No coração do sudoeste da Amazónia, as estações mudam quando a chuva muda. Entre junho e outubro, a floresta fica mais quente e mais seca.
Nessa fase do ano, algumas borboletas recorrem a uma estratégia pouco comum para atravessar o período difícil: elas deixam de se reproduzir.
Um novo estudo indica que fêmeas de borboletas na Amazónia peruana conseguem interromper a produção de ovos durante a estação seca. Os cientistas chamam esse fenómeno de “diapausa de pausa reprodutiva”.
Esse tipo de pausa é frequente em insetos que precisam sobreviver a invernos frios, mas, em florestas tropicais, os investigadores ainda sabiam pouco sobre como ela ocorre.
O trabalho também revelou que espécies de borboletas muito próximas entre si podem reagir à mesma estação de maneiras bastante distintas.
Acompanhamento de borboletas na Amazónia
Ao longo de quatro anos, cientistas monitorizaram borboletas na Finca Las Piedras, no Peru. A equipa reuniu investigadores do Reino Unido, do Peru, da Suécia e dos Estados Unidos.
No total, foram analisadas 599 fêmeas de nove espécies. Os pesquisadores contabilizaram os ovos e verificaram se as borboletas tinham acasalado.
Os resultados foram ainda confrontados com dados meteorológicos recolhidos no próprio local.
Com isso, o estudo ofereceu uma visão detalhada de como borboletas tropicais ajustam a reprodução às mudanças sazonais.
Como a estação seca influencia a sobrevivência
A maior parte das pesquisas sobre diapausa concentra-se em insetos de regiões mais frias. Nesses ambientes, o inverno costuma obrigar os insetos a interromper a reprodução até a chegada da primavera.
Nos trópicos, o padrão é outro: as estações dependem mais da chuva do que da temperatura. Períodos de seca podem reduzir a oferta de alimento, prejudicar plantas e tornar a sobrevivência mais difícil para insetos jovens.
Os dados deste estudo indicam que borboletas tropicais recorrem a estratégias distintas para atravessar as épocas mais desfavoráveis.
Respostas diferentes entre espécies de borboletas
Em algumas espécies, a estação seca quase não alterou o padrão reprodutivo. Em outras, a reprodução diminuiu de forma muito mais marcada.
“Ficámos surpreendidos ao ver tanta variação nas estratégias reprodutivas nesse grupo de borboletas, mesmo dentro das mesmas populações”, disse o autor principal do estudo, Marcus Hicks.
“Em borboletas de clima temperado, você esperaria ver diapausa em quase 100% dos indivíduos no inverno.”
As conclusões sugerem que essas estratégias reprodutivas podem ter evoluído várias vezes entre borboletas tropicais.
Duas espécies, duas estratégias
O contraste mais evidente apareceu em duas espécies estreitamente aparentadas: Catonephele acontius e Catonephele numilia.
As duas vivem nas mesmas florestas e utilizam plantas semelhantes. Ainda assim, respondem de forma diferente à estação seca.
Em C. acontius, aumentou fortemente, nos meses secos, o número de fêmeas sem ovos. Já em C. numilia, praticamente não houve variação sazonal.
Mesmo entre as fêmeas que continuaram a colocar ovos, a produção caiu durante a seca. Porém, a redução foi muito maior em C. acontius.
Em outras palavras: uma espécie desacelera a reprodução de modo acentuado, enquanto a outra mantém o processo com mudanças pequenas.
O calor como gatilho para a diapausa
Os investigadores compararam indicadores reprodutivos das borboletas com chuva, duração do dia e temperatura.
A associação mais forte apareceu com a temperatura máxima. À medida que as temperaturas diurnas aumentavam, a produção de ovos diminuía e mais borboletas entravam em diapausa.
O resultado chamou a atenção porque, em geral, as estações tropicais costumam estar mais ligadas ao regime de chuvas.
Por que algumas borboletas continuam a reproduzir
Mesmo nos meses mais secos, muitas fêmeas de C. acontius ainda se reproduziram, embora em níveis mais baixos.
Isso sugere uma estratégia de distribuição de risco: parte das borboletas continua a colocar ovos caso as condições melhorem, enquanto outras aguardam um clima mais favorável.
“Uma explicação pode ser que essas borboletas estejam a diversificar as apostas para lidar com condições cada vez mais variáveis nos trópicos”, afirmou Hicks.
“Pode ser útil para elas ‘jogar nos dois lados’, com algumas borboletas a continuar a reproduzir-se e outras a fazer uma pausa durante a estação seca.”
As alterações climáticas podem comprometer a sobrevivência
O estudo surge num momento decisivo para a Amazónia. Modelos climáticos indicam secas mais longas e mais quentes no futuro.
Os cientistas temem que o aumento das temperaturas leve algumas espécies de borboletas a pausas reprodutivas mais prolongadas, dificultando a sobrevivência.
“Para mim, este estudo representa um passo vital em nossa compreensão de como os insetos amazónicos respondem a ambientes sazonais”, observou Hicks.
“À medida que os impactos rápidos das alterações climáticas antropogénicas se tornam mais pronunciados, é provável que vejamos mudanças severas nesses padrões sazonais na Amazónia.”
Mudanças no clima preocupam os cientistas
O coautor Jamal Kabir é doutorando na Universidade de Nottingham.
“Compreender como os insetos tropicais respondem a condições sazonais em mudança torna-se cada vez mais valioso à medida que as alterações climáticas modificam os padrões de chuva e temperatura em toda a Amazónia”, disse Kabir.
Para essas borboletas amazónicas, a sobrevivência pode depender de saber exatamente quando parar - e quando recomeçar.
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