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Esporos de fungos revelam a extinção dos dinossauros há 66 milhões de anos, segundo estudo da Johns Hopkins University

Jovem cientista analisando fóssil em área desértica com microscópio e amostras sobre mesa portátil.

A narrativa mais conhecida sobre a extinção dos dinossauros quase sempre começa com um clarão no céu: um asteroide colossal atinge a Terra, a poeira sobe, a temperatura cai e os dinossauros desaparecem.

Um novo estudo de investigadores da Johns Hopkins University, porém, troca o foco dos grandes animais e das rochas espaciais por um rasto muito menor: esporos microscópicos de fungos preservados em lamas antigas.

Esses vestígios minúsculos estão a permitir que a equipa reconstrua, com mais detalhe, o que ocorreu antes e depois do evento de extinção que encerrou a era dos dinossauros há 66 milhões de anos.

O trabalho aponta ainda para uma possibilidade inquietante: o planeta talvez já estivesse sob pressão muito antes do impacto do asteroide.

Esporos de fungos em sedimentos antigos

Há décadas, cientistas discutem uma questão central. A Terra estava “bem” até ao momento em que o impacto do asteroide destruiu tudo de uma vez? Ou os ecossistemas já vinham a perder estabilidade antes de a catástrofe chegar?

Para avançar nessa resposta, era necessário encontrar um tipo de evidência capaz de reagir rapidamente a mudanças ambientais e, ao mesmo tempo, resistir por milhões de anos no registo fóssil.

Os fungos surgiram como uma pista particularmente forte. Eles espalham-se com rapidez quando há grande quantidade de matéria orgânica morta disponível no ambiente.

Além disso, os seus esporos preservam-se bem em sedimentos durante milhões de anos - tornando-os testemunhas ideais de colapsos ecológicos antigos.

Rochas antigas expuseram sinais de decomposição

Rosanna Baker, cientista assistente no laboratório de Arturo Casadevall, analisou amostras de rochas recolhidas na Bacia de Denver, no Colorado, e em locais de Dakota do Norte.

O material foi disponibilizado pelo paleontólogo Tyler Lyson, do Denver Museum of Nature and Science.

Baker preparou as amostras, separou microfósseis de fungos de restos vegetais e fez a contagem camada por camada.

A equipa concentrou-se na proporção entre vestígios fúngicos e vestígios de plantas em cada estrato rochoso.

Quando o material fúngico passava a dominar de forma abrupta, isso era interpretado como um sinal de morte em larga escala e decomposição disseminada no ecossistema ao redor.

Fungos surgiram antes do impacto

A expectativa inicial era encontrar um único grande pico fúngico diretamente associado ao impacto do asteroide. Em vez disso, as amostras do Colorado mostraram três períodos distintos de abundância de fungos.

O primeiro aumento começou cerca de 30.000 anos antes de o asteroide atingir a Terra e manteve-se por aproximadamente 20.000 anos.

Esse resultado sugere que danos ambientais já estavam em curso muito antes do evento de impacto que se tornou o marco mais famoso dessa extinção.

Vulcões alteraram o clima

O momento desse primeiro pico coincide com um período de arrefecimento conhecido, associado a erupções vulcânicas gigantescas na região que hoje é o oeste da Índia.

Essas erupções formaram os Trapps do Decão, uma das maiores províncias vulcânicas do planeta. Grandes volumes de lava, cinzas e gases foram lançados na atmosfera ao longo de longos intervalos.

A interpretação dos cientistas é que essa atividade vulcânica alterou padrões climáticos globais e colocou ecossistemas do mundo inteiro sob stress.

Fungos confirmaram danos vulcânicos

O padrão encontrado nos fungos encaixa-se bem nessa explicação.

“Se você perguntar à maioria das pessoas o que matou os dinossauros, elas vão dizer que foi aquele asteroide, mas os nossos resultados com base em microfósseis fúngicos sugerem que o mundo já estava a passar por um cataclismo quando o asteroide atingiu”, disse Casadevall.

Baker acrescentou que há outras evidências no registo fóssil indicando que algumas espécies já estavam a desaparecer nessa mesma altura.

“É plausível que esse vulcanismo na Ásia estivesse a colocar ecossistemas do mundo inteiro sob stress, essencialmente preparando o cenário para o golpe final quando o asteroide atingiu”, disse Baker.

Asteroide desencadeou floração global

A segunda explosão de fungos apareceu exatamente no limite geológico associado ao impacto do asteroide.

Os investigadores já tinham observado algo semelhante em amostras de rochas da Nova Zelândia. Agora, os dados do Colorado mostram a mesma floração fúngica no mesmo momento da história geológica, mas noutro continente.

Isso reforça a ideia de que as “explosões” de fungos foram uma resposta global à mortandade em massa provocada pelo impacto.

A recuperação após extinções não é previsível

O último aumento de fungos surgiu cerca de 10.000 anos após a colisão do asteroide, já no início do período Paleoceno.

Diferentemente dos eventos anteriores, este não tem uma explicação direta. A equipa não encontrou sinais de outro impacto de asteroide nem de uma grande erupção vulcânica associada a esse intervalo.

A incerteza chama atenção para um aspeto importante das extinções em massa: a recuperação raramente é linear ou previsível.

Mesmo quando a fase mais destrutiva termina, os ecossistemas podem continuar instáveis por milhares de anos.

Fungos prosperaram após desastres

Casadevall descreve essa linha de investigação em expansão como “microbiologia de desastres”.

“Os fungos são formas de vida que muitas vezes prosperam em calamidades ambientais”, afirma.

Esse tipo de padrão aparece noutros momentos da história da Terra. A maior extinção em massa já registada, a extinção do Permiano, há cerca de 252 milhões de anos, também apresenta evidências de grandes florações fúngicas.

Sangue quente favoreceu mamíferos

O estudo também pode dar suporte a outra ideia antiga proposta por Casadevall em 2005.

Segundo essa hipótese, os mamíferos podem ter ganhado vantagem depois da extinção dos dinossauros em parte por causa da temperatura corporal.

Mamíferos são animais de sangue quente, enquanto muitos fungos têm mais dificuldade em sobreviver a temperaturas mais elevadas.

Num mundo repleto de decompositores e crescimento fúngico, animais de sangue quente poderiam ter enfrentado menos infeções fúngicas do que répteis de corpo mais frio.

Uma história diferente da extinção

O impacto do asteroide continua a ser central para explicar a extinção dos dinossauros. Ainda assim, os esporos de fungos enterrados em lamas antigas revelam uma narrativa mais complexa.

A Terra pode já estar sob stress ambiental severo antes da chegada do asteroide: vulcões alteravam padrões climáticos, ecossistemas perdiam força e espécies já desapareciam.

Assim, quando o asteroide atingiu, encontrou um planeta já vulnerável.

Os fungos, por sua vez, apenas reagiram como costumam reagir: espalharam-se por paisagens em morte e deixaram esporos microscópicos que resistiram durante milhões de anos.

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