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Crannog de Loch Bhorgastail: plataforma de madeira mais antiga que Stonehenge

Mergulhador explorando destroços subaquáticos antigos entre tábuas de madeira.

Mergulhadores começaram a escavar uma pequena ilha de pedra num lago da Escócia já com uma certeza: havia madeira em algum ponto lá em baixo. Alguns pedaços apareciam do fundo do lago e podiam até ser vistos da superfície. O que ninguém imaginava era a quantidade.

Era muita - uma plataforma circular, bem compacta, feita de vigas e feixes de ramos, que ficou escondida sob as pedras por milhares de anos. Quando a datação foi finalmente confirmada, veio a surpresa: ela era mais antiga do que Stonehenge.

Sob as pedras da ilha

No Loch Bhorgastail, na Ilha de Lewis, arqueólogos trabalhando com a água na altura dos ombros retiraram as pedras que recobriam uma dessas ilhas. Essas estruturas são chamadas de crannogs - pequenos montes artificiais construídos em lagos da Escócia e da Irlanda.

A Dra. Stephanie Blankshein, arqueóloga marítima da University of Southampton, coordenou a investigação. A equipa confirmou que a “tampa” de pedras funciona como um disfarce.

Por baixo dela existe uma plataforma ampla construída inteiramente de madeira, com cerca de 23 metros de diâmetro (aproximadamente 75 pés), cujas vigas foram colocadas em algum momento entre 3500 e 3300 a.C.

“Quando começámos realmente a escavar foi quando percebemos que, na verdade, era esta estrutura de madeira coerente, bastante grande, que estava por baixo do que hoje se vê como a ilha de pedra”, disse Blankshein.

Mais antiga do que Stonehenge

Essas datas chamam atenção. A construção de Stonehenge só começou por volta de 3000 a.C. A plataforma do Loch Bhorgastail é anterior em várias centenas de anos. Trata-se de um sítio do Neolítico, e não da Idade do Ferro - período ao qual, por muito tempo, os arqueólogos presumiram que os crannogs pertencessem.

Um conjunto crescente de estudos tem empurrado a origem dos crannogs para mais atrás no tempo. Num trabalho anterior conduzido por alguns dos mesmos investigadores, vários crannogs das Hébridas foram datados em torno de 3640 a 3360 a.C.

Ainda assim, até esta escavação, ninguém tinha registado de forma completa a dimensão do que havia de madeira sob essas ilhas. Trabalho de campo realizado em 2021 já indicava que a madeira era o elemento estrutural que sustentava tudo - e não um enchimento de pedras. Era, de facto, uma plataforma de madeira construída.

Chegar ao “núcleo” implicou resolver um problema que há anos trava a arqueologia subaquática. Ferramentas de levantamento pensadas para terra firme costumam parar na linha da água. Já o equipamento marinho feito para águas mais profundas tem dificuldade em operar em profundidades inferiores a cerca de 0,9 metro (aproximadamente 3 pés).

Os topógrafos chamam essa zona de lacuna de dados de “fita branca” - uma faixa sem informação justamente onde a terra encontra a água. O crannog do Loch Bhorgastail fica exatamente dentro dessa faixa: a maior parte da estrutura está submersa e o restante fica acima da superfície.

Duas câmaras debaixo de água

A solução da equipa era simples como ideia e teimosa na execução. Eles colocaram duas câmaras GoPro Hero 9 num suporte, mantidas a cerca de 28 centímetros de distância (aproximadamente 11 polegadas). Cada uma filmava o fundo do lago com um ângulo ligeiramente diferente.

Depois, um software combinou as imagens para formar modelos em 3D. Como a distância entre as lentes era conhecida, ela funcionava como uma régua embutida, dispensando alvos de calibração separados.

Pontos de referência marcados na margem, medidos com GPS de alta precisão, serviram para ancorar todo o sistema a imagens de drone captadas de cima.

A estereofotogrametria já é bem estabelecida em trabalhos subaquáticos em maior profundidade, como indicado por pesquisas anteriores. Mas fazê-la funcionar em água rasa é outra história.

“Sedimentos finos, condições agitadas, vegetação flutuante e luz distorcida ou refletida atrapalham a captação de imagens em água rasa”, afirmou Fraser Sturt, coautor do artigo.

Cerâmica e calçada

Os escavadores também recuperaram centenas de fragmentos de cerâmica neolítica no fundo do lago ao redor da ilha. Havia partes de jarros e tigelas, algumas quase completas no lodo. Vários pedaços ainda continham resíduos de alimentos, o que aponta para preparação de comida e banquetes no local.

Uma calçada de pedra - hoje submersa - liga a margem ao crannog. O volume de cerâmica na água em volta sugere que objetos foram colocados ali intencionalmente, e não apenas derrubados e perdidos.

A partir dessas evidências, a função desses lugares parece menos doméstica e mais comunitária - espaços para cozinhar, realizar banquetes ou conduzir rituais partilhados por um grupo mais amplo.

Ilha de pedra: crannog de Loch Bhorgastail

O crannog do Loch Bhorgastail é apenas um entre cerca de 170 ilhas artificiais conhecidas só nas Hébridas Exteriores. Quase nenhuma delas foi escavada.

Com um método viável para levantar e mapear as margens rasas, a equipa consegue agora avançar para outros sítios que permaneceram pouco estudados porque os técnicos simplesmente não conseguiam alcançá-los.

O que esta escavação deixa claro, pela primeira vez, é que algumas dessas ilhas foram construídas no Neolítico em torno de grandes estruturas de madeira - e não como amontoados de pedras acrescentados em épocas posteriores.

Isso muda a forma como os investigadores interpretam os habitantes das Hébridas Exteriores há 5.000 anos e ajuda a compor um quadro mais nítido de quando a engenharia complexa apareceu pela primeira vez nas bordas desses lagos interiores.

“Embora ainda não saibamos exatamente por que essas ilhas foram construídas, os recursos e a mão de obra necessários para construí-las sugerem não apenas comunidades complexas capazes de tais feitos, mas também a grande importância desses sítios”, disse Blankshein.

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