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Meta 30×30: estudo global revela como a conservação impacta bilhões de pessoas

Comunidade indígena reunida ao ar livre discutindo mapas e plantas em mesa rústica.

A ideia de conservar a natureza costuma soar simples: separar uma área, proteger espécies e esperar que os ecossistemas se recomponham. Na prática, porém, o cenário muda completamente quando já existem pessoas vivendo e trabalhando nessas terras.

Um amplo estudo internacional evidencia o quanto a vida humana está entrelaçada aos planos de conservação - e como ignorar esse vínculo pode comprometer um dos maiores objetivos ambientais do planeta.

Ao investigar o que seria necessário para cumprir a meta global 30×30, os pesquisadores tiram o foco de mapas e percentuais e colocam a discussão em pessoas, meios de vida e justiça.

A ofensiva global pela conservação afeta pessoas

Em 2022, os países concordaram em proteger 30 por cento das terras e das águas do planeta até 2030. Essa meta é um dos pilares do Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal.

Naquele momento, apenas cerca de 17.5 por cento das terras e das águas interiores tinham algum tipo de proteção.

Chegar a 30 por cento implica ampliar áreas de conservação em uma escala sem precedentes. Mas o acordo traz também uma condição central.

As novas iniciativas de conservação precisam respeitar os direitos de povos indígenas, fortalecer comunidades locais e permitir o uso sustentável quando for possível.

Isso leva a uma pergunta básica: quem vive nas áreas que podem ser protegidas em breve?

Pessoas já vivem nas áreas de conservação

O estudo indica que as futuras zonas de conservação estão longe de serem espaços vazios.

“Se você olhar para onde novos sítios de conservação podem ser localizados, essas não são paisagens vazias – muitas vezes há muita gente morando ali”, afirmou o professor Chris Sandbrook, diretor do Instituto de Pesquisa em Conservação da Universidade de Cambridge.

“Planejar mudanças no uso da terra para atingir metas nacionais e globais de conservação precisa considerar os impactos sobre as pessoas locais.”

Essa constatação abre caminho para a análise mais aprofundada apresentada no estudo.

Três caminhos para chegar aos 30 por cento

Para entender como o mundo poderia alcançar a meta de 30 por cento, os pesquisadores simularam três estratégias distintas.

A primeira dá prioridade à biodiversidade, escolhendo locais com alta riqueza de espécies e ecossistemas que demandam proteção urgente.

A segunda parte dos benefícios oferecidos às populações. Chamada de Contribuições da Natureza para as Pessoas, ela privilegia áreas que fornecem serviços como água limpa, polinização e regulação do clima.

A terceira se apoia em terras indígenas e tradicionais, aproveitando territórios que já são manejados por comunidades locais.

Todas as alternativas atingem o mesmo objetivo numérico. Ainda assim, cada uma produz efeitos humanos bem diferentes.

Bilhões de pessoas atingidas no mundo

A dimensão do impacto chama atenção.

No cenário focado em biodiversidade, cerca de 2.2 bilhões de pessoas passariam a viver dentro de novas áreas de conservação - quase 30 por cento da população global. Considerando também quem vive nas proximidades, o total sobe para 2.7 bilhões.

Na segunda abordagem, aproximadamente um bilhão de pessoas seriam afetadas de forma direta. Já o caminho centrado em territórios indígenas e tradicionais alcança menos pessoas no total, cerca de 517 milhões, mas recai sobre comunidades com forte dependência de recursos locais.

Como referência, hoje cerca de 396 milhões de pessoas vivem dentro de áreas protegidas. Qualquer rota para a meta 30×30 aumentaria esse número de maneira expressiva.

Níveis de desenvolvimento variam muito

O estudo também avaliou as condições económicas usando o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

Na estratégia orientada pela biodiversidade, entram milhões de pessoas em níveis mais baixos de desenvolvimento, mesmo que a proporção total pareça menor. No modelo das Contribuições da Natureza para as Pessoas, a distribuição é mais heterogénea.

O recorte de territórios indígenas e tradicionais se destaca: mais de 60 por cento das pessoas impactadas estão na categoria de menor desenvolvimento. Mais de 90 por cento ficam entre níveis baixos ou médios.

Na prática, isso indica que a expansão da conservação tende a atingir, com frequência, quem tem menos recursos para se adaptar.

Meios de vida sob risco

A forma como as pessoas sustentam suas famílias pesa tanto quanto o lugar onde vivem.

Em territórios indígenas e tradicionais, a dependência de recursos silvestres é predominante. Caça, pesca e coleta são fundamentais para a sobrevivência. Restringir o acesso sem opções viáveis pode gerar danos graves.

Nas áreas escolhidas por critérios de biodiversidade, a agricultura tem grande presença. Quase 61 por cento dessas terras se sobrepõem a atividades agrícolas. Impor limites ao cultivo pode abalar sistemas alimentares.

A abordagem de Contribuições da Natureza para as Pessoas fica entre os dois extremos, combinando a relevância da agricultura com a do uso de recursos naturais.

A pecuária extensiva também aparece nos três cenários, acrescentando mais uma camada de complexidade.

A conservação pode pesar mais sobre pessoas vulneráveis

Os efeitos não se distribuem de forma homogénea pelo planeta.

Na Ásia, por exemplo, o cenário de biodiversidade poderia resultar em mais de um bilhão de pessoas vivendo dentro de novas áreas de conservação. Outras regiões também registrariam aumentos marcantes.

Em diferentes continentes, as populações atingidas tendem a apresentar níveis de desenvolvimento inferiores às médias nacionais. Isso sugere que ampliar a conservação pode concentrar custos em grupos que já estão em situação de vulnerabilidade.

A governança define os resultados

O estudo é categórico em um ponto: a conservação em si não é o problema - o modo como ela é conduzida é o que determina se haverá benefícios ou prejuízos para as pessoas.

“Em muitos casos, no entanto, são as pessoas que vivem mais perto das áreas de conservação que tendem a vivenciar as desvantagens”, disse o Dr. Javier Fajardo, pesquisador do Instituto de Pesquisa em Conservação da Universidade de Cambridge e primeiro autor do relatório.

A história reúne diversos exemplos de conservação baseada em exclusão. Essas práticas expulsaram pessoas de suas terras ou limitaram o acesso. Entre os resultados, estiveram a perda de sustento e a ruptura cultural.

Uma governança inclusiva aponta outro caminho. Quando as comunidades participam das decisões, a conservação pode fortalecer simultaneamente a natureza e as populações locais.

Dados sociais precisam entrar cedo no planeamento

Grande parte do planeamento de conservação ainda privilegia dados ecológicos. Mapas evidenciam espécies, habitats e armazenamento de carbono. Informações sociais costumam aparecer apenas mais tarde - quando aparecem.

Os pesquisadores defendem que isso precisa mudar.

Compreender o uso da terra, as economias locais e os direitos das comunidades ajuda a orientar escolhas melhores. Também permite identificar onde a conservação é exequível e onde pode causar danos.

Ao mesmo tempo, lidar com esse tipo de informação exige cautela, sobretudo ao mapear terras indígenas.

O acompanhamento da conservação ignora pessoas

Os mecanismos atuais de monitorização do progresso da conservação se concentram principalmente em cobertura territorial e resultados ecológicos, e não em pessoas.

Apenas um pequeno conjunto de indicadores observa impactos sociais.

Com isso, surge uma lacuna: um país pode cumprir metas de conservação e, ainda assim, provocar danos relevantes às comunidades - e o sistema não registraria esse efeito.

Ampliar indicadores sociais ajudaria a fazer com que o progresso medido corresponda ao que de fato acontece no território.

O financiamento precisa acompanhar a ambição

Cumprir a meta 30×30 vai exigir investimento substancial.

Isso envolve não só gerir áreas protegidas, mas também apoiar as comunidades impactadas. Compensações, governança local e monitorização de longo prazo dependem de recursos.

“Se a meta global de conservação for atingida da forma correta, ela pode ser muito benéfica para as pessoas e também para a natureza”, afirmou Fajardo.

“É uma meta ambiciosa, e para chegar lá precisamos de um compromisso igualmente ambicioso de apoiar as pessoas locais que são centrais para alcançá-la.”

Os níveis atuais de financiamento não alcançam o patamar necessário.

Um objetivo partilhado para 2030

A meta 30×30 busca proteger a natureza em escala global. Ela pode contribuir para conservar a biodiversidade, armazenar carbono e sustentar ecossistemas.

Mas o estudo reforça um ponto simples: conservar não é apenas uma questão de terra. É também uma questão de pessoas.

O êxito desse esforço mundial depende de justiça, inclusão e respeito por quem vive mais próximo da natureza.

Proteger ecossistemas e apoiar comunidades não são metas separadas. Elas caminham juntas, e o caminho até 2030 exige mantê-las alinhadas.

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