Se você passar a menos de 1 metro de um pombo numa cidade, é bem possível que ele nem se dê ao trabalho de sair do lugar. Já ao tentar fazer o mesmo perto de uma ave selvagem na floresta, você terá sorte se conseguir chegar a 10 metros.
Há anos, cientistas vêm percebendo essa diferença em populações urbanas e rurais de certas espécies.
O que ainda não tinha sido verificado era se esse contraste aparecia também em escala mundial - atravessando continentes, espécies e até classes diferentes de animais.
Uma nova análise baseada em 80 estudos resolveu testar isso, e a resposta foi mais uniforme do que os pesquisadores imaginavam.
O panorama global
Um grupo liderado pela Dra. Tracy Burkhard, professora assistente de biologia na Faculdade Lewis & Clark, em Portland, no Oregon, reuniu resultados de 80 pesquisas de campo independentes com animais de ambientes urbanos e rurais.
No conjunto, a análise abrangeu 133 espécies em 28 países - todos os principais grupos de vertebrados e ainda uma parcela de insetos.
Até então, nenhuma revisão havia investigado, nessa escala, se aves mais ousadas nas cidades eram apenas uma particularidade de certos locais.
No fim das contas, a velha distinção entre o “rato da cidade” e o “rato do campo” parece mesmo ser um fenômeno global.
A ousadia puxa a fila
Em média, as populações urbanas se mostraram mais ousadas do que as rurais em todas as regiões avaliadas pelos autores.
Além disso, os animais das cidades apareceram como mais agressivos, mais exploratórios e também mais ativos. Entre os traços associados ao meio urbano, a ousadia foi o que se destacou com mais força.
Em aves, a forma mais comum de medir ousadia é simples: o pesquisador caminha na direção do animal e registra a que distância ele finalmente voa.
Nas cidades, muitas aves deixam as pessoas se aproximarem - às vezes, perto de um jeito impressionante. Essa medida, sozinha, respondeu pela maior parte do conjunto de dados.
O que a equipe observou foi um padrão global consistente: a urbanização altera o comportamento de maneira semelhante em lugares muito diferentes.
“"O resultado mais forte foi que os animais parecem ser mais propensos ao risco. Eles são mais ousados"”, disse Burkhard.
Um padrão impressionantemente consistente
O mesmo desenho apareceu nos outros três traços que o grupo analisou.
Comparados aos equivalentes rurais, animais urbanos defenderam território com mais agressividade, exploraram objetos novos com maior prontidão e se deslocaram pelo espaço de forma mais ativa.
Os achados se alinham a trabalhos anteriores feitos em cidades europeias.
Um estudo de longa duração com chapins-reais - um passeriforme comum na Europa - mostrou que indivíduos urbanos bicavam com mais força os manipuladores e gritavam mais sob estresse.
Os pesquisadores descrevem esse estilo de enfrentamento como proativo, em vez de temeroso.
E o padrão não ficou restrito às aves: ele também apareceu em mamíferos, répteis, anfíbios e, no que os dados permitiram, nos insetos - sempre que foi possível comparar populações.
Aves rurais na cidade
Mais de 70% dos dados vieram de aves. Já insetos, anfíbios e répteis, somados, representaram apenas cerca de um décimo do conjunto.
A Dra. Anne Charmantier, coautora da meta-análise, apontou esse desequilíbrio como uma limitação importante, e não como um detalhe.
Segundo ela, a maioria das espécies ainda é pouco estudada em ambientes urbanos; por isso, a mensagem global fica mais nítida em aves - e mais fraca em praticamente todo o restante.
Um dos pontos mais chamativos do artigo envolveu espécies que não costumam ser lembradas como “fauna urbana”.
Ratos, gaivotas e pombos são os frequentadores conhecidos. Mas a tendência à ousadia agora também está aparecendo em espécies historicamente associadas a áreas agrícolas e sebes.
Pequenas aves do interior, como a toutinegra e a escrevedeira-amarela, tradicionalmente rurais, vêm se instalando cada vez mais nas cidades - e seus indivíduos urbanos se mostram mais ousados.
No geral, as espécies generalistas apresentaram as respostas comportamentais mais fortes.
Implicações do estudo
No conjunto de dados, os animais urbanos não foram mais variáveis entre si do que os rurais, nem menos consistentes quando submetidos a testes repetidos.
Antes deste trabalho, ninguém havia examinado esses dois padrões em tantas espécies.
As síndromes comportamentais que conectam traços - como a tendência de um indivíduo agressivo também ser ousado - permaneceram em grande parte preservadas.
Em outras palavras, o perfil urbano de ousadia e exploração não parece ser resultado de poucos “aventureiros” elevando a média. A inclinação é de populações inteiras.
Na prática, essa conclusão tem dois lados. Animais urbanos mais ousados toleram melhor a presença humana; como consequência, as pessoas acabam ficando mais próximas deles - e de quaisquer microrganismos que possam estar carregando.
Os autores alertam que a fauna habituada ao contato com humanos aumenta a probabilidade de mordidas, colisões com veículos e transbordamento de doenças zoonóticas.
Esse risco foi discutido em detalhes em literatura recente de revisão sobre patógenos emergentes na fronteira entre áreas silvestres e urbanas.
Influência urbana no comportamento animal
Os autores defendem que planejadores urbanos terão de começar a tratar o comportamento animal como parte do desafio de projeto.
Áreas verdes conectadas - incluindo parques, faixas plantadas e corredores de vida silvestre - facilitam que populações urbanas se misturem às rurais.
Esse deslocamento sustenta o fluxo gênico, a troca genética que evita que populações urbanas isoladas se distanciem ainda mais das suas contrapartes rurais.
O que este artigo acrescenta é uma confirmação global de que as cidades parecem empurrar o comportamento selvagem na mesma direção em quase toda parte.
Ainda está em aberto como essa pressão opera - se por seleção natural, por aprendizagem individual ou simplesmente por quais animais conseguem sobreviver à vida urbana.
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