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Novo método supera o limite de Shockley–Queisser e transforma energia “extra” da luz em portadores de carga

Homem com jaleco branco inspecionando painel solar em telhado ao ar livre com laptop ao fundo.

Novo método transforma energia “extra” da luz em portadores de carga e contorna o limite de Shockley–Queisser

Pesquisadores apresentaram uma estratégia para contornar um dos limites fundamentais mais conhecidos da energia solar: o limite de Shockley–Queisser, que define a eficiência teórica máxima de uma célula solar e, por mais de 60 anos, foi tratado como o teto para o desempenho de fotoelementos.

Hoje, a maior parte dos painéis solares baseia-se em células fotovoltaicas - semicondutores que convertem luz em eletricidade. Mesmo em condições ideais, porém, esses dispositivos aproveitam apenas uma fração da energia do Sol. O limite teórico é de 33%, enquanto painéis comerciais normalmente ficam em torno de 25%.

A razão está na própria natureza da radiação solar e em restrições termodinâmicas. A luz do Sol chega com um espectro amplo de energias, mas as células conseguem converter com boa eficiência só uma faixa estreita. Fótons com energia baixa demais atravessam o material sem gerar eletricidade; já os fótons mais energéticos acabam dissipando a parte excedente como calor.

Como a luz azul “perdida” passa a render mais energia

Em um estudo recente, cientistas do Japão e da Alemanha propuseram aproveitar justamente a parcela do espectro que antes era vista como “perdida”. O foco é a luz azul, de alta energia, que em configurações tradicionais não é convertida em eletricidade de forma eficiente.

O grupo demonstrou que, ao iluminar um composto específico com esse tipo de luz, é possível “dividir” a energia de um único fóton em duas excitações úteis. Com isso, eles observaram uma eficiência em torno de 130% - isto é, para cada 100 fótons absorvidos, surgem 130 portadores de energia.

Esse ganho é explicado por um mecanismo chamado fissão singlete. Nele, um estado excitado pode originar dois estados excitados, aumentando o número de portadores de carga sem que seja necessário absorver mais fótons.

Tetraceno com molibdénio: a combinação usada e o estágio atual

Para viabilizar o método, os pesquisadores recorreram a uma molécula orgânica, o tetraceno, combinada com o elemento metálico molibdénio. O tetraceno já havia sido explorado antes em abordagens voltadas a luz de alta energia, mas essas soluções costumavam esbarrar em problemas de estabilidade e de operação prolongada. Segundo os autores, a introdução do molibdénio ajudou a superar essas limitações.

Um dos autores, o químico Yoichi Sasaki, da Universidade de Kyushu, explicou que há duas linhas principais para ultrapassar o limite de Shockley–Queisser. A primeira consiste em converter fótons infravermelhos, de baixa energia, em fótons mais energéticos. A segunda é empregar a fissão singlete para obter duas excitações a partir de um único fóton - exatamente a via demonstrada neste trabalho.

Por enquanto, a pesquisa permanece em nível de laboratório. Os resultados mostram que, em princípio, é possível contornar o limite fundamental, mas ainda falta muito para que a ideia seja aplicada de forma prática em painéis solares comerciais.

Ainda assim, trata-se de um dos avanços mais expressivos na tentativa de revisar um limite que, por muito tempo, foi considerado intransponível. Caso a tecnologia consiga ser escalada, ela pode influenciar o projeto de fotoelementos e elevar a eficiência da energia solar sem exigir uma mudança radical na arquitetura básica desses dispositivos.


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