Quando cientistas querem descobrir o que vive perto do fundo do mar no Ártico, normalmente recorrem a redes de arrasto ou a ondas sonoras refletidas na coluna d’água.
As duas abordagens geram dados indiretos - contagens, massas e densidades -, mas nenhuma delas permite que os pesquisadores vejam, de fato, o que acontece lá embaixo.
Recentemente, um sistema de câmera “vídeo-acústico”, novo e compacto, foi instalado no fundo de um fiorde da Groenlândia e deu aos cientistas a chance de observar a vida marinha sob condições extremamente rigorosas. Entre as primeiras cenas registradas, apareceu um peixe-caracol à deriva, entrando de ré no enquadramento, com a cauda enrolada e a propulsão aparentemente desligada.
Dentro da câmera subaquática no Ártico
Uma equipe liderada pelo Dr. Evgeny Podolskiy, do Centro de Pesquisa Ártica da Universidade de Hokkaido, instalou o equipamento em Inglefield Bredning, um fiorde glacial no noroeste da Groenlândia, em 1º de agosto de 2025.
Todo o conjunto cabia em uma única caixa de transporte e pesava menos de 15 kg (33 libras), sem contar a âncora.
A configuração reunia uma câmera apontada para cima, duas luzes de LED vermelhas, um gravador de som, um hidrofone e um mecanismo de liberação acústica para permitir a recuperação completa do sistema mais tarde.
O equipamento permaneceu por oito dias no leito marinho, a 260 m (853 pés) abaixo da superfície. A câmera subaquática gravava clipes de 10 minutos, fazia uma pausa de 10 minutos e repetia o ciclo - somando cerca de 37 horas de vídeo ao longo de três dias.
O brilho invisível das profundezas
Câmeras subaquáticas convencionais costumam depender de luz branca intensa. Esse tipo de iluminação pode atrair alguns animais e afastar outros, interferindo justamente no comportamento que se pretende documentar.
Por isso, a equipe de Podolskiy optou por LEDs no extremo mais distante do espectro vermelho.
A maioria dos organismos de águas profundas - incluindo narvais e outros cetáceos - enxerga mal nessa faixa de comprimento de onda, o que torna as lâmpadas praticamente invisíveis para o que estiver nadando por perto.
O custo dessa escolha foi o alcance: a luz vermelha é absorvida rapidamente na água, e a distância útil de observação ficou limitada a apenas 0,3 a 0,9 m (1 a 3 pés).
Um peixe nadando para trás sem nadar
Nas 37 horas de gravação, o grupo registrou 478 organismos. A maior parte era minúscula - anfípodes, copépodes, águas-vivas e quetognatos responderam por 88% de todas as observações. Depois, vieram os encontros mais incomuns.
Um peixe-caracol - da família que detém o recorde de profundidade para peixes, em quase 8.230 m (27.000 pés) - entrou no campo de visão com a cauda à frente.
Ele enrolou a cauda e ficou imóvel por pelo menos 16 segundos antes de desaparecer.
Ainda não se sabe por que o animal derivou para trás. Peixes-caracol não têm bexiga natatória - a estrutura que torna a maioria dos peixes detectável ao sonar -, e por isso levantamentos acústicos frequentemente deixam de registrá-los por completo.
Outras espécies de águas profundas conseguem nadar de ré, mas fazem isso ativamente, invertendo a onda de movimento que percorre o corpo.
Um artigo sobre locomoção de peixes abissais descreve esse padrão como propulsão deliberada. No caso deste peixe-caracol, nada indicava esse tipo de ação: a propulsão parecia estar desligada.
Quando os narvais chegaram perto
Durante quase todo o período de instalação, foi possível ouvir narvais. Seus estalos, com frequência acima da audição humana, apareceram no registro de áudio em todas as datas, com exceção de uma.
As baleias quase nunca apareceram no vídeo. Quase.
Em 5 de agosto, pouco depois das 5h, o hidrofone captou sons fortes de narval enquanto a ponta de uma presa atravessava a imagem, a menos de 30 cm (menos de 1 pé) da boia.
O sistema foi projetado especificamente para não atrair as baleias.
Ancoragens anteriores no mesmo fiorde haviam despertado a curiosidade dos narvais a ponto de eles se aproximarem e colidirem com o equipamento, como documentou um estudo anterior dos mesmos pesquisadores. Com este sistema, isso não aconteceu.
Neve marinha se moveu com as marés
Alguns dos resultados mais marcantes do estudo não tinham relação direta com animais. A água diante da lente estava carregada de partículas orgânicas de queda lenta e de fibras finas, semelhantes a pelos - o material conhecido como neve marinha.
A concentração desse material podia dobrar em poucas horas. O deslocamento estava ligado diretamente às marés: a cada seis horas, as partículas invertiam a direção, e o movimento mais rápido ocorria durante as oscilações de maré mais intensas.
Isso indica que o alimento e os resíduos que passam pelos organismos do fundo não caem como uma “chuva” constante; em vez disso, chegam em pulsos moldados pelas marés.
Minúsculos crustáceos fizeram fugas rápidas
Os copépodes - pequenos crustáceos que lembram grãos de arroz “animados”, com antenas - representaram 26% de todas as detecções.
Alguns encostavam no cabo de ancoragem e reagiam com o que parecia ser uma manobra de fuga já “ensaiada”.
Eles dobravam as antenas ao longo do corpo e saltavam para o lado. Câmeras de laboratório já haviam registrado esse comportamento em ambientes controlados, mas imagens subaquáticas, em condições naturais, de copépodes nadando livremente e fazendo isso em água profunda e fria são raras.
A luz não parece ser o gatilho - muitos copépodes atravessaram os feixes vermelhos sem qualquer reação.
Pelo modo como as antenas respondem ao toque, o sinal que dispara a fuga parece ser mecânico.
O que ficou fora do enquadramento
A câmera subaquática operou por apenas três dias e registrou condições de maré de quadratura - a metade mais calma do ciclo de marés. Assim, ainda não se sabe o que ocorre durante as marés de sizígia, quando as correntes ficam mais fortes.
A absorção da luz vermelha também restringiu o campo de visão a menos de 0,9 m (3 pés). Além disso, a baixa resolução do vídeo fez com que a maioria dos animais pudesse ser identificada apenas até o nível de família, e não de espécie.
Uma visão mais nítida da vida no fundo do mar
Até então, ninguém havia filmado diretamente o hiperbentos - a fina camada de vida logo acima do fundo do mar no Ártico - nessa profundidade usando equipamento passivo, sem perturbar os animais que vivem ali.
As imagens obtidas na Groenlândia oferecem aos pesquisadores uma primeira referência visual do que habita essa camada e de como esses organismos se comportam. Sistemas de vídeo portáteis agora podem ajudar a preencher lacunas deixadas pelo sonar.
Peixes-caracol historicamente ficaram de fora das contagens em levantamentos acústicos nessa região. Aqui, eles apareceram na câmera. Novas instalações poderão contribuir para catalogar espécies que as ferramentas anteriores vinham deixando passar.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário