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Nova Hemiphyllodactylus ziegleri encontrada no carste de calcário do Vietnã

Mão segurando pincel limpando pequena lagartixa em rocha com caderno e medidor ao lado em ambiente natural.

Uma pequena lagartixa que se escondia em escarpas de calcário no noroeste do Vietnã acabou por se revelar uma espécie que ainda não tinha sido registada pela ciência.

A identificação dela - juntamente com outra lagartixa nova descrita na mesma província - reforça que as paisagens calcárias do Vietnã continuam a guardar animais ainda não contabilizados.

Segredos camuflados nas paredes dos penhascos

Durante buscas noturnas na Reserva Natural de Copia, na província de Son La, pesquisadores observaram o réptil pousado em falésias de calcário e até num poste de energia.

Anh Van Pham, da Universidade Nacional do Vietnã, em Hanói (VNU), concluiu que o conjunto de marcas e as contagens de escamas não correspondiam a nenhuma espécie já conhecida.

Uma comparação independente de sequências genéticas reforçou o diagnóstico: a linhagem diferia em pelo menos 14 por cento em relação a outros integrantes do mesmo grupo.

Com isso, um lagarto pequeno visto à noite passou a ser evidência de que os ambientes calcários do Vietnã ainda escondem espécies à vista de todos.

Os detalhes físicos que fizeram a diferença

Grande parte da confirmação baseou-se na morfologia - características do corpo que podem ser medidas - como contagens de poros e fileiras de escamas diminutas.

Nos machos adultos, o comprimento do focinho até a cloaca chegava a cerca de 4,1 cm (1,6 polegada), enquanto as fêmeas eram maiores e alcançavam quase 5,1 cm (2 polegadas).

Outra distinção importante foi a presença de 21 a 23 poros perto da base da cauda nos machos; nas fêmeas, esses poros não apareciam - uma diferença marcante dentro da própria espécie.

Esses pormenores contam porque permitem separar uma linhagem real de outra vizinha que, a olho nu, pode parecer quase igual.

O calcário (carste) separa espécies

Esses achados voltam repetidamente ao carste, relevo esculpido pela dissolução do calcário, no qual paredões e fendas formam inúmeros micro-habitats.

O isolamento nesses compartimentos faz com que pequenas populações sigam trajetórias próprias durante longos períodos, com pouca mistura entre si.

Assim, uma única crista pode abrigar uma lagartixa desconhecida na crista seguinte, a apenas alguns quilómetros de distância.

Por isso, cortes de estrada, extração de madeira e abertura de áreas agrícolas podem eliminar linhagens únicas antes que a ciência consiga descrevê-las.

Um par de espécies escondidas

O mesmo conjunto de artigos trouxe uma segunda novidade em Son La: outra espécie de Hemiphyllodactylus, uma “lagartixa-de-meio-dedo-folha”, encontrada em calcários próximos.

Nesse caso, Hemiphyllodactylus pakhaensis foi observado em paredes de casas e nas formações cársticas ao redor, mostrando como esses animais aproveitam tanto estruturas humanas quanto habitats naturais.

O registo dessa espécie na mesma província elevou para 12 o total conhecido do género no Vietnã.

O facto de duas espécies terem sido descritas em simultâneo sugere que o noroeste vietnamita tem sido pouco investigado por pesquisadores.

Uma homenagem na taxonomia

Hemiphyllodactylus ziegleri recebeu o nome em tributo ao especialista em répteis e anfíbios Dr. Thomas Ziegler.

Um perfil oficial aponta que a sua carreira se concentrou em répteis e anfíbios do Sudeste Asiático ao longo de mais de três décadas.

O comunicado credita ao Dr. Ziegler participação na descrição de sete espécies de Hemiphyllodactylus do Vietnã, além de trabalho de conservação mais amplo.

Dessa forma, a homenagem transforma o artigo num registo de biodiversidade, de trabalho de campo prolongado e de mentoria.

Na estreita margem da sobrevivência

Apesar do entusiasmo, a nova lagartixa é conhecida apenas de uma área protegida em Son La.

Uma página oficial da reserva informa que Copia foi criada em 2002 e inclui montanhas calcárias acima de 3.000 pés (cerca de 914 m).

Ainda assim, o estudo estima a distribuição da espécie em menos de 19 milhas quadradas (aprox. 49 km²), enquanto obras rodoviárias e extração de madeira continuam a degradar o habitat.

Por ora, a classificação mais prudente é Dados Insuficientes, uma categoria da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) aplicada quando não há informação suficiente.

Traços convergentes indicam descobertas inéditas

Cientistas não descrevem uma espécie nova apenas por encontrar um animal diferente numa noite feliz. Neste caso, forma do corpo, contagens de poros, padrão de coloração e divergências genéticas separaram os indivíduos de Copia de parentes próximos na análise da VNU.

Esse processo é a taxonomia - a prática de nomear e classificar a vida - quando evidências distintas apontam para o mesmo limite entre espécies.

Sem essa triagem, espécies crípticas permanecem “escondidas” dentro de nomes antigos e não entram em planos de conservação como unidades biológicas próprias.

Uma região à espera de ser revelada

O norte do Vietnã tem-se consolidado como fonte contínua desse tipo de descoberta, sobretudo em terrenos calcários florestados, difíceis de amostrar.

Nos últimos 10 anos, mais de 60 integrantes do género foram descritos recentemente, o que representa cerca de 85 por cento de toda a diversidade hoje conhecida.

Os autores também destacaram que o Vietnã se tornou um grande hotspot de descobertas, com pelo menos dez espécies muito próximas identificadas nos anos recentes.

Números assim sugerem que os pesquisadores estão a recuperar um grande passivo de animais negligenciados - e não apenas a atravessar uma fase curta de achados por sorte.

Mais espécies à espera de serem encontradas

O tamanho reduzido explica só parte do motivo de essas lagartixas terem escapado de levantamentos anteriores. Durante o dia, elas desaparecem em fendas estreitas; à noite, podem ser quase indistinguíveis de parentes próximos.

Em situações assim, pesquisadores usam o termo espécie críptica para diferentes animais que se parecem muito, ao ponto de observações de campo comuns não captarem a separação.

No noroeste do Vietnã e nas vizinhanças do Laos e da China, esse padrão indica que muitos outros répteis ainda precisam de um exame mais atento.

O aparecimento de duas lagartixas novas numa única província vietnamita evidencia quanta biodiversidade permanece concentrada em faixas estreitas de paisagens calcárias.

Novos levantamentos conduzidos pela VNU e por equipas parceiras podem revelar lagartixas ainda sem nome, mas a proteção das florestas e dos penhascos pode ser tão decisiva quanto a própria pesquisa.

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