Pular para o conteúdo

O bacurau-de-cauda-de-tesoura revela o estalo secreto com ossos das asas

Pássaro em voo baixo sobre areia com dois tripés e câmeras desfocados ao fundo à noite.

A maioria das aves recebe a manhã com canto. O bacurau-de-cauda-de-tesoura faz algo muito mais estranho.

Nas matas do norte da Argentina, pouco antes do nascer do sol, machos de bacurau pousam em estradas de terra e soltam, no escuro, um estalo seco e agudo.

O som lembra um graveto ressecado partindo ao meio. Durante décadas, cientistas ouviam esse ruído, mas não conseguiam explicar de que forma a ave o produzia.

Agora, ao investigar o bacurau-de-cauda-de-tesoura, Hydropsalis torquata, pesquisadores revelaram o truque: durante exibições de corte, o animal gera o estalo batendo ossos das asas um contra o outro.

O resultado expõe um dos “instrumentos musicais” mais incomuns de todo o reino animal.

Bacuraus e o salto-estalo

Os bacuraus fazem parte de um pequeno conjunto de aves que emitem sons mecânicos conhecidos como sonações. Diferentemente de cantos ou chamados, esses ruídos não são produzidos na garganta.

Em vez disso, surgem a partir de partes do corpo como penas, cauda ou asas. Há quase um século, a ciência sabe que bacuraus emitem estalos ou palmas durante certas exibições.

Ainda assim, ninguém via com clareza o que acontecia, porque essas aves são noturnas e se movem rápido demais para o olho humano acompanhar.

“Essas aves estão abrindo um canto escondido da biodiversidade”, disse Christopher Clark, biólogo da Universidade da Califórnia em Riverside (UC Riverside), que co-liderou o estudo.

“As pessoas tendem a focar no canto das aves, mas há muitas espécies produzindo sons importantes de forma mecânica, e não vocal.”

Câmaras finalmente capturam o segredo

Para decifrar o enigma, o pesquisador Juan Ignacio Areta, do CONICET (Argentina), e Christopher Clark levaram câmaras infravermelhas de alta velocidade às florestas de encosta da região de Yungas, perto da província de Salta.

A equipa trabalhou em noites de primavera com lua, em 2022, gravando as exibições pouco antes do amanhecer. A iluminação infravermelha permitiu filmar sem perturbar as aves, já que elas não conseguem detectar luz infravermelha.

O sistema registou imagens em até 1.000 quadros por segundo, enquanto microfones captavam cada som em sincronização perfeita.

“É preciso abordar as aves nos termos delas”, afirmou Clark. “Usámos luz infravermelha que elas não conseguiam ver, para observar sem afetar o comportamento.”

Exibições de corte no escuro

O famoso som “tk” apareceu em três situações. A primeira foi o salto-estalo. Um macho parado no chão saltava de repente e produzia um estalo alto no ponto mais alto do salto.

A segunda situação foi o estalo em voo. Ao planar, os machos faziam estalos repetidos em rajadas rápidas.

A terceira foi o estalo de cópula, que ocorria durante o acasalamento e soava como um chocalhar veloz.

Apesar de as performances variarem em velocidade e intensidade, todas recorriam ao mesmo movimento corporal.

Ossos das asas geram estalos agudos

Ao desacelerar os vídeos, o processo ficou evidente.

A ave abria as asas, impulsionava-se para cima e girava abruptamente ambas as asas por cima das costas. No auge do salto, os “punhos” colidiam no ar. Era desse choque que o som saía.

Dentro da asa de uma ave existem ossos comparáveis aos de um braço humano. No bacurau-de-cauda-de-tesoura, os dois ossos rádio batem um no outro e vibram por instantes, criando a nota seca e cortante.

Com isso, os bacuraus passam a integrar, ao lado dos tangarás (manakins), um grupo de aves tropicais já conhecido por produzir estalos fortes com colisões ósseas nas asas.

A semelhança indica que grupos diferentes de aves podem ter chegado de forma independente à mesma solução acústica.

Cientistas provam que teorias antigas estavam erradas

As gravações também descartaram anos de especulação. As pontas das asas não se tocavam. As penas não batiam umas nas outras. E o ar não era expulso entre asas “em concha”, como mãos humanas a aplaudir.

Em vez disso, o ruído vinha de um pequeno ponto ósseo de contacto acima da coluna da ave.

Isso é importante porque hipóteses anteriores sugeriam de tudo: desde penas a estalar no ar até asas a bater no chão.

Um som ainda intriga os cientistas

O trabalho esclareceu um mistério, mas trouxe outro à tona.

Os machos também emitem um som mais grave, como uma pancada surda, durante decolagens, perseguições e algumas exibições aéreas. Ao contrário do “tk” agudo, esse som baixo não envolve choque entre asas.

Os pesquisadores suspeitam que ele possa resultar de penas a dobrar sob pressão aerodinâmica, mas o mecanismo exato continua desconhecido.

“Ainda temos algumas perguntas, mas estamos mais perto de entender a linguagem secreta dessas aves”, disse Clark.

Bacuraus formam exibições complexas

A exibição mais impressionante ocorre durante perseguições no ar.

Quando os machos correm atrás de rivais ou de fêmeas, eles sobrepõem vários sons ao mesmo tempo. A apresentação inclui estalos, pancadas graves, um sibilar das asas e uma aspereza vocal.

Os pesquisadores suspeitam que, nessas caçadas aéreas, os bacuraus usem um segundo mecanismo de estalo, possivelmente envolvendo penas dentro de uma única asa, e não ossos de asas opostas.

Isso significa que uma única espécie pode ter desenvolvido dois sistemas separados para produzir sons percussivos.

A equipa também registou um comportamento enigmático chamado “fluffle”.

Durante um fluffle, a ave sacode rapidamente asas, cauda e corpo, produzindo um ruído suave de farfalhar, parecido com o ato de se arrumar (preening). Os cientistas acreditam que o comportamento pode ter evoluído desse cuidado com as penas para se tornar um sinal social.

Ossos de bacuraus e os salto-estalos

Espécimes de museu trouxeram outra surpresa. Os ossos das asas de machos de bacurau-de-cauda-de-tesoura parecem, em grande parte, comuns.

Ao contrário dos tangarás, que exibem ossos visivelmente reforçados para estalar, os bacuraus não mostram mudanças estruturais óbvias.

“Os humanos também não são especialmente adaptados para bater palmas, e mesmo assim conseguimos fazer um som alto”, disse Clark. “Essas aves talvez não precisem de grandes mudanças estruturais para fazer isso.”

O estudo reforça o quanto ainda passa despercebido na comunicação animal.

Aves costumam ser associadas ao canto, mas muitas espécies geram som de maneira mecânica. Narcejas zumbem com as penas da cauda. Beija-flores assobiam em voo. Tangarás estalam as asas em florestas tropicais.

Hoje, câmaras infravermelhas modernas e sistemas de gravação em alta velocidade estão a permitir que cientistas resolvam enigmas que antes pareciam impossíveis de estudar.

“Eu adoraria um dia ter uma lista completa de todas as formas estranhas com que as aves fazem sons”, disse Clark. “Há muito mais a acontecer na natureza do que apenas aves a cantar.”

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário