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Plástico em cavernas marinhas do Chipre ameaça a foca-monge-do-Mediterrâneo

Foca nadando em área subaquática com muita poluição de plástico e rede de pesca no fundo do mar.

Pesquisadores que monitorizam o plástico no oceano já o registaram na areia das praias, em águas abertas, no fundo marinho profundo e até nos estômagos de animais marinhos. Esse mapa de ocorrências ficou impressionantemente detalhado - mas ainda havia um ponto cego: as cavernas marinhas.

No Chipre, ilha no leste do Mediterrâneo, existem dezenas dessas cavidades escavadas ao longo de uma costa calcária: câmaras escuras, meio submersas, que só permitem entrada a nado.

Algumas aparecem em registos de conservação como abrigos activos de uma das focas mais raras do planeta. Um novo levantamento do que, de facto, há no interior dessas cavidades trouxe um resultado que muda a forma como esses registos são interpretados.

Cavernas com um problema

Ioannis Savva, doutorando na Universidade de Haifa, em Israel, liderou o primeiro levantamento quantitativo de detritos marinhos dentro de cavernas marinhas costeiras. As câmaras analisadas pela equipa alinham-se ao longo do litoral rochoso do Chipre.

Savva e os colegas atravessaram e nadaram de uma cavidade para outra, estendendo cordas pelo chão para delimitar segmentos de amostragem. Em todas as cavernas visitadas havia lixo - e não apenas alguns itens perdidos.

As acumulações eram pesadas. O material espalhava-se por pisos, paredes e pelas pequenas praias internas que algumas câmaras escondem para além da entrada. Com isso, o Chipre torna-se o primeiro Estado-membro da União Europeia a inventariar formalmente lixo dentro deste tipo de habitat.

“O que vimos dentro de algumas cavernas foi chocante”, escreveu a equipa. Locais que biólogos tratavam como refúgios naturais estavam a comportar-se, na prática, como um armazenamento de longo prazo para resíduos humanos.

O que o levantamento encontrou

A densidade de itens no chão das cavernas variou de uma dispersão esparsa até quase 97 peças concentradas em um único metro quadrado. Esse valor máximo supera o que os investigadores normalmente encontram em praias abertas, na superfície do mar e até no fundo marinho profundo.

O plástico dominou quase tudo o que foi recolhido. Aproximadamente dois terços dos itens eram plástico de algum tipo, e a maior parte consistia em fragmentos quebrados - pedaços desgastados de objectos maiores que entraram à deriva vindos de outros locais.

O restante era o lixo costeiro habitual: garrafas, tampas, embalagens de alimentos e equipamento de pesca. A maior parte chegou pelo mar, e não a pé. Essa diferença ajuda a equipa a apontar onde procurar as fontes: nas correntes e nas rotas de navegação, em vez de nas entradas das cavernas.

Por que as cavernas retêm detritos

Dois factores anteciparam o nível de poluição de cada caverna. A exposição às ondas determinou o quão intensamente o mar empurrava material para dentro. Já a área de praia existente no interior definiu quanto desse material permanecia ali depois de chegar.

Cavernas moderadamente expostas e com praias internas maiores acumularam as maiores cargas. Cavidades mais calmas receberam menos desde o início. As que eram atingidas por ondulações fortes de tempestade viram os detritos serem revirados e, por vezes, expulsos de volta para o mar.

A própria arquitectura também interferiu. Cavernas longas, em formato de corredor, concentraram o lixo nas extremidades internas, onde a energia das ondas se dissipa. Câmaras mais abertas, em forma de “taça”, distribuíram os resíduos de modo mais difuso pelo piso. De uma forma ou de outra, quando o lixo entrava, tendia a ficar.

Alcatrão encontra plástico

Uma das descobertas mais estranhas repetiu-se ao longo do trabalho e não era, estritamente, “lixo” comum. Alcatrão de derrames de petróleo endureceu nas paredes e, ao solidificar, prendeu fragmentos de plástico - formando uma crosta preta e pegajosa que, em 2022, os investigadores passaram a chamar de plastitar.

As cavernas do Chipre acrescentaram mais um registo a esse fenómeno. O plastitar aparecia em manchas que revestiam paredes, colando microplásticos e pedaços maiores numa matriz negra e aderente. Depósitos semelhantes surgem noutras pesquisas no Mediterrâneo, muitas delas associando o alcatrão a rotas de transporte marítimo.

O alcatrão transporta compostos tóxicos que prejudicam animais marinhos e, com o tempo, podem infiltrar-se na água ao redor. Uma parede coberta por plastitar deixa de ser apenas uma parede: passa a funcionar, simultaneamente, como reservatório químico e como abrigo para animais.

As focas em risco

Muitas dessas cavernas não são cavidades aleatórias. São locais conhecidos de descanso e de criação da foca-monge-do-Mediterrâneo - um dos mamíferos marinhos mais ameaçados do mundo.

Segundo um artigo de 2021, restam menos de 1.000 focas, distribuídas por alguns grupos fragmentados.

Nem sempre essas focas dependeram de cavernas. Séculos de caça e de urbanização costeira expulsaram a espécie das praias abertas por completo. Câmaras escondidas, inacessíveis às pessoas, tornaram-se a única alternativa.

As crias nascidas nesses espaços passam agora as primeiras semanas de vida a rastejar por superfícies salpicadas de plástico partido.

Um estudo grego separado identificou microplásticos no tracto digestivo de focas-monge e golfinhos encalhados no leste do mar Egeu. As partículas já entraram na cadeia alimentar. E, dentro das próprias câmaras, as condições para interacções nocivas também estão presentes.

Agravamento nas cavernas da foca-monge

Durante décadas, levantamentos de lixo marinho concentraram-se nas zonas mais visíveis do oceano. Ninguém tinha quantificado o que se acumulava dentro dessas cavidades costeiras. A resposta revelou níveis entre os mais altos já medidos em praticamente qualquer outro lugar.

Para a foca-monge, as cavernas que substituíram as praias abertas como abrigo estão agora confirmadas como armadilhas de poluição. Locais usados para descanso e para criação de crias figuram entre os habitats costeiros mais contaminados já avaliados por investigadores.

Não se trata de refúgios seguros. A equipa de Savva defende levantamentos em cavernas por todo o Mediterrâneo para determinar até onde o problema se estende.

A remoção do lixo nessas cavernas será mais difícil do que numa praia. As câmaras são frágeis e fáceis de perturbar. A cada ano sem intervenção, os depósitos tornam-se mais espessos, e os químicos do plastitar podem infiltrar-se ainda mais nas superfícies onde as focas se apoiam.

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