Todo pai ou mãe já viu a cena: a criança sobe mais do que o esperado, se equilibra num lugar estreito ou salta de um ponto que parece alto demais. Em segundos, os adultos travam e ficam em alerta.
Com o passar do tempo, muitas escolas e parques infantis reagiram a esse medo tentando eliminar o desafio da infância.
Só que um novo estudo publicado indica que a brincadeira arriscada pode, na verdade, ajudar as crianças a tomar decisões mais seguras no futuro.
Com o uso de realidade virtual, os investigadores observaram que as crianças que se arriscaram mais durante a brincadeira também lidaram com situações de atravessar a rua de forma mais eficiente - sem se tornarem mais imprudentes.
Crianças aprendem por meio do risco
As crianças encontram risco desde o momento em que começam a circular pelo mundo. Aprender a andar inclui cair. Andar de bicicleta envolve desequilíbrios e “bambear”. Até as relações sociais carregam incerteza.
A pesquisa, liderada por Mariana Brussoni, da Universidade da Colúmbia Britânica, defende que a cultura atual de parentalidade passou a girar fortemente em torno da proteção.
Em muitos locais, as crianças hoje têm menos oportunidades de testar os próprios limites com autonomia.
Os autores definem brincadeira arriscada como atividades que podem envolver subir alto, mover-se rápido, brincar de luta e contato (o famoso empurra-empurra), ou explorar sem supervisão adulta constante.
Para os adultos, isso costuma parecer perigoso. Para as crianças, pode funcionar como treino para lidar com a incerteza.
Testando o perigo na realidade virtual
Estudar como crianças reagem ao perigo traz um impasse ético evidente.
Os investigadores não podem colocar crianças em situações verdadeiramente perigosas. A realidade virtual apareceu como uma alternativa.
“Eu não acho que exista um comitê de ética no mundo que permitiria jogar crianças no trânsito para ver como elas se sairiam”, disse a Dra. Brussoni.
“De fato, não tínhamos conseguido testar essa hipótese direito antes de termos acesso a esse tipo de tecnologia.”
Crianças enfrentaram cenários realistas
A equipa de pesquisa recrutou 424 crianças com idades entre 7 e 11 anos. Todas participaram de duas experiências em realidade virtual.
A primeira reproduzia um parque infantil com traves de equilíbrio, pilares e áreas elevadas. Durante três minutos, a criança podia explorar livremente. Se caísse, reiniciava e continuava a brincar.
A segunda colocava a criança ao lado de uma avenida movimentada e de uma ciclovia, exigindo que avaliasse o fluxo e escolhesse o momento certo para atravessar com segurança.
Os investigadores registaram o comportamento de escalada, o tempo gasto em níveis mais altos, as escolhas de travessia, os “quase acidentes” e as colisões.
A infância varia entre países
A maior parte dos participantes era da Noruega, e um grupo menor veio do Canadá.
Essa comparação era importante porque os dois países costumam encarar a infância de maneiras diferentes.
Na cultura norueguesa, é mais comum apoiar independência ao ar livre e brincadeiras aventureiras. Já no Canadá, com o tempo, o padrão tornou-se mais cauteloso, com crianças sob supervisão mais rígida.
Até a escola canadense incluída no estudo estimulava atividades externas mais do que a maioria das escolas do país.
Os alunos passavam tempo ao ar livre usando toras, madeira, pneus, “cozinhas de lama” e ferramentas. Mesmo assim, diferenças claras ainda apareceram.
Algumas crianças se sentem confortáveis com o risco
Os investigadores reuniram várias medidas num único indicador que representava a disposição de assumir riscos físicos durante a brincadeira.
As crianças norueguesas obtiveram pontuações significativamente mais altas do que as canadenses.
Também se observou que crianças mais velhas, em geral, se arriscavam mais do que as mais novas. Os meninos tendiam a pontuar acima das meninas, em linha com estudos anteriores sobre desenvolvimento.
Ainda assim, nacionalidade e idade explicaram apenas parte das diferenças. Traços de personalidade, estilos parentais, o desenho do bairro e experiências prévias provavelmente também influenciam o comportamento diante do risco.
O risco melhorou decisões ao atravessar a rua
As crianças que assumiram mais riscos no parque em realidade virtual também caíram mais vezes. Cerca de uma em cada cinco crianças teve pelo menos uma queda durante a atividade.
À primeira vista, isso parece validar o receio de muitos pais: mais risco, mais tombos.
Mas o resultado seguinte mudou a interpretação. Ao analisar a tarefa de travessia, os investigadores viram que as crianças mais dispostas a se arriscar na brincadeira apresentaram outro padrão de comportamento.
Elas decidiram atravessar mais depressa e de forma mais eficiente. E, sobretudo, essa agilidade não se traduziu em consequências mais perigosas.
No ambiente de trânsito em realidade virtual, as crianças que aceitaram melhor a brincadeira arriscada não tiveram maior probabilidade de “quase acidentes” ou colisões.
Em outras palavras, gostar de desafio não significou agir sem noção. Elas pareciam mais confiantes para interpretar situações em mudança.
Cair ensina a julgar rapidamente
Para explicar os resultados, os autores recorrem ao chamado Modelo de Gestão Dinâmica de Riscos.
Nesse modelo, navegar pelo risco envolve três componentes ligados entre si: a disposição de se envolver com a incerteza, a avaliação do perigo e a resposta física.
Quando uma criança se equilibra numa trave, ela pratica esses três processos ao mesmo tempo. Ela estima a estabilidade, ajusta o corpo, reage ao balanço e aprende com o erro.
Até a queda vira dado útil. Com repetição, o cérebro constrói mecanismos para prever o movimento e responder com rapidez.
Atravessar uma via movimentada pode parecer muito diferente de se equilibrar num brinquedo do parque, mas ambas as situações exigem leitura rápida de condições que mudam o tempo todo.
Os espaços de brincar moldam o comportamento
O estudo também chama atenção para como o ambiente influencia as crianças.
Áreas naturais ao ar livre, com árvores, pedras e terreno irregular, convidam à exploração. Parques excessivamente controlados passam uma mensagem completamente diferente.
As crianças aprendem a partir das possibilidades que o espaço oferece. Se raramente encontram riscos administráveis, podem ter menos oportunidades de treinar a avaliação do perigo por conta própria.
Os efeitos não precisam aparecer na hora. Eles podem surgir mais tarde, quando a criança se depara com situações do mundo real que pedem julgamento rápido.
Segurança exige risco saudável
Para pais e mães, a pesquisa traz um recado relevante: proteger não é sinónimo de retirar todo desafio da vida infantil.
Uma dose de incerteza pode ajudar a criança a desenvolver o discernimento de que vai precisar depois.
“Manter as crianças seguras significa deixá-las correr riscos”, afirmou a Dra. Brussoni. “Essa brincadeira arriscada é uma forma fundamental de as crianças aprenderem sobre o mundo, sobre si mesmas e sobre como se manter seguras em situações diversas.”
Essa lógica não se limita à parentalidade. Ela também mexe com o desenho de parques, as políticas escolares e o planeamento urbano.
As crianças podem precisar de espaços que permitam escalar, equilibrar-se, explorar e testar limites - e não de ambientes onde todo possível perigo foi removido.
O risco prepara melhor as crianças
Uma infância sem risco pode soar perfeita. Porém, esta pesquisa sugere que isso pode deixar a criança menos pronta para momentos em que não dá para evitar o risco.
Quem caiu das traves virtuais foi, muitas vezes, quem atravessou as ruas virtuais com mais eficácia.
Essas quedas não foram fracassos. Foram aprendizagem.
Na próxima vez que uma criança subir numa árvore mais alto do que você imaginava, talvez valha olhar a situação de outro jeito. Ela não está apenas à procura de adrenalina.
Ela está a aprender a lidar com a incerteza num mundo que nem sempre vai abrandar para ela.
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