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Pássaros urbanos fogem mais cedo quando uma mulher se aproxima do que quando um homem se aproxima

Mulher caminhando em praça com copo na mão enquanto pombos voam e se alimentam no chão ensolarado.

Em cidades europeias, aves costumam levantar voo mais cedo quando quem caminha na direção delas é uma mulher, e não um homem. A constatação ajuda cientistas a entender como animais selvagens interpretam a presença humana, captando sinais que muitas vezes passam despercebidos para nós.

Em parques urbanos e áreas verdes de cinco países da Europa, encontros rotineiros com pássaros mostraram um padrão ao mesmo tempo consistente e curioso.

Uma equipa coordenada pelo Dr. Federico Morelli, da Universidade de Turim (UniTo), avaliou o quão perto uma pessoa consegue chegar antes de a ave fugir.

Os dados indicaram que a diferença entre mulher e homem se manteve estável, independentemente do país e da espécie analisada.

Até espécies tão comuns quanto pegas e pombos urbanos seguiram a mesma tendência geral, apesar de apresentarem tolerâncias muito distintas à proximidade de pessoas.

Aves mostram resposta baseada no género

Na ecologia comportamental, o momento em que um animal decide escapar é descrito como distância de iniciação de voo - a separação entre a ameaça e o animal quando ele bate em retirada.

Quando essa distância é maior, a ave abandona a alimentação mais cedo, porque permanecer perto de um risco é menos perigoso do que sair de repente.

Em média, mulheres provocaram uma distância de fuga em torno de 8,5 m nas aves, enquanto homens desencadearam cerca de 7,6 m.

À primeira vista, a diferença de aproximadamente 0,9 m pode parecer pequena para algumas pessoas; para as aves, porém, é uma mudança considerável, sobretudo durante a procura por alimento.

Testes de caminhada revelam comportamento subtil

As equipas de campo mantiveram as abordagens intencionalmente simples, para medir com precisão a reação das aves.

Em cada observação, a pessoa caminhava em linha reta até uma ave aparentemente tranquila, num passo constante e olhando diretamente para ela.

Duplas de mulheres e homens usaram cores de roupa semelhantes, tentaram igualar a altura o máximo possível e, quando necessário, esconderam cabelos mais longos.

Esses controlos não eliminam toda a variação entre pessoas, mas reduzem o problema e deixam pistas mais subtis para as aves distinguirem.

Várias espécies repetem a tendência

As aves urbanas mais comuns não se comportaram como se tivessem “uma só personalidade”, o que tornou os resultados mais difíceis de descartar.

Pegas e pica-paus-verdes geralmente fugiram cedo, enquanto pombos e chapins-de-cauda-longa permitiram uma aproximação mais próxima.

O registo completo reuniu 2.701 observações de 77 espécies, e a análise principal concentrou-se em 37 espécies com repetição suficiente de registos.

Quando o mesmo padrão aparece em aves ariscas e também em espécies tolerantes, fica menos provável que o resultado seja puxado por uma única espécie “fora da curva”.

Aves macho são mais imprudentes

No mesmo ambiente urbano, aves macho deixaram os humanos chegar mais perto do que as fêmeas.

Esse comportamento pode refletir compromissos de risco: em muitas espécies, machos obtêm vantagens ao demonstrar ousadia, defender território ou cortejar parceiras.

Já as fêmeas podem optar por sair antes quando estão em jogo a sobrevivência, o investimento no ninho ou a necessidade de camuflagem.

Ainda assim, tanto machos quanto fêmeas exibiram a mesma resposta geral ao serem abordados por mulheres e por homens.

Um sinal difícil de identificar

As explicações mais óbvias não resolveram a questão, porque o estudo controlou vários traços que as pessoas notariam primeiro.

Altura, cor das roupas e cabelo visível não conseguiram, por si só, explicar a resposta observada nas aves.

“Nós identificámos um fenómeno, mas realmente não sabemos porquê”, disse Morelli.

Essa incerteza é relevante, porque o sinal pode variar conforme a forma de se mover, o cheiro, o formato do corpo ou a combinação de vários indícios ao mesmo tempo.

O odor pode influenciar a reação

Em investigações anteriores, roedores em laboratório reagiram a experimentadores homens por meio de sinais de stress ligados ao olfato.

Nesses trabalhos, odores masculinos alteraram o comportamento relacionado à dor, porque o stress reduzia a resposta dos animais ao desconforto.

Aves também conseguem usar o olfato, e, noutro experimento, chapins-reais evitaram caixas-ninho com odor de predador.

Mesmo assim, como a equipa europeia se aproximou das aves a partir de certa distância, é difícil demonstrar que o cheiro, sozinho, explique o resultado.

Estudos futuros precisam isolar os indícios

Os testes mais robustos a seguir deveriam separar o sexo do observador em componentes que as aves possam de facto detetar, em vez de tratar a interação humana como uma única fonte de informação.

Pesquisadores podem variar, fator a fator, o estilo de caminhada, a exposição a odores, o formato corporal ou a visibilidade do rosto.

Equipas maiores também ajudariam a verificar se a amostragem da primavera de 2023 capturou um padrão estável ou uma resposta passageira.

Até lá, estes dados tendem a alterar mais o desenho de estudos do que conselhos do dia a dia para quem visita parques.

A perceção da vida selvagem é muito precisa

Uma diferença de cerca de 0,9 m na distância de fuga, repetida em várias cidades e espécies, indica que aves urbanas monitorizam pessoas com uma precisão inesperada.

Para os cientistas, o próximo passo é direto: registar quem se aproxima do animal e testar quais pistas humanas importam, em diferentes estações e locais.

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