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Oscilações sazonais do nível do mar estão aumentando e desafiam o planejamento costeiro

Homem com colete refletivo mede níveis de água perto de área urbana alagada à beira-mar.

O nível do mar não é fixo nem mesmo ao longo de um único ano. Em grande parte das costas, a água fica um pouco mais alta em alguns meses e recua em outros.

Esse compasso sazonal relativamente regular é moldado por mudanças de temperatura, padrões de vento e correntes oceânicas. Só que esse compasso está se transformando.

Um estudo recente indica que, em muitas regiões do planeta, a diferença entre os picos e os vales sazonais está aumentando - e quase nenhum plano de ocupação e proteção costeira leva isso em conta.

Variações sazonais com grandes impactos

O cientista do clima Tim Hermans, da Universidade de Utrecht, vem acompanhando o fortalecimento desse padrão.

Em parceria com colegas da Universidade de Antuérpia e de dois institutos marinhos neerlandeses, Hermans liderou uma análise que mostra: em diversos locais, a “oscilação” sazonal do oceano está ficando mais ampla.

O mecanismo é simples: em certos meses, o nível do mar sobe ao longo da costa; em outros, desce.

O que sempre foi conhecido na oceanografia não é a existência do ciclo, e sim a velocidade com que a sua amplitude está crescendo.

A maior parte das projeções de elevação do nível do mar trabalha com a média anual - aquela subida lenta e constante. O grupo quis entender o que ocorre quando, além dessa tendência de longo prazo, o balanço sazonal “por cima” dela também se intensifica.

“Essas variações sazonais acontecem em escalas de tempo muito mais curtas do que a elevação média do nível do mar, o que significa que elas podem ter impactos surpreendentemente grandes nos ecossistemas costeiros”, disse Hermans.

De horas a semanas

Para testar o efeito, os pesquisadores montaram um modelo matemático de inundação costeira.

Os resultados indicam que até aumentos modestos na amplitude sazonal são capazes de alterar com que frequência e por quanto tempo as zonas entremarés ficam submersas.

Essas faixas são as partes do litoral que molham na maré alta e secam na maré baixa. Um trecho de planície lamosa que hoje fica coberto por água por algumas horas poderia passar dias submerso com uma oscilação sazonal mais ampla. E esses dias podem virar semanas.

Um artigo separado, sobre o aquecimento da água do mar, ajuda a explicar o porquê: para cada 2 °C de aquecimento na camada superior do oceano, as oscilações sazonais do nível do mar aumentam de 4 a 10% no mundo todo. A expansão térmica não cresce de forma linear.

No papel, isso pode parecer um acréscimo pequeno. Mas, quando se espalha por meses e incide sobre habitats costeiros ajustados a uma oscilação menor, os efeitos se multiplicam rapidamente.

Onde a amplitude de maré é pequena

O impacto não é igual em todos os lugares. De acordo com o modelo, as áreas mais vulneráveis são litorais em que a amplitude de maré - a diferença vertical entre maré alta e maré baixa - já é naturalmente reduzida.

No Mar Mediterrâneo, por exemplo, as marés sobem e descem apenas alguns centímetros por dia. Assim, a oscilação sazonal do nível do mar já representa uma parcela relevante da variação diária.

Quando esse ciclo se amplia ainda mais, basta pouco para manter um brejo baixo submerso por semanas - ou, no extremo oposto, deixá-lo completamente seco pelo mesmo período.

Na fronteira entre o molhado e o seco

Para os organismos que vivem no limite entre molhar e secar, o momento em que a inundação ocorre pode ser tão importante quanto a altura da água.

Mexilhões, cracas, capins-marinhos e marismas dependem de um ritmo específico de alternância entre encharcar e expor ao ar.

Um estudo recente sobre marismas da Costa Leste constatou que algumas conseguem acompanhar a subida da água elevando o terreno mais rapidamente, enquanto outras não conseguem manter o mesmo ritmo.

É um equilíbrio delicado - e ele tende a não tolerar bem um ciclo sazonal mais amplo.

“Os ecossistemas de maré operam dentro de limites muito estreitos de molhado–seco”, disse Gregory Fivash, ecólogo costeiro da Universidade de Antuérpia.

Ao ultrapassar esses limites, acrescentou ele, os efeitos se espalham pela produtividade, pela biodiversidade e pela resiliência do sistema.

Animais enfrentam novos estressores

Quando as fases úmida e seca se estendem, as espécies passam a lidar com pressões para as quais não estão adaptadas.

Se a água permanece alta por tempo demais, os sedimentos do fundo podem ficar pobres em oxigénio. Isso ameaça vermes, amêijoas e os microrganismos responsáveis por reciclar nutrientes.

A exposição prolongada ao ar empurra na direção contrária. Plantas e animais com concha podem “assar” e desidratar.

Uma revisão de 2020 sobre a dinâmica das marismas mostrou como esses habitats se sustentam por meio do acúmulo de sedimentos e do crescimento de raízes - um balanço que não foi “desenhado” para grandes mudanças de timing.

Oscilações sazonais, impactos grandes

Ainda é comum que o planejamento costeiro trate a elevação do nível do mar como uma média que muda devagar.

Planos de adaptação e orçamentos de proteção costumam ser calculados a partir do nível esperado para 2050 ou 2100. Em geral, não consideram o que o mar faz nos meses intermediários.

Segundo os autores, isso precisa mudar.

Eles observaram que, mesmo antes de a tendência de longo prazo produzir seus efeitos completos, a oscilação sazonal por si só já pode reorganizar quais habitats resistem, quais migram para o interior e quais entram em colapso.

Implicações mais amplas do estudo

Até este trabalho, nenhum modelo havia detalhado o que, na prática, um ciclo sazonal em expansão provoca em espécies e habitats costeiros.

Os dados já registravam oscilações maiores. O que faltava era explicitar as consequências para a vida na costa - e agora elas aparecem de forma clara.

Se uma planície lamosa ou um campo de marisma continuará a funcionar ao longo do século depende não apenas do nível médio do mar, mas também de quanto ele sobe e desce dentro de cada ano.

Para ecólogos costeiros e gestores, isso abre um conjunto diferente de perguntas: que áreas priorizar, que espécies acompanhar de perto e onde esperar perdas inesperadas.

A subida lenta segue sendo importante. O ciclo que se sobrepõe a ela acaba de entrar na lista de fatores decisivos.

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