Pular para o conteúdo

Mais de 100 000 medidores Linky adulterados em três anos: Enedis vai reforçar os controles

Homem consertando dispositivo amarelo na parede com mapa digital holográfico à frente em sala de estar.

Mais de 100 000 medidores Linky foram adulterados em apenas três anos. Diante desse avanço, a Enedis diz que chegou ao limite e decidiu endurecer a fiscalização.

A distribuidora, responsável pela rede de distribuição de eletricidade, partiu para uma ofensiva com operações de controle simultâneas em todo o território. O recado é direto: acabou a tolerância, e a resposta aos fraudadores será pesada. Segundo um levantamento de 2025, mais de 100 000 medidores comunicantes foram manipulados, conforme Bertrand Boutteau, responsável pela área antifraude na Enedis. Para dimensionar o impacto, Laurence Magliano, porta-voz da empresa, afirma: “É o equivalente ao consumo de eletricidade do departamento de Charente que vai pelo ralo todos os anos”.

A crise energética de 2022 e a popularização da fraude no Linky

A escalada desse tipo de fraude começou a ganhar força durante a crise energética de 2022. Com a disparada das tarifas, muita gente passou a não conseguir mais fechar as contas e a conta de luz virou um problema para um número crescente de consumidores.

Ao mesmo tempo, as redes sociais passaram a funcionar como vitrine para conteúdos que ensinam a burlar os medidores Linky. TikTok, YouTube e fóruns ajudaram a espalhar “métodos” numa velocidade impressionante, tornando o assunto cada vez mais acessível para quem procura atalhos.

Como funciona a adulteração dos medidores Linky

Mesmo não sendo uma instalação simples, o esquema costuma entregar resultado. Os fraudadores conectam um sistema de derivação para desviar parte do consumo de eletricidade, o que faz com que uma parcela significativa deixe de ser contabilizada.

Na prática, a Enedis estima que cerca de dois terços do consumo real pode desaparecer dos registros. Em um caso citado pela empresa, um restaurante fiscalizado em Rueil-Malmaison reduziu a leitura diária de 85 para 25 kilowatt-hora ao dia apenas ao inverter um cabo.

Como a Enedis pega os fraudadores do Linky

O que deveria facilitar a vida do usuário também ajuda a empresa a identificar irregularidades. Em medidores conectados, qualquer intervenção no equipamento tende a gerar um alerta nos sistemas da Enedis. A partir daí, as equipes técnicas acompanham a evolução do consumo.

Quando aparece uma queda atípica, sem justificativa plausível, os sinais se acumulam e os alertas se confirmem. A empresa afirma que seus técnicos se especializaram em encontrar esse tipo de artimanha por meio de análise de curvas de consumo, busca de incoerências e cruzamento de dados. Nas palavras de Bertrand Boutteau: “A gente não tem um perfil típico de fraudador nem áreas mais atingidas, qualquer um pode entrar nisso”.

Nesse mercado paralelo, há “especialistas” que oferecem o serviço de adulteração. Também circulam, à venda, lacres falsos que reproduzem com alta fidelidade os lacres usados pela Enedis. Mesmo com solicitações repetidas do gestor da rede, as plataformas têm dificuldade para moderar e remover esse tipo de conteúdo.

De forma paradoxal, a tecnologia Linky, criada para modernizar a rede elétrica francesa, pode se mostrar mais vulnerável do que os antigos medidores eletromecânicos. Quem frauda explora brechas do sistema conectado para aumentar a economia. Alguns, segundo a Enedis, chegam a programar ciclos de consumo para tentar escapar da detecção.

Punições que podem arruinar uma vida

A Enedis afirma operar agora sob uma política de “tolerância zero”. Toda fraude identificada passa a integrar uma denúncia coletiva encaminhada ao Ministério Público.

O pacote de penalidades previsto em lei é pesado. Os fraudadores podem pegar até 75 000 euros de multa e 5 anos de prisão, além de ter de devolver integralmente os valores desviados, calculados sobre vários anos. Na prática, um pequeno negócio que reduz a conta em algumas centenas de euros por mês pode acabar enfrentando uma cobrança de regularização de cinco dígitos - e a situação pode rapidamente virar um pesadelo.

Para sustentar essa estratégia, a Enedis ampliou o braço repressivo. O número de agentes habilitados a constatar fraude dobrou, passando de 250 para 500 agentes. Esses investigadores especializados têm poderes para realizar buscas, apreender equipamentos e lavrar autos.

A empresa não divulga quantas condenações já obteve, mas diz que suas denúncias são amplamente acolhidas pelos promotores. Segundo a Enedis, os tribunais vêm endurecendo o entendimento diante desse tipo de delito, por considerar que o prejuízo recai diretamente sobre a coletividade.

Além do âmbito penal, existe o risco de ações civis. A Enedis pode pedir indenizações para compensar o dano sofrido. Seguradoras de residência também podem negar cobertura quando a fraude é comprovada, elevando ainda mais o potencial de perda financeira.

Esse combate à fraude no Linky se intensifica justamente quando a implantação dos medidores comunicantes está perto do fim. Com 38 milhões de aparelhos instalados e um índice de cobertura de 95%, a Enedis afirma ter agora uma rede de monitoramento quase total.


Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário