Na teia de relações de uma colónia de mamangavas, as abelhas operárias costumam ficar com quase toda a atenção.
Elas passam o dia a visitar centenas de flores, recolhendo néctar e pólen para manter a colónia alimentada, enquanto a rainha permanece no ninho a pôr ovos.
Essa imagem não está exatamente errada. Mas apaga as semanas anteriores ao surgimento de quaisquer operárias, quando a rainha precisa procurar alimento sozinha.
Um estudo recente indica que ela dá conta do recado com um olfato mais aguçado do que qualquer uma das suas filhas alguma vez terá.
Um começo solitário na primavera
Uma colónia de mamangavas não dura como uma colmeia de abelhas-do-mel. Cada colónia funciona por apenas uma estação, e só as novas rainhas do ano atravessam o inverno, adormecidas em tocas sob a neve.
Quando uma rainha desperta na primavera, a colónia de onde ela veio já se desfez. Então, ela precisa iniciar outra do zero por conta própria, saindo para recolher néctar e raspando cera para montar uma “creche”.
De volta ao ninho, ela sobe sobre as larvas e vibra os músculos de voo para as manter aquecidas. Até que as primeiras operárias surjam, semanas depois, ela é sozinha toda a força de trabalho.
“É uma aposta altíssima para a rainha”, disse a Dra. Melanie Kimball, da University of California, Davis (UC Davis). Um único passo em falso pode significar perder a colónia inteira.
Mais esperta do que as descendentes
Há alguns anos, a colaboradora de Kimball, a Professora Felicity Muth, começou a suspeitar de que as exigências de ser uma rainha jovem poderiam ter produzido uma mente mais afiada.
As mamangavas operárias eram estudadas havia décadas, mas as suas mães não. Muth caminhou por prados da Sierra Nevada durante a curta janela em que as rainhas recém-formadas ainda estavam a forragear.
Ela capturou as rainhas uma a uma e mediu a rapidez com que cada uma associava um cartão colorido a uma recompensa de açúcar.
As rainhas aprenderam essa ligação muito mais depressa do que as operárias. O artigo anterior sugeria que as mamangavas rainhas têm uma vantagem geral de aprendizagem.
Ainda assim, o trabalho não conseguia descartar uma explicação mais simples: a de que as rainhas apenas enxergariam melhor.
Seguindo o cheiro
Para entender o que estava por trás disso, Kimball repetiu o mesmo tipo de teste, mas com odores.
A trabalhar com mamangavas em cativeiro, ela combinou aromas florais com uma recompensa de açúcar e contou quantas tentativas cada abelha precisava até escolher o odor correto.
As rainhas aprenderam o cheiro recompensador com menos tentativas do que as operárias, repetindo o padrão que Muth tinha observado no campo com as cores.
Dois sistemas sensoriais, avaliados em experiências separadas, chegaram ao mesmo desfecho. As rainhas superaram as operárias nos dois.
Isso reforça a ideia de que a diferença não se resume à visão. Aprender pelo cheiro e pela visão confirma a vantagem das rainhas.
Um nariz mais treinado
Kimball também verificou o quanto um odor podia ser diluído antes que a abelha deixasse de reagir. As rainhas detetaram cheiros tão fracos que as operárias não conseguiam perceber.
Numa pradaria saturada de aromas concorrentes, essa sensibilidade extra pode fazer diferença.
Uma rainha que sente o néctar a partir de maior distância, ou que distingue uma flor de outra pelo cheiro, tende a encontrar alimento mais rapidamente.
Ao mesmo tempo, isso complica a questão central. A vantagem depende de diferenças no cérebro, de diferenças sensoriais, ou de uma combinação das duas? Esse virou o próximo enigma da equipa.
Preparada para a função
O padrão combina com a biologia das mamangavas. Uma rainha tem uma única oportunidade de iniciar uma colónia. Operárias têm irmãs para diluir o custo de uma decisão errada; a rainha não.
A pressão recai com mais força sobre a rainha justamente em tarefas do tipo medido nesses testes, como lembrar quais aromas de flores levam a uma recompensa.
Se ela falhar, o preço é o colapso de toda a sua linhagem genética. Kimball afirma que o objetivo de longo prazo agora é observar o próprio cérebro de forma direta.
Ao comparar rainhas e operárias de uma mesma espécie, pode ser possível identificar o que, fisicamente, diferencia a cabeça de um inseto que aprende mais depressa.
Polinizadores sob stress
As mamangavas polinizam flores silvestres nativas por todo o continente e dão conta de culturas que abelhas menores têm dificuldade em polinizar, como tomate e mirtilo. Isso faz delas importantes - e difíceis de substituir.
Há décadas, as mamangavas norte-americanas vêm perdendo espaço por causa da perda de habitat, da presença de abelhas-do-mel não nativas e de químicos usados na agricultura.
Outro estudo do grupo de Muth mostrou que alguns inseticidas reduzem a capacidade das abelhas de aprender cheiros.
Daí surge um problema. A habilidade que permite à rainha lançar uma colónia pode ser a mesma que esses químicos corroem. Isso pode colocar os polinizadores nativos sob uma pressão ainda maior.
O panorama mais amplo
A curiosidade maior por trás desta linha de investigação vai muito além das abelhas. Aprendizagem e memória aparecem em mamíferos, insetos, polvos e aves - criaturas com quase nada em comum do ponto de vista genético.
Colocar rainhas e operárias lado a lado oferece aos biólogos uma comparação invulgarmente “limpa”.
As duas abelhas são quase idênticas, exceto pelo traço que está a ser testado, o que elimina muitos dos fatores de confusão que normalmente embaralham perguntas sobre como a cognição evolui.
A novidade é que a vantagem das rainhas se estende para além das cores e chega ao cheiro. Trata-se de outro sentido, com o mesmo resultado.
Com isso, os investigadores podem deixar de perguntar se o primeiro achado foi acaso e passar a questionar que mudança no cérebro faz a rainha aprender mais depressa.
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