em intervenção - e não apenas em resistência.

A alga não vai desaparecer. Mas, pela primeira vez, compreendemos o suficiente para enfrentá-la nos nossos próprios termos.

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