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Estudo da Universidade de Tübingen revela Jojosi e hornfels há 220.000 anos

Jovens indígenas na pedra com pedras e ferramentas, rio e montanhas ao fundo em cenário natural.

Muito antes de existirem cidades, máquinas ou mesmo a linguagem escrita, os seres humanos já tomavam decisões estratégicas para continuar vivos.

Um estudo recente da Universidade de Tübingen indica que, há cerca de 220.000 anos, as pessoas não coletavam pedras de forma aleatória.

Em vez disso, organizavam deslocamentos até locais específicos para obter a melhor matéria-prima para ferramentas. A constatação oferece uma perspectiva nova e instigante sobre o grau de inteligência dos humanos do passado remoto.

Humanos antigos escolhiam rochas para ferramentas

Em um local chamado Jojosi, na África do Sul, cientistas encontraram evidências sólidas de que grupos humanos procuravam de propósito uma rocha específica: o hornfels. Resistente e relativamente fácil de talhar, esse material era especialmente adequado para a produção de instrumentos.

“Em Jojosi, encontramos inúmeros vestígios da extração de hornfels - um xisto metamórfico - incluindo blocos testados quanto à sua qualidade, lascas de vários tamanhos, milhares de fragmentos de resíduos de produção com tamanho de milímetros e percutores”, disse o Dr. Manuel Will, autor principal do estudo.

Os dados deixam claro que a escolha das pedras não ocorria por acaso. As pessoas retornavam repetidas vezes ao mesmo ponto para buscar rochas específicas - um tipo de comportamento focado que, por muito tempo, foi considerado raro para esse período da história humana.

Um local usado apenas para a preparação de ferramentas

O sítio de Jojosi é muito diferente de áreas associadas à moradia. Os pesquisadores quase não encontraram ferramentas prontas, restos de alimento nem indícios de abrigo. O que domina o registro são resíduos gerados ao quebrar e modelar as pedras.

Isso sugere uma conclusão importante: o lugar era visitado com o objetivo exclusivo de preparar matéria-prima. Depois de transformar o hornfels em formas aproveitáveis, os grupos levavam essas peças para outros pontos onde seriam usadas.

O Dr. Will destacou que as pessoas trabalhavam a pedra até alcançar o formato pretendido. Esse padrão revela planejamento evidente: elas sabiam o que precisavam e como se preparar para etapas futuras.

Visitas repetidas ao longo de milhares de anos

Um dos resultados mais surpreendentes é a duração dessa prática. As datações científicas mostram que o sítio foi utilizado desde cerca de 220.000 anos atrás até por volta de 110.000 anos atrás - mais de 100.000 anos de visitas recorrentes.

O artigo científico descreve que os humanos fizeram “visitas específicas e repetidas a uma fonte de matéria-prima ao longo de dezenas de milhares de anos com o propósito exclusivo de obter hornfels”.

Isso implica transmissão de conhecimento entre gerações. Cada grupo sabia para onde ir e o que fazer, o que funciona como uma forte evidência de pensamento de longo prazo e aprendizado compartilhado.

Entendendo a paisagem de Jojosi

Jojosi fica em campos abertos, a aproximadamente 140 quilômetros do oceano Índico. Com o passar do tempo, processos naturais expuseram camadas de hornfels, facilitando sua identificação e coleta.

A região tinha água, plantas e animais, mas, ainda assim, não foi usada como área de assentamento. Em vez disso, o local se consolidou como uma oficina especializada na preparação de pedra.

A própria paisagem revela uso intenso, com milhões de fragmentos espalhados pelo terreno.

“Já nas nossas primeiras visitas, tanto a pé quanto usando drones, descobrimos cerca de uma dúzia de locais onde lascas de hornfels perfeitamente preservadas e sem intemperismo eram visíveis em sedimentos erodidos - uma raridade absoluta para um sítio a céu aberto”, disse o Dr. Will.

Como os humanos fabricavam ferramentas

Para reconstruir o que ocorreu em Jojosi, os pesquisadores trabalharam com grande cuidado. Eles identificaram enormes quantidades de fragmentos de pedra concentrados em camadas de solo. Em alguns trechos, havia até 2 milhões de peças em apenas um metro cúbico.

A maioria desses achados corresponde a fragmentos minúsculos gerados durante a fabricação de ferramentas. Os cientistas também remontaram partes quebradas como se fosse um quebra-cabeça. Esses “reencaixes” permitiram compreender, em detalhe, como a pedra era talhada etapa por etapa.

“Com esses quebra-cabeças em 3D, conseguimos ver com precisão onde e como o material foi lascado e em que ordem”, explicou o coautor do estudo Gunther Möller.

O nível de detalhamento obtido aponta que havia um procedimento bem definido no momento de modelar as peças.

Selecionando a pedra certa para ferramentas

Um detalhe torna o achado ainda mais convincente. Havia outros tipos de rocha disponíveis nas proximidades, como quartzo e dolerito. Mesmo assim, as pessoas optavam apenas pelo hornfels.

As evidências indicam que o hornfels oferecia qualidade superior para a produção de ferramentas, com características que possibilitavam criar implementos grandes e muito cortantes.

O fato de ser escolhido de forma consistente demonstra compreensão do desempenho do material e tomada de decisão intencional.

Humanos antigos planejavam com antecedência

Durante muitos anos, pesquisadores defenderam que os humanos antigos obtinham matérias-primas enquanto realizavam outras atividades, como a caça. Essa prática é conhecida como “aquisição incorporada”. Porém, Jojosi aponta para outro cenário.

O estudo indica que as pessoas faziam viagens deliberadas exclusivamente para coletar pedra. Esse padrão direcionado, chamado de aquisição especializada, sugere um planejamento mais avançado do que se supunha.

“Os achados de Jojosi revelam uma visão rara e clara das raízes iniciais da capacidade humana de planejar. Eles mostram que a capacidade de selecionar recursos deliberadamente e organizar atividades se estende por gerações”, disse a coautora do estudo, Dra. Karla Pollmann.

As origens do comportamento humano

A descoberta em Jojosi altera a forma como interpretamos os humanos desse período. Não se tratava apenas de sobreviver dia após dia: havia antecipação, compartilhamento de conhecimento e escolhas eficientes.

O trabalho recua no tempo o marco atribuído à inteligência humana, indicando que planejamento, flexibilidade e resolução de problemas surgiram muito antes do que os cientistas acreditavam.

Com isso, as origens do comportamento humano moderno são empurradas para um passado profundo. Muito antes de tecnologia e cidades, já existia reflexão cuidadosa sobre o que viria depois.

Jojosi é mais do que um sítio antigo: é uma prova de que, há cerca de 200.000 anos, humanos compreendiam o ambiente ao seu redor e usavam esse entendimento para transformá-lo.

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