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Golfinhos-nariz-de-garrafa de Sarasota: humanos, alimentação e maré vermelha mudam laços sociais

Golfinhos pulam no mar em direção a pessoa segurando peixe perto de um píer com cinco observadores.

Os golfinhos-nariz-de-garrafa são famosos pela inteligência e por vínculos sociais fortes. Vivem em grupos, aprendem uns com os outros e transmitem conhecimento entre gerações.

Cientistas agora identificaram mais uma característica inesperada: os golfinhos que dependem de humanos para obter alimento tendem a passar mais tempo com outros indivíduos que fazem o mesmo.

O achado vem de um dos acompanhamentos de vida selvagem mais longos já realizados. Ele indica que o comportamento humano pode influenciar não apenas o que os golfinhos comem, mas também com quem escolhem conviver.

Além disso, a pesquisa mostra como desastres ambientais são capazes de alterar a sociedade dos golfinhos de maneiras que persistem muito depois do fim da crise.

Acompanhando golfinhos por décadas

No litoral de Sarasota, na Flórida, vive uma das populações de golfinhos mais bem estudadas do planeta.

Há 56 anos, pesquisadores monitoram esses animais de forma contínua por meio do Programa de Pesquisa de Golfinhos de Sarasota, ligado ao Zoológico Brookfield de Chicago.

Os cientistas reconhecem cada golfinho como um indivíduo. Assim, conseguem identificar parentes, mapear amizades e acompanhar animais desde o nascimento até a vida adulta.

Poucos estudos com fauna oferecem um nível de detalhe semelhante. Esse histórico extenso dá aos pesquisadores uma oportunidade rara de observar como sociedades animais se transformam ao longo do tempo.

Duas décadas de observações

Pesquisadores da Universidade Estadual do Oregon e do Programa de Pesquisa de Golfinhos de Sarasota examinaram duas décadas de registros.

A equipa contou com a autora principal Kyra Bankhead, além de Mauricio Cantor, Katherine McHugh e Randall Wells.

O foco foram os golfinhos que se alimentam nas proximidades de pessoas. Esses animais pedem comida perto de embarcações, pegam iscas em linhas de pesca e aproveitam peixes descartados.

Os pesquisadores procuraram entender se esses golfinhos formavam grupos sociais distintos daqueles que dependiam de métodos naturais de caça. A resposta foi afirmativa.

Golfinhos com hábitos arriscados ficam juntos

A análise mostrou que golfinhos com estratégias de alimentação parecidas passam mais tempo uns com os outros.

Indivíduos que pedem comida e vasculham restos com frequência tendem a associar-se a outros com o mesmo padrão. Já os golfinhos que evitam pessoas costumam ficar com companheiros de comportamento semelhante.

Esse padrão permaneceu mesmo depois de os pesquisadores controlarem variáveis como idade, sexo e localização.

Isso indica que os encontros não acontecem apenas por acaso. Em vez disso, os golfinhos parecem selecionar companheiros que partilham comportamentos parecidos.

O resultado lembra o que se observa em sociedades humanas: é comum que pessoas formem círculos sociais em torno de interesses e estilos de vida compartilhados. Os golfinhos de Sarasota aparentam seguir uma lógica semelhante.

Os riscos invisíveis

À primeira vista, obter comida de pessoas pode parecer inofensivo. Na prática, esses comportamentos trazem perigos.

Golfinhos que passam a ligar humanos a alimento enfrentam maior risco de ferimentos. Podem enroscar-se em linha de pesca. Também podem engolir anzóis ou outros apetrechos. Alguns acabam atingidos por barcos.

Esses contactos podem causar lesões crónicas ou levar à morte. Além disso, podem diminuir a capacidade de reprodução do animal.

Riscos que se espalham pelos grupos

“Do ponto de vista humano, alimentar ou interagir com um golfinho pode parecer inofensivo ou até útil”, disse Katherine McHugh, diretora-adjunta do Programa de Pesquisa de Golfinhos de Sarasota no Zoológico Brookfield de Chicago.

“Mas, para os golfinhos, essas interações podem ter consequências duradouras. Elas podem alterar o comportamento, aumentar o risco de ferimentos e, como este estudo sugere, potencialmente afetar como os golfinhos se associam uns com os outros.”

Os resultados indicam que os impactos não ficam restritos a indivíduos isolados. As interações com humanos também podem mexer com a estrutura das comunidades de golfinhos.

Maré vermelha interrompe as presas

A parte mais elucidativa do estudo surgiu a partir de um desastre natural. No começo dos anos 2000, a Baía de Sarasota enfrentou vários episódios severos de maré vermelha.

A maré vermelha acontece quando algas nocivas se multiplicam rapidamente. Essas florações libertam toxinas na água e matam grandes quantidades de peixes.

Com a escassez de presas, os golfinhos passaram a sentir uma pressão crescente para encontrar alimento.

Para os pesquisadores, o momento foi uma oportunidade rara: havia anos de dados recolhidos antes, durante e depois das florações.

Isso permitiu acompanhar como a sociedade dos golfinhos reagiu a um grande choque ambiental.

Mais golfinhos procuram humanos

Antes das marés vermelhas, cerca de 12 percent dos golfinhos alimentavam-se regularmente perto de humanos. Durante os anos das florações, esse valor subiu para 22 percent.

A tendência seguiu mesmo depois de as condições melhorarem. Nos seis anos após as florações, a percentagem chegou a 41 percent.

Quase metade dos golfinhos analisados passou a adoptar comportamentos que os colocavam em contacto frequente com pessoas, apetrechos de pesca e barcos.

Os dados sugerem que a falta de alimento levou mais golfinhos a explorar oportunidades de alimentação associadas a humanos.

E, quando esses comportamentos surgiram, muitos animais continuaram a usá-los.

Uma crise remodela a sociedade

Os pesquisadores imaginavam que, durante os anos de maré vermelha, golfinhos com hábitos de alimentação semelhantes ficariam ainda mais ligados entre si.

O que ocorreu, porém, foi o inverso: as divisões sociais habituais perderam força.

À medida que ficou mais difícil encontrar peixe, os golfinhos passaram a concentrar-se onde quer que existissem oportunidades de alimentação. Indivíduos que normalmente evitariam uns aos outros começaram a misturar-se com mais frequência.

Essa mudança pode ajudar a explicar por que estratégias de alimentação arriscadas se disseminaram tão depressa. Golfinhos que já sabiam pedir comida ou aproveitar restos passaram a dividir o mesmo espaço com outros que nunca tinham usado essas tácticas.

A crise abriu novas possibilidades de aprendizagem social.

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