Toda dissecação de pinguim registrada desde a década de 1880 encontrava o mesmo fragmento intrigante de tecido: uma faixa curta que saía do esterno e descia até os dois ossos da parte inferior das pernas.
Os anatomistas anotavam a estrutura, mas nunca chegaram a um consenso sobre o que ela era.
Para alguns, tratava-se apenas de uma “sobrinha” da parede abdominal. Para outros, aquilo pertencia a um músculo da coxa.
Assim, por mais de um século, esse tecido permaneceu na literatura científica rotulado de forma incorreta - ou simplesmente deixado de lado.
E a participação dele em uma das caminhadas mais reconhecíveis do reino animal era totalmente desconhecida.
Um quebra-cabeça de mais de um século
O tecido estranho já aparecia desde que biólogos da era vitoriana começaram a dissecar pinguins trazidos de expedições à Antártida.
Uns descreviam a peça como um prolongamento de um músculo do abdómen; outros a associavam a um músculo da coxa localizado ao longo da parte posterior da perna.
Pinguins são famosos por várias particularidades: ossos densos, nadadeiras rígidas e joelhos “escondidos” no interior da cavidade corporal, num agachamento permanente.
Mesmo sendo um animal que atrai multidões em praticamente qualquer grande aquário, o tecido mole por trás dessa postura continuava mal explicado.
Um estudo recente, baseado em dissecações, finalmente encerra a dúvida. O tecido confundido por tanto tempo é, na verdade, um músculo próprio - inexistente em qualquer outra ave viva.
E ele cumpre uma função específica na forma como os pinguins se deslocam.
Comparação dos músculos dos membros
A solução veio de uma dissecação comparativa meticulosa, liderada em conjunto pelos Drs. Justin A. Georgi e Margaret I. Hall, anatomistas da Universidade Midwestern, em Glendale, no Arizona.
O grupo também contou com profissionais de veterinária do SeaWorld de San Diego e especialistas de uma empresa de imagem médica.
Dois pinguins-de-crista (macaroni) serviram de base para o trabalho. Ambos foram submetidos à eutanásia de forma humanitária no parque marinho, durante cuidados veterinários de fim de vida, e depois doados para pesquisa.
Os pinguins-de-crista são menores do que os pinguins-imperador e recebem o nome por causa das plumas amarelas intensas acima de cada olho.
A equipa confrontou, músculo a músculo, toda a musculatura dos membros desses pinguins com as estruturas equivalentes em aves voadoras. Registos antigos de dissecação - alguns com mais de um século - também entraram na análise.
Com novas observações e a revisão desse material histórico, foi possível definir com precisão onde cada parte se fixa e qual é o papel real de cada componente.
O adutor tibial: um músculo exclusivo dos pinguins
Segundo a conclusão dos investigadores, o tecido discutido durante tanto tempo não é um pedaço de outra estrutura. Ele constitui um músculo independente.
Eles propõem chamá-lo de adductor tibialis (adutor tibial), em referência à sua função principal: puxar os ossos da perna para dentro, em direção ao centro do corpo.
O músculo origina-se no esterno, segue para baixo em ambos os lados e fixa-se perto do topo de cada osso da porção inferior da perna.
As duas metades encontram-se numa linha de tecido fibroso por baixo do peito. Quando o músculo entra em ação, os dois joelhos são puxados para dentro ao mesmo tempo.
A estrutura não apareceu em nenhuma outra ave viva examinada pela equipa. Isso torna o músculo uma especialidade dos pinguins - uma novidade anatómica associada a um corpo que precisa cumprir duas tarefas muito diferentes em ambientes muito diferentes.
Pinguins são feitos para a água
Pinguins não voam no ar: eles “voam” na água, que é cerca de 800 vezes mais densa.
Fazer uma asa atravessar essa resistência exige força tanto no movimento de subida quanto no de descida - não apenas no impulso para baixo em que aves voadoras se apoiam.
Nos pinguins-de-crista analisados, o músculo peitoral que, em aves voadoras, eleva a asa - o supracoracoideus - apareceu notavelmente aumentado.
Além disso, uma organização diferente do ombro conferiu à nadadeira uma amplitude de movimento maior, com um varrimento forte para trás que empurra a ave através da água.
Debaixo de água, o arrasto vira o inimigo principal. Um pinguim a perseguir krill não pode dar-se ao luxo de manter as pernas abertas para trás.
O músculo recém-nomeado parece ajudar a manter as porções inferiores das pernas bem juntinhas durante o mergulho - uma posição que deixa o corpo com um contorno mais limpo e hidrodinâmico.
O músculo também ajuda no andar gingado
Em terra firme, o mesmo músculo cumpre uma segunda função. Pinguins ficam de pé com os joelhos dobrados, embutidos profundamente no corpo, e com os pés bem separados na base.
Sem algo a puxar a parte inferior das pernas para o centro, o equilíbrio poderia falhar a cada passo.
Estudos anteriores de biomecânica já tinham mostrado que o balanço do corpo não é o gasto energético que muita gente imagina.
Um artigo de 2000 concluiu que essa oscilação, na verdade, capta e devolve energia entre as passadas. O que torna a caminhada dos pinguins dispendiosa não é o gingado em si, mas sim as pernas curtas.
O que a nova anatomia acrescenta é o “como”. O adutor tibial parece manter uma perna estável enquanto a ave inclina o corpo e, em seguida, ajuda a impulsionar a outra perna para a frente.
“Ele estabiliza a perna contra o corpo quando o pinguim está a inclinar-se para um lado”, disse Georgi.
O que muda com isso
O novo mapeamento deve ser valioso para quem lida com pinguins no dia a dia.
Veterinários de zoológicos, equipas de aquários e centros de reabilitação que recebem aves resgatadas vinham a trabalhar com referências anatómicas incompletas - e, em alguns pontos, simplesmente erradas.
“Este músculo é mencionado há mais de um século, mas quase sempre de forma confusa”, afirmou Caro Acosta Hospitaleche, paleontóloga do Museu de La Plata, na Argentina, ao descrever a dissecação como um esclarecimento esperado há muito tempo.
A musculatura descrita também oferece aos biólogos evolutivos uma visão mais precisa de como aves sem voo, adaptadas ao mergulho, remodelaram o plano corporal básico das aves.
Pesquisas anteriores já tinham indicado que a transição de asa batida para nadadeira de natação envolve compensações reais na função dos membros.
Implicações mais amplas do estudo
Pela primeira vez, um músculo que confundiu anatomistas por mais de um século passa a ter um nome e uma função bem definidos.
O adductor tibialis (adutor tibial) parece contribuir para que os pinguins se mantenham mais hidrodinâmicos debaixo de água e mais estáveis durante o seu característico andar gingado em terra.
A descoberta não apenas reescreve uma parte da anatomia dos pinguins, como também pode melhorar cuidados veterinários, reabilitação e estudos futuros sobre como as aves evoluíram para prosperar no mar.
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