O parque eólico offshore que está surgindo entre Dieppe e Le Tréport acaba de vencer um dos pontos mais sensíveis do cronograma: a entrega de dois enormes cabos de alta tensão instalados no leito marinho, um passo que aproxima um grande canteiro de engenharia de uma futura usina capaz de abastecer centenas de milhares de pessoas.
O “monstro” offshore que ganha forma no Canal da Mancha
Localizado no Canal da Mancha, ao largo das costas da Normandia e de Hauts-de-France, o parque eólico offshore Dieppe–Le Tréport ocupa uma área em que convivem embarcações de pesca e rotas de navegação intensa.
Quando entrar plenamente em operação, a previsão é que gere energia equivalente ao consumo de cerca de 850,000 pessoas - algo próximo à população de uma grande cidade europeia.
Após anos de estudos ambientais, debates públicos e obstáculos jurídicos, o empreendimento passou a viver sua fase completa de obras em janeiro de 2024.
Até o fim de 2026, o plano é ter 62 aerogeradores instalados no fundo do mar, distribuídos por uma faixa ampla do Canal.
Cada turbina é fixada em uma fundação rígida cravada no solo marinho e, em seguida, recebe uma camada de proteção de rochas, uma “armadura” destinada a evitar que as correntes removam sedimentos ao redor das estacas.
"Em vez de uma chaminé de carvão no horizonte, a região verá uma floresta de torres, transformando rajadas do Mar do Norte em energia pronta para a rede."
No centro do conjunto está uma subestação elétrica offshore, cuja instalação ocorreu em julho de 2025.
Ela funciona como cérebro e ponto de convergência do sistema: reúne a eletricidade produzida por todas as turbinas, eleva a tensão e a envia de volta ao continente por meio dos cabos de exportação.
Com capacidade total planejada de 496 megawatts, Dieppe–Le Tréport se posiciona no mesmo patamar de outros parques eólicos offshore franceses de primeira geração, como Saint-Nazaire e Saint-Brieuc.
Duas “autoestradas elétricas” de 225 kV no fundo do mar
O marco mais recente envolve a infraestrutura que não aparece a olho nu: os cabos de exportação.
A especialista francesa em cabos Nexans formalizou a entrega à operadora da rede RTE de dois circuitos HVAC de 225 kilovolts, responsáveis por ligar a subestação offshore às instalações em terra.
Na prática, trata-se de duas “autoestradas elétricas” paralelas projetadas para aguentar, por décadas, água salgada, correntes, variações de temperatura e esforços mecânicos impostos pelo fundo do mar.
Da prancheta ao lançamento no leito marinho, o sistema exigiu quatro anos de projeto, fabricação e instalação - incluindo operações com navios especializados em assentamento de cabos.
"Esses cabos funcionam como uma extensão superdimensionada entre o vento no mar e a tomada na parede em casa."
Ao chegar ao continente, a energia passa a ser transferida para a rede nacional de transmissão, o que permite que a eletricidade gerada ao largo da Normandia circule pela França conforme a demanda.
Nexans, a gigante discreta por trás dos fluxos de energia a longas distâncias
Apesar de não ser um nome conhecido do grande público, a Nexans está por trás de uma parcela relevante das ligações de eletricidade a longas distâncias na Europa e em outros mercados.
As origens do grupo remontam ao fim do século XIX, passando pela histórica Câbles de Lyon e, mais tarde, pela Alcatel Câble.
Depois de adotar a marca Nexans no começo dos anos 2000, a companhia estreitou seu foco em uma especialidade: transportar elétrons com segurança e confiabilidade por longas distâncias, seja sob o mar, seja no subsolo.
Com cerca de 28,500 funcionários e receita acima de €7 bilhões em 2024, a empresa se consolidou como fornecedora estratégica de cabos submarinos de alta tensão, interconexões e projetos eólicos offshore.
Em Dieppe–Le Tréport, o trabalho foi além de entregar um produto: a Nexans forneceu um sistema completo de cabos de exportação, concebido para operar por várias décadas.
Do canteiro à vida útil de longo prazo
A entrega formal dos dois circuitos de exportação à RTE sinaliza uma mudança de etapa no empreendimento.
A partir daqui, o projeto começa a migrar de uma fase de construção intensiva para um período de operação prolongada, com ênfase em confiabilidade e manutenção.
A Nexans seguirá envolvida por meio de uma organização de IMR (inspeção, manutenção e reparo).
Esse time acompanha a integridade dos cabos, usa inspeções e dados para antecipar possíveis problemas e fica preparado para atuar caso haja falha - por exemplo, após o arrasto de uma âncora ou um incidente com embarcação de pesca de arrasto.
Contratos de longo prazo desse tipo são críticos porque uma avaria em cabos pode desconectar centenas de megawatts em um único evento e exigir campanhas complexas de reparo no mar.
A linha de frente offshore da França está ficando mais cheia
A França reúne o segundo maior potencial de eólica offshore da Europa, atrás apenas do Reino Unido, graças a um litoral extenso e a ventos marítimos fortes e consistentes.
Em geral, turbinas instaladas no mar operam com “fatores de capacidade” superiores aos dos parques em terra, frequentemente perto de 45%, já que o vento no mar tende a ser mais constante e menos turbulento.
Isso torna a tecnologia especialmente atraente para um país que busca neutralidade de carbono até 2050, com demanda elétrica estimada em cerca de 645 terawatt-hours por ano.
"Até meados do século, a eólica offshore pode responder por aproximadamente um quarto da eletricidade da França, ao lado da energia nuclear e de outras renováveis."
O roteiro do governo aponta para cerca de 45 gigawatts de eólica offshore instalados até 2050, frente a apenas alguns gigawatts atualmente.
Entre os locais franceses já em operação e os previstos estão:
- Saint-Nazaire (Atlântico): já em serviço, cerca de 480 MW
- Fécamp e Courseulles-sur-Mer (Canal da Mancha): projetos de fundação fixa com entrada esperada em meados da década
- Saint-Brieuc (Bretanha): outro parque de fundação fixa na faixa de 500 MW
- Dieppe–Le Tréport e Yeu–Noirmoutier: ambos mirando comissionamento em 2026
- Zonas maiores no Canal da Mancha, no Atlântico e no Mediterrâneo: combinando fundação fixa e eólica flutuante a partir de 2035
Mais ao sul e em águas profundas, sobretudo no Mediterrâneo, o país vem adotando turbinas eólicas flutuantes, ancoradas por linhas de amarração, em vez de estruturas apoiadas diretamente no fundo do mar.
Como Dieppe–Le Tréport se encaixa no mapa nacional
O empreendimento Dieppe–Le Tréport integra essa primeira geração de parques de fundação fixa.
Seus 496 MW reforçarão o conjunto de projetos costeiros do país e devem atender a um volume de consumo anual equivalente ao de cerca de 850,000 residentes.
O investimento estimado é de aproximadamente €2.7 bilhões, incluindo turbinas, fundações, cabos, subestações em terra e uma nova base de operações no porto de Dieppe.
Essa base local abrigará técnicos, peças de reposição, pequenas embarcações e equipes de controle que coordenam as rotinas diárias e as “janelas” de clima favorável para visitas de manutenção.
O que esses números grandes significam no dia a dia
A produção de eólica offshore pode parecer abstrata - por isso, vale converter em referências mais cotidianas.
Um parque de 496 MW operando com fator de capacidade de 45% geraria cerca de 2 terawatt-hours por ano.
Isso é suficiente para cobrir, como anunciado, o equivalente ao consumo de eletricidade de 850,000 pessoas, sem considerar grandes demandas industriais.
Na prática, a energia pode abastecer residências, prédios públicos, estabelecimentos comerciais e uma parcela crescente de veículos elétricos e bombas de calor.
Em períodos de inverno com ventos fortes, a geração pode reduzir a necessidade de usinas a gás, diminuindo tanto importações quanto emissões.
Termos-chave que vale destrinchar
Algumas expressões técnicas comuns na eólica offshore podem confundir:
- HVAC 225 kV: corrente alternada de alta tensão a 225,000 volts. Tensões mais altas reduzem perdas em longas distâncias.
- Cabo submarino de exportação: ligação entre a subestação offshore e a rede em terra, diferente dos cabos menores de “arranjo” que conectam as turbinas entre si.
- Fundação fixa vs flutuante: turbinas de fundação fixa usam estacas ou bases por gravidade; as flutuantes operam em plataformas ancoradas em águas mais profundas.
- Fator de capacidade: relação entre a energia efetivamente gerada ao longo do ano e o máximo teórico caso as turbinas operassem em potência total 24/7.
Riscos, benefícios e o que vem pela frente
Parques eólicos offshore oferecem ganhos climáticos claros: as emissões no ciclo de vida costumam ficar entre 13 e 19 gramas de CO₂ equivalente por kilowatt-hour, muito abaixo das usinas fósseis.
Além disso, a cadeia produtiva sustenta milhares de empregos, abrangendo fabricação de turbinas, portos, embarcações, fábricas de cabos e a operação e manutenção ao longo dos anos.
Ao mesmo tempo, os projetos precisam lidar com impactos sobre a vida marinha, as atividades pesqueiras e a paisagem costeira.
Na França, as autoridades organizaram debates públicos em grande escala - como o processo “la mer en débat” - para mapear áreas prioritárias e definir condições de desenvolvimento entre 2035 e 2040.
Para moradores do litoral da Normandia, a chegada desse “monstro” offshore diante de Dieppe e Le Tréport mistura dúvidas e oportunidades: de um lado, nova atividade industrial nos portos; de outro, um horizonte que muda.
À medida que as últimas turbinas forem erguidas e as conexões finais concluídas, os dois cabos agora assentados no fundo do mar serão decisivos para que essa aposta ambiciosa em eólica offshore entregue, de forma discreta, o que promete: eletricidade confiável e de baixo carbono chegando às tomadas do dia a dia em toda a França.
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