Um possível planeta habitável ao redor de Alpha Centauri A
Pode existir um mundo potencialmente habitável orbitando a gêmea solar mais próxima do Sol.
No ambiente dinâmico do sistema triplo Alpha Centauri, o JWST acaba de apontar indícios da presença de um exoplaneta gigante em torno de Alpha Centauri A, a estrela mais parecida com o Sol entre as três.
Mais do que isso, o objeto aparenta estar na zona habitável da estrela - a faixa de distância considerada adequada para que a água líquida possa se acumular.
E há um detalhe extra importante: o sinal desse possível mundo, provisoriamente chamado de Alpha Centauri Ab, surgiu por meio de imagem direta, em um resultado que pode representar um avanço relevante para a ciência de exoplanetas.
"Se for confirmado, o planeta em potencial visto na imagem do Webb de Alpha Centauri A marcaria um novo marco para os esforços de imagem de exoplanetas", afirma o astrofísico Aniket Sanghi, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech).
"Entre todos os planetas com imagem direta, este seria o mais próximo de sua estrela já visto até agora. Também é o mais semelhante em temperatura e idade aos planetas gigantes do nosso Sistema Solar, e o mais perto do nosso lar, a Terra."
Por que encontrar exoplanetas no sistema Alpha Centauri é tão difícil
O sistema Alpha Centauri fica a apenas 4 anos-luz de distância. Ele é formado por um par binário, Alpha Centauri A e Alpha Centauri B, e por uma terceira estrela, a anã vermelha Proxima Centauri, que orbita mais afastada.
Já há outros exoplanetas confirmados nesse sistema. Três foram identificados ao redor de Proxima Centauri, incluindo um que está dentro da zona habitável da estrela. Ainda assim, o entorno de anãs vermelhas - frequentemente marcado por forte atividade - pode ser menos acolhedor do que o de estrelas semelhantes ao Sol.
Por outro lado, detectar mundos no par binário central tem se mostrado bem mais difícil.
"Como esse sistema é tão próximo de nós, quaisquer exoplanetas encontrados ali ofereceriam nossa melhor oportunidade de coletar dados sobre sistemas planetários além do nosso", diz o astrônomo Charles Beichman, diretor do Instituto de Ciência de Exoplanetas da NASA no Caltech.
"No entanto, são observações extremamente desafiadoras de se fazer, mesmo com o telescópio espacial mais poderoso do mundo, porque essas estrelas são muito brilhantes, muito próximas e se deslocam rapidamente pelo céu."
Até agora, Alpha Centauri B segue sem um mundo conhecido. Mesmo assim, surgiram lampejos de algo em órbita de Alpha Centauri A, a mais brilhante das três e pertencente à mesma classe de estrelas do tipo G do Sol.
Em 2021, uma equipe de astrônomos liderada por Kevin Wagner, da Universidade do Arizona, anunciou uma detecção provisória de um exoplaneta na zona habitável de Alpha Centauri A, identificada por imagem direta.
Em geral, a maior parte dos exoplanetas é descoberta por métodos indiretos, como a busca por quedas regulares no brilho da estrela (causadas pelo trânsito do exoplaneta) ou por alterações na luz estelar associadas ao efeito gravitacional do planeta.
O enigma do “planeta que sumiu” e as simulações
Para procurar novos indícios desse possível mundo, Sanghi, Beichman e colegas recorreram ao JWST. As primeiras observações foram feitas em agosto de 2024, com o uso de um coronógrafo para mascarar a luz de Alpha Centauri A. Depois de subtrair a contribuição luminosa de Alpha Centauri B, os resultados indicaram uma fonte pontual fraca, a aproximadamente o dobro da distância entre Alpha Centauri e a Terra em relação à distância entre a Terra e o Sol.
Só que observações de acompanhamento realizadas em fevereiro e abril de 2025 não mostraram nenhum objeto equivalente.
"Estamos diante do caso de um planeta que desaparece!", explica Sanghi. "Para investigar esse mistério, usamos modelos computacionais para simular milhões de órbitas potenciais, incorporando o conhecimento obtido quando vimos o planeta, bem como quando não vimos."
As simulações também levaram em conta o avistamento relatado por Wagner e sua equipe. Em cerca de metade dos cenários simulados, o exoplaneta ficava perto demais da estrela para ser detectado, com seu sinal engolido pelo brilho intenso - o que reforça a hipótese do Alpha Centauri Ab.
O que os dados sugerem sobre Alpha Centauri Ab
Com base nessa análise, os pesquisadores estimaram que o mundo teria um raio de aproximadamente 1 a 1,1 Júpiter, massa entre 90 e 150 Terras (comparável à massa de Saturno, de 95 Terras) e orbitaria a cerca de duas vezes a distância Terra–Sol (por volta de 2 UA), dentro da zona habitável.
Esse conjunto de características descreve necessariamente um gigante gasoso, o que coloca em dúvida a sua habitabilidade direta. Ainda assim, no Sistema Solar, gigantes gasosos costumam ter muitas luas, algumas das quais poderiam sustentar condições habitáveis - portanto, a natureza do exoplaneta não elimina a possibilidade de vida no entorno de Alpha Centauri A.
Mesmo assim, será necessário trabalho adicional para confirmar a existência do Alpha Centauri Ab e entender como ele sequer teria se formado no complexo ambiente gravitacional do sistema Alpha Centauri.
"Sua própria existência em um sistema de duas estrelas com separação pequena desafiaria nosso entendimento de como os planetas se formam, sobrevivem e evoluem em ambientes caóticos", diz Sanghi.
A descoberta é detalhada em dois artigos nas Cartas do Jornal Astrofísico. Eles podem ser encontrados aqui e aqui.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário