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Descoberta de restos de 700.000 anos ligados aos “hobbits” *Homo floresiensis* em Flores, Indonésia

Jovem arqueóloga em sítio arqueológico analisa mandíbula fossilizada com vulcão ao fundo.

Uma equipa internacional de investigadores anunciou a descoberta de restos com cerca de 700.000 anos, ligados a uma espécie minúscula de ancestrais humanos carinhosamente apelidada de “hobbits”.

Os novos hominíneos foram encontrados numa ilha da Indonésia e parecem ter atingido apenas cerca de 1 metro de altura - embora ainda não esteja totalmente claro se representam uma espécie inédita.

O aspeto, porém, é muito parecido com o da espécie de hobbit já conhecida, Homo floresiensis. A grande diferença é cronológica: estes indivíduos viveram mais de 600.000 anos antes, o que mexe com a forma como entendemos a evolução dos hominíneos.

"Esta descoberta tem implicações importantes para a nossa compreensão da dispersão e evolução humanas iniciais na região e acaba de vez com quaisquer dúvidas de quem acredita que Homo floresiensis era apenas um humano moderno doente (Homo sapiens)", disse o investigador principal Gert van den Bergh, da Universidade de Wollongong, na Austrália.

"Notavelmente, estes fósseis, que incluem dois dentes de leite de crianças, têm pelo menos 700.000 anos."

Reconstruções e o contexto do “hobbit” Homo floresiensis

A seguir, pode ver uma reconstrução de Homo floresiensis feita em 2012:

Susan Hayes/Universidade de Wollongong

O achado reforça o fascínio em torno do “hobbit”, uma vez que a espécie descoberta em 2003 pode ter coexistido com humanos modernos até 12.000 anos atrás.

Ainda assim, houve quem defendesse que, em vez de uma linhagem de hominíneos pequenos, os restos atribuídos ao hobbit poderiam ser apenas de humanos doentes.

Esta nova evidência pesa contra essa hipótese - e indica que ancestrais de hominíneos de baixa estatura já circulavam pela Indonésia centenas de milhares de anos antes de Homo sapiens chegar à região. Em outras palavras: os hobbits eram reais.

Aqui está outra reconstrução dos pequenos "hobbits", feita pelo Atelier Elisabeth Daynes:

Kinez Riza

O que foi encontrado em Mata Menge, na ilha de Flores

A equipa desenterrou um fragmento de mandíbula e seis dentes, pertencentes a pelo menos um adulto e duas crianças, sob um antigo leito de rio no sítio conhecido como Mata Menge, na ilha indonésia de Flores.

Foi nessa mesma ilha que H. floresiensis foi identificado em 2003. E, agora, os fósseis mais antigos ajudam a esclarecer um debate que se arrasta desde então.

"Todos os fósseis são, indiscutivelmente, de hominíneos e parecem ser notavelmente semelhantes aos de Homo floresiensis", disse um dos investigadores, Yousuke Kaifu, do Museu Nacional de Natureza e Ciência de Tóquio, que comparou os fósseis com hominíneos modernos e extintos.

Onde os “hobbits” entram na árvore evolutiva dos hominíneos

A questão central passa a ser: como estes hobbits se encaixam na nossa árvore genealógica - e como foram parar a uma ilha remota? Ao publicar os resultados na Nature, a equipa propõe que essa linhagem possa ter evoluído a partir de uma espécie alta e ereta, Homo erectus, e que, em algum momento, tenha encolhido.

"A morfologia dos dentes fósseis também sugere que esta linhagem humana representa um descendente anão de um Homo erectus inicial que, de alguma forma, ficou isolado na ilha de Flores", afirmou Kaifu.

"O que é verdadeiramente inesperado é que o tamanho dos achados indica que Homo floresiensis já tinha atingido o seu pequeno tamanho pelo menos há 700.000 anos", acrescentou.

Além disso, a descoberta de ferramentas antigas no mesmo sítio, datadas de 1 milhão de anos, sugere que os hobbits podem ter vivido ali por ainda mais tempo e que, por algum motivo, a baixa estatura teria evoluído como adaptação ao ambiente insular.

Se esse cenário estiver correto, isso obrigaria a reescrever a árvore de parentesco dos hominíneos.

"É concebível que o minúsculo Homo floresiensis tenha evoluído as suas proporções corporais em miniatura durante os 300.000 anos iniciais em Flores e seja, assim, uma linhagem lateral anã que, em última instância, deriva de Homo erectus", disse van den Bergh.

"Também é possível que esta linhagem seja anterior à primeira chegada de hominíneos a Flores, o que implica que a especiação ocorreu numa ilha de passagem entre a Ásia e Flores, como Sulawesi."

Abaixo, vê-se um crânio de humano moderno (à direita) ao lado de um crânio de hobbit (à esquerda), com o fragmento de mandíbula recém-descoberto, de 700.000 anos, sobreposto:

Kinez Riza

Próximos passos: mais escavações e a procura de uma espécie precursora

Agora, a equipa está a escavar ainda mais profundamente o antigo leito do rio para encontrar partes mais completas do esqueleto - algo essencial para avaliar e classificar corretamente a descoberta. Em paralelo, procuram uma espécie precursora que explique a ligação entre Homo erectus e Homo floresiensis.

Ainda há muito trabalho pela frente, mas o mistério desta espécie diminuta - e o seu lugar na nossa linhagem - está mais perto de ser compreendido.

Para van den Bergh, o momento é particularmente marcante: ele escava no local há mais de 20 anos e trabalhou nesse período com o cientista australiano Mike Morwood, que identificou o hobbit original em 2003 e que morreu há três anos.

"O meu único pesar é que o Mike morreu em 2013 e, portanto, não viveu para partilhar a experiência e a emoção destes novos fósseis de hominíneos. Nós dois sabíamos que eles tinham de estar lá", disse van den Bergh.

"Acho que o Mike teria gostado bastante do facto de que o campo da paleoantropologia está prestes a sofrer mais uma grande reviravolta."

Temos de admitir: nós também estamos bastante entusiasmados com isso.

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