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Cientistas criam microrrobôs microscópicos que nadam, mudam de rota e evitam colisões sem sensores, software ou controlo externo

Cientista observa microscópio enquanto tela exibe labirinto com pequenos robôs no laboratório.

Cientistas construíram microrrobôs microscópicos capazes de nadar, mudar de rota e evitar colisões sem sensores, sem software e sem qualquer controlo externo.

Esse tipo de comportamento surge apenas do formato do corpo, indicando que navegação e resposta ao ambiente podem aparecer sem nenhuma “inteligência” embarcada.

A forma vira comando

No laboratório, segmentos minúsculos interligados se enrolavam, se esticavam e deslizavam para a frente assim que um campo elétrico alternado passava a atuar sobre eles.

Ao observar esse movimento, Daniela Kraft, física da Universidade de Leiden, mostrou que o próprio corpo assumia escolhas que, em geral, ficariam a cargo de componentes eletrónicos.

No arranjo de Kraft, a extremidade dianteira e a traseira “puxam” de modos diferentes; por isso, a cadeia inteira vai mudando de configuração enquanto atravessa o fluido.

Nesse ciclo contínuo, movimento e forma deram aos robôs um aspeto quase animal e prepararam o terreno para tudo o que eles fariam a seguir.

Movimento guiado por retroalimentação

A energia vinha de um campo elétrico de corrente alternada (CA), uma força elétrica que se inverte rapidamente, fazendo com que cada segmento impresso impulsionasse o conjunto para a frente.

Em vez de repetir um golpe fixo, o corpo articulado gerava vários padrões de locomoção, como deslizamento, ondulação, rotação e batimento.

Em lugar de executar um “roteiro”, a cadeia continuava redistribuindo a deformação de um segmento para o outro conforme as condições mudavam.

O resultado foi um movimento com aparência adaptativa, embora nada dentro do robô estivesse a medir, planear ou decidir.

Obstáculos mudam o comportamento

Quando surgia um problema no caminho, a forma da cadeia se alterava antes mesmo de a direção mudar.

Ao ser pressionada contra uma barreira, os segmentos traseiros continuavam a empurrar; assim, a cauda chicoteava e a cadeia passava a procurar outra rota.

Quando duas cadeias se encontravam, elas se desviavam de maneira natural, e em ambientes mais cheios a “bagunça” às vezes era empurrada para o lado, em vez de travar o nadador.

Essas respostas importam porque a navegação só se torna realmente útil quando um dispositivo consegue seguir em movimento dentro de espaços apertados.

Física em escalas minúsculas

Nessa escala, forças viscosas dominam a locomoção; por isso, micronadadores - corpos pequenos que se propulsionam em fluidos - não conseguem “embalar” como máquinas maiores.

Cada dobra, então, muda o quanto o fluido resiste ao corpo, e essa resistência altera imediatamente a próxima dobra.

Microrrobôs anteriores muitas vezes contornavam esse desafio com estruturas rígidas ou com direção externa, o que limitava o quanto podiam adaptar-se livremente.

As cadeias de Leiden seguiram o caminho oposto, tratando a própria flexibilidade como se fosse o sistema de controlo.

Impressão no limite

Cada cadeia usava elementos principais de 5 micrômetros, ou milionésimos de metro, e articulações de apenas 0.5 micrômetro.

Mesmo assim, os nadadores avançavam cerca de 7 micrômetros por segundo e permaneciam menores do que a largura de um fio de cabelo humano.

Conseguir imprimir partes flexíveis nesse tamanho foi relevante porque, à medida que as estruturas encolhem, a rigidez e o risco de quebra costumam aumentar.

Com isso, o desenho mostrou que uma “maciez” funcional pode sobreviver em dimensões que antes pareciam pequenas demais para isso.

Inteligência sem código

Os pesquisadores chamam esse princípio de inteligência incorporada: um comportamento que nasce do formato do corpo e do ambiente ao redor, já que nenhum chip diz à cadeia o que fazer.

Perceção e reação aconteceram na mesma estrutura e ao mesmo tempo, sem fios, sem código e sem processadores miniaturizados.

“Esse microrrobô, portanto, percebe como o ambiente muda o seu corpo e reage a isso, fazendo com que pareça vivo”, disse Kraft.

A própria explicação dela também trouxe um limite junto com uma promessa, porque o comportamento se mostrou com clareza antes que todas as regras fossem totalmente compreendidas.

Usos médicos à frente

Engenheiros da área médica há muito miram microrrobôs para entrega direcionada de fármacos, deteção de alta precisão e cirurgia minimamente invasiva.

Um nadador que consiga desviar de obstáculos poderia, em princípio, atravessar fluidos congestionados sem correções externas constantes.

No entanto, os corpos são quimicamente confusos e muito mais complexos do que uma câmara de laboratório, então essa vantagem ainda é apenas uma possibilidade.

Ainda assim, uma resposta baseada em forma pode diminuir a necessidade de eletrónica miniaturizada justamente onde esses componentes são mais difíceis de acomodar.

Perguntas ainda em aberto

O que falta nesse quadro é uma descrição física completa de por que um modo de movimento surge num momento e não em outro.

Regras melhores poderiam permitir que engenheiros ajustassem uma cadeia para virar, empurrar obstáculos para o lado ou atravessar passagens estreitas.

Kraft agora quer que a equipa determine com exatidão como esse comportamento dinâmico aparece do ponto de vista físico.

Responder a isso pode refinar dispositivos futuros e também esclarecer melhor como nadadores vivos usam corpos flexíveis.

Mais do que imitação

Nada aqui está vivo, mas o comportamento parece intencional o bastante para questionar o atalho de que movimento “esperto” sempre exige computação.

Biólogos estudam retroalimentações semelhantes em células e pequenos organismos, nos quais corpo e ambiente se remodelam continuamente.

Ao recriar esse princípio numa máquina impressa, os experimentos ofereceram uma plataforma mais simples para testar ideias sobre navegação.

O valor mais profundo pode ser duplo: microrrobôs melhores e uma física mais clara para sistemas que já se movem assim na natureza.

O que vem a seguir

Ao longo desses experimentos, uma mensagem voltou a aparecer: formas escolhidas com cuidado podem gerar perceção, resposta e navegação antes que qualquer circuito entre em cena.

Se os pesquisadores conseguirem prever essa relação com mais precisão, microrrobôs futuros podem tornar-se ao mesmo tempo mais simples de construir e mais capazes em ambientes difíceis.

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