Por que os gatos reagem de forma tão dramática ao catnip? Durante anos, cientistas e tutores acreditaram que essa história já estava totalmente explicada.
O catnip parecia o chamariz felino perfeito: os gatos se rolavam, esfregavam o rosto na planta e se comportavam como se tivessem encontrado a alegria em versão vegetal.
Só que um novo estudo da Universidade de Iwate, no Japão, embaralhou essa narrativa conhecida. Quando os gatos tiveram uma escolha real entre catnip e outra planta chamada silver vine, a maioria simplesmente deixou o catnip de lado.
O resultado surpreendeu os pesquisadores porque o catnip ainda carrega substâncias potentes, bem conhecidas por desencadear a resposta clássica dos felinos. Mesmo assim, quando podiam se afastar livremente, os animais muitas vezes optavam pela silver vine.
Isso leva a uma questão maior sobre comportamento animal: o facto de uma substância provocar uma reação em laboratório não significa, necessariamente, que os animais a prefiram em condições naturais.
A fama do catnip
Há muito tempo o catnip tem estatuto de celebridade entre tutores. Lojas de animais enchem as prateleiras com brinquedos, sprays e folhas secas de catnip.
Na ciência, ele também virou um exemplo clássico de como plantas conseguem influenciar o comportamento de outros animais.
O composto ativo ligado aos efeitos do catnip chama-se cis-trans nepetalactona. Essa molécula ativa recetores sensoriais em muitos gatos e leva a comportamentos como rolar, esfregar, lamber e brincar.
Testes em laboratório favoreciam o catnip
Em ensaios laboratoriais, o catnip costuma “ir muito bem”. Os investigadores apresentam a planta - ou os compostos isolados - e, na maior parte das vezes, os gatos reagem com entusiasmo.
O problema é que o laboratório impõe restrições. Nesses estudos, os animais não podem simplesmente ir embora, nem comparar opções diferentes como fariam num ambiente mais natural.
“Catnip pode fazer com que os gatos respondam em testes laboratoriais, mas isso não significa que os gatos vão escolhê-lo num contexto mais natural e de escolha livre”, disse Reiko Uenoyama, professora assistente da Universidade de Iwate e primeira autora do artigo.
“O nosso estudo mostra que aquilo a que os gatos conseguem responder e aquilo que eles realmente escolhem nem sempre é a mesma coisa.”
Os gatos não se envolveram com o catnip
Para investigar o que os gatos de facto preferem, a equipa montou um experimento mais próximo de um cenário real em Morioka, no norte do Japão.
Os investigadores plantaram catnip vivo num jardim e colocaram, ali perto, ramos de silver vine recém-cortados. Depois, usaram câmaras de monitorização para registar, durante a noite, os gatos que apareciam.
Ao longo do período do estudo, seis gatos que circulavam livremente foram observados. E as escolhas deles ficaram claras quase de imediato.
Em 21 de 22 visitas, os animais rolaram, esfregaram o corpo e interagiram intensamente com a silver vine. Já as plantas de catnip - e até cortes frescos de catnip colocados ao lado - foram ignorados repetidas vezes.
Nenhum dos gatos exibiu o comportamento clássico de auto-untamento com o catnip.
O que chocou os autores foi que os gatos claramente perceberam a presença da planta. Eles só decidiram não interagir com ela.
O teste do tijolo eliminou vieses
A equipa quis descartar explicações alternativas. Talvez os gatos estivessem a preferir a posição da silver vine no ambiente, ou a forma dos ramos.
Para isso, os pesquisadores criaram um teste mais simples usando um único tijolo.
Num lado do tijolo, aplicaram extrato de catnip. No outro, extrato de silver vine. Assim, ambos os cheiros estavam no mesmo objeto, no mesmo lugar e ao mesmo tempo.
Outra vez, a preferência foi pela silver vine. Alguns gatos até cheiraram rapidamente os dois lados, mas a maior parte concentrou-se fortemente na área com silver vine.
Um gato voltou repetidas vezes e escolheu o lado com silver vine em cinco de seis visitas. Nenhum animal respondeu exclusivamente ao catnip.
Um padrão notavelmente consistente
Os investigadores também avaliaram 22 gatos de raça, mantidos em instituições zoológicas no Japão. Entre eles havia Persas, Bengals, Maine Coons, Scottish Folds e outras raças.
Um ponto importante: não havia registo de exposição prévia desses animais a nenhuma das duas plantas.
Os pesquisadores colocaram papéis de filtro com extrato de catnip ou de silver vine, separados por cerca de 15 centímetros, dentro dos recintos habituais dos gatos.
O padrão manteve-se notavelmente consistente. Dezasseis gatos responderam apenas à silver vine. Três responderam apenas ao catnip. Um reagiu às duas plantas. Os restantes ignoraram ambas as opções.
Esses resultados indicaram que a preferência pela silver vine não estava restrita a um único grupo de gatos que viviam ao ar livre.
O que a análise química mostrou
A parte mais inesperada veio com a análise química.
Com cromatografia gasosa e espectrometria de massa, os pesquisadores descobriram que o catnip usado no estudo tinha cerca de 170 vezes mais iridoides bioativos por grama do que a silver vine.
Em teoria, isso deveria tornar o catnip o estímulo mais forte. Só que, na prática, os gatos continuaram a escolher a silver vine.
“À primeira vista, isso foi contraintuitivo”, disse o professor Masao Miyazaki, da Universidade de Iwate, que liderou o projeto.
“Seria de esperar que uma planta com mais compostos ativos - e compostos que claramente funcionam em testes laboratoriais - provocasse uma resposta comportamental mais forte em condições de escolha livre. Mas não foi isso que observámos.”
Uma mistura complexa de compostos
Para os autores, a vantagem da silver vine pode estar na complexidade química. Ao contrário do catnip, que depende sobretudo de um composto dominante, a silver vine liberta uma combinação de iridoides relacionados.
Entre eles estão cis-trans nepetalactol, isoiridomirmecina, dihidronepetalactona e vários compostos menores.
Quando os gatos mastigam a planta ou a danificam, essa mistura química ainda se altera e fica mais rica.
Os investigadores comparam a diferença à música: o catnip funcionaria como um único instrumento tocando alto, enquanto a silver vine criaria uma “execução” química em camadas, possivelmente mais capaz de prender a atenção dos gatos por mais tempo.
Importância do estudo
As implicações vão muito além de brinquedos para animais.
Com frequência, cientistas investigam comportamento animal com experiências controladas em que o animal é exposto a um estímulo de cada vez. Só que, na natureza, o cenário é outro: há sinais concorrentes, e os animais escolhem entre eles.
Assim, uma substância pode parecer muito eficaz no laboratório e, ainda assim, falhar no mundo real se os animais decidirem que ela é menos atraente do que outras opções.
“Este estudo sugere que a silver vine é um estímulo particularmente confiável para induzir o comportamento de auto-untamento nos gatos”, disse Miyazaki.
“Também nos lembra que o comportamento animal deve ser estudado em contextos em que os animais podem fazer as suas próprias escolhas.”
Para tutores, a pesquisa traz um conselho prático: a silver vine pode oferecer um enriquecimento melhor do que o catnip, especialmente para gatos que demonstram pouco interesse por brinquedos tradicionais com catnip.
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