Um novo estudo concluiu que algumas comunidades pré-históricas mantinham papéis de género bem definidos nos sepultamentos, mas ainda assim deixavam espaço para que certas pessoas atravessassem essas fronteiras.
O resultado reposiciona as primeiras sociedades agrícolas como contextos em que as regras sociais podiam ser, ao mesmo tempo, muito explícitas e surpreendentemente maleáveis.
Ossos revelam distâncias sociais
Em dois cemitérios separados por apenas cerca de 4 km, essa dualidade aparece no descompasso entre a forma como os corpos foram depositados e o modo como as pessoas parecem ter vivido.
Ao colocar lado a lado sinais no esqueleto e escolhas funerárias, Sébastien Villotte, do Centro Nacional de Pesquisa Científica de França (CNRS), registou uma incongruência entre rótulos sociais e vestígios físicos de trabalho.
Num dos grupos, o sexo era assinalado de maneira forte na morte; no outro, isso quase não acontecia - embora ambos preservassem indícios de esforço e hábitos repetidos.
Essa divergência indica que papéis sociais podiam tornar-se rígidos em rituais públicos sem, necessariamente, determinar por completo o que cada indivíduo fazia no quotidiano.
Marcas de trabalho partilhado
Entre as lesões na coluna, a espondilólise - uma fratura por esforço na região inferior das costas - surgiu com muito mais frequência em Csőszhalom, um sítio arqueológico no leste da Hungria.
Em Ferenci-hát, outro sítio arqueológico próximo, também no leste da Hungria, apareceu um caso entre 20 pessoas observáveis, contra oito entre 30 em Csőszhalom.
Mesmo assim, mulheres e homens não se separavam nitidamente por esse dano na coluna, o que aponta mais para uma sobrecarga partilhada do que para ocupações fixas.
Como a lesão reflete cargas repetidas mais do que uma tarefa única, ela sugere pressão distribuída por toda a comunidade.
Cotovelos contavam histórias
Outra pista estava no cotovelo: danos junto a um ponto de inserção indicavam uso intenso e repetido de um único braço.
Nos dois cemitérios, os homens exibiam esse padrão de forma mais clara no lado direito, em linha com comportamentos observados noutros grupos pré-históricos europeus.
Ao contrário do que se via na coluna, esse desgaste separava os sexos, o que sugere atividades como arremessar ou usar ferramentas com força.
Quando colocado ao lado das sepulturas, o padrão do braço direito aponta para uma divisão de trabalho que persistiu entre comunidades com costumes funerários muito diferentes.
Pés, ferramentas, estatuto
Os ossos do pé ofereceram mais um indício, porque facetas metatarsais - superfícies adicionais semelhantes a articulações nos ossos dos dedos - podem formar-se após hiperextensão repetida.
Em Csőszhalom, pessoas enterradas com ferramentas de pedra polida apresentavam essas marcas com muito mais frequência do que outras no mesmo cemitério.
Nove homens e uma mulher reuniam, ao mesmo tempo, sepultamento com ferramenta e alterações nos pés, ligando postura, trabalho e estatuto social.
Esse agrupamento não identifica uma ocupação específica, mas mostra que, para algumas pessoas, os rótulos rituais acompanhavam comportamentos vividos.
Dois mundos próximos
Ferenci-hát e Csőszhalom ficavam a apenas cerca de 4 km de distância, embora os enterros estivessem separados por aproximadamente 400 anos.
Análises posteriores de DNA antigo revelaram laços genéticos entre as comunidades, de modo que a diferença não se explica apenas por ancestralidade externa.
Ainda assim, no sítio mais recente, a posição do corpo e a seleção de objetos foram usadas para marcar o sexo de forma muito mais enfática na morte.
Esses contrastes sugerem que as regras de género não derivavam simplesmente da biologia, porque DNA antigo e evidências funerárias apontam em direções diferentes.
Regras com exceções
Em Csőszhalom, a posição de sepultamento e o sexo biológico não coincidiam em sete adultos, mesmo onde as normas pareciam firmes.
O caso mais marcante foi o de uma mulher idosa, enterrada com uma ferramenta de pedra polida e com o mesmo padrão de desgaste nos dedos do pé comum em muitos homens.
“Este é o período na Europa Central em que as pessoas começaram a expressar papéis de género já existentes numa nova arena”, disse Villotte.
Ele acrescentou que indivíduos enterrados de maneiras que não correspondiam ao seu sexo biológico provavelmente seguiram trajetórias de vida que não se encaixavam num único padrão esperado.
O que os ossos mostram
As marcas nos ossos revelam tendências amplas de esforço e hábito, e não uma lista organizada de ocupações antigas.
Vários indicadores podem resultar da idade, de anatomia herdada ou de esforço repetido, o que torna qualquer leitura isolada demasiado assertiva.
Além disso, a amostra abrangeu apenas parte dos adultos escavados nos dois locais, e não todas as pessoas que viveram ali.
Essa cautela é central porque o artigo discute padrões dentro das comunidades, e não destinos fixos para cada homem ou mulher.
Para além de binários simples
Nesses cemitérios, o género não era nem imaginário nem absoluto - e é a essa tensão que os ossos voltam continuamente.
Sepultamentos pré-históricos mais tardios costumam exibir sinalização mais nítida entre masculino e feminino, pelo que as evidências do Neolítico há muito parecem mais difíceis de definir.
Em vez de apagar diferenças entre sexos, o caso húngaro mostra regras reais, locais e aplicadas de forma desigual.
Vistas assim, as exceções deixam de parecer erros e passam a parecer pessoas a atravessar limites sociais.
Ler para além das sepulturas
Grande parte da pré-história chega até nós através da morte, e por isso a evidência funerária pode facilmente sobrepor-se ao que os corpos dizem sobre a vida diária.
Com frequência, arqueólogos dispõem de uma linha de evidência ou de outra; aqui, a equipa liderada pelo CNRS reuniu ambas numa comparação.
Ao confrontar desgaste esquelético com tratamento funerário, tornou-se possível separar exibição social de rotina vivida - e é por isso que este caso ganha tanta relevância.
Essa estratégia pode ser especialmente útil noutros cemitérios em que, até agora, se exigiu que os objetos carregassem significado em excesso.
O que permanece claro
O que se delineia é uma sociedade pré-histórica em que papéis de género existiam no trabalho quotidiano e no ritual, mas sem fechar todos os caminhos.
Comparações futuras entre ossos, sepultamentos e DNA antigo devem indicar se essa combinação de regra e flexibilidade era comum ou rara.
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