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Como a formiga-touro (Myrmecia midas) usa a lua como bússola de navegação

Formiga animada caminhando à noite em trilha de pedras, com lua cheia e bússola ao fundo.

Animais diurnos, ao saírem para forragear, orientam-se pelo sol durante o dia. Abelhas, formigas e borboletas-monarca usam a chamada bússola solar, ajustando o rumo o tempo todo para compensar o deslocamento constante e previsível do sol pelo céu.

Com a lua, a história é bem diferente. De uma noite para outra, mudam bastante o horário em que ela nasce, o brilho e até a trajetória aparente no céu. Essa instabilidade torna a lua um sinal muito mais difícil de usar quando a navegação precisa ser precisa.

Ainda assim, a formiga-touro (Myrmecia midas) é um animal noturno. Ela sai do ninho, atravessa sozinha um ambiente florestal escuro e pode se afastar até 25 metros de casa, sem deixar um rastro de cheiro que a conduza de volta. Mesmo assim, as formigas-touro conseguem regressar ao ninho.

Um estudo publicado na Current Biology mostra agora que esses insetos usam a lua como uma bússola lunar - e, mais do que isso, conseguem antecipar onde a lua estará mesmo quando não conseguem vê-la.

A lua é extremamente variável tanto entre noites quanto dentro de uma mesma noite. Então, essas formigas realmente não podem se apoiar em nada do que viram na noite anterior”, disse ao Earth.com o professor Cody Freas, coautor do estudo, da Universidade de Toulouse, na França.

Histórias tradicionais estavam erradas

Quando Freas começou a estudar as formigas-touro, percebeu que elas deixavam o ninho no crepúsculo, quando ainda havia luz solar no céu.

A explicação tradicional dizia que as formigas voltavam ao ninho pela manhã, o que não exigiria pistas além do sol para se orientar. Só que a equipa observou que essas formigas retornavam em vários momentos ao longo de toda a noite.

O que encontramos é algo estranho”, afirma Freas. “O jeito como elas usam essas pistas nos fez pensar que talvez estejam usando a própria lua como pista de bússola.”

Para entender como as pistas lunares entram na navegação, Freas e colegas capturaram algumas formigas depois que elas já tinham se deslocado de 10 a 25 metros do ninho. Durante a etapa de saída, as formigas foram mantidas em diferentes condições de contenção.

As formigas do grupo controle ficaram em frascos de vidro, com acesso visual ao céu noturno. Já as formigas do grupo experimental foram mantidas em escuridão total dentro de uma caixa.

Horas depois, cada formiga foi solta num teste em um local desconhecido, a cerca de 200 metros do ninho.

A lua continua se movendo

Quando as formigas mantidas no escuro foram libertadas, a velocidade aparente da lua tinha variado durante o período em que elas ficaram sem ver o céu - ora acelerando, ora desacelerando.

Sem acesso ao céu, as formigas desviavam da rota de forma consistente e numa direção previsível. De modo geral, elas subestimavam o quanto a lua tinha se deslocado.

Na prática, o comportamento sugeria que elas agiam como se a lua ainda estivesse se movendo na velocidade mais lenta ou mais rápida que tinham observado por último.

Em contraste, as formigas do grupo controle, que mantiveram visão do céu durante todo o tempo, apontavam com precisão na direção do ninho.

Isso ocorre porque “a lua é muito mais variável ao longo do tempo”, explicou Freas.

Achamos que elas [as formigas] usam um mecanismo de curto prazo: têm uma noção geral de onde a lua deveria estar ao longo do tempo com base no ritmo circadiano. No entanto, elas realmente precisam se apoiar no último momento em que viram a lua.”

O desafio do passo de velocidade

A lua não se desloca a uma velocidade constante: ela se move bem mais devagar quando está nascendo e se pondo no oeste.

Mas, no trecho em que a sua posição aparente passa do céu a leste para o céu a oeste, a aceleração é elevada - e os autores chamam esse breve intervalo de movimento rápido de “passo de velocidade”.

A equipa quis saber se as formigas possuíam algum modelo interno dessa mudança de ritmo ou se, em vez disso, apenas assumiam uma velocidade constante ao longo da noite.

Para testar a ideia, os pesquisadores recolheram formigas de três ninhos diferentes e soltaram grupos delas ou durante o passo de velocidade, ou depois que essa transição rápida já tinha passado.

As formigas libertadas no meio do passo cometeram erros de navegação compatíveis com uma extrapolação linear, como era esperado.

Já as formigas soltas após o passo de velocidade ter terminado voltaram a ser precisas e se orientaram corretamente rumo ao ninho.

Prever o movimento da lua

Segundo Freas, esse passo de velocidade é um período difícil para a formiga manter uma direção baseada nele.

A parte mais surpreendente é que elas conseguem prever o passo de velocidade, mas com um atraso”, diz ele.

Ainda assim, ele acrescenta que as formigas também recorrem a pistas de marcos do ambiente quando as pistas lunares ficam distorcidas - por exemplo, num cenário nublado - ou quando simplesmente não estão disponíveis.

Quando a lua está visível no céu, essas formigas podem combinar a lua com outras pistas.

Elas têm múltiplos sistemas funcionando ao mesmo tempo”, afirma Freas. “É bom ter vários sistemas em ação caso algo não funcione numa noite, seja, digamos, porque várias árvores caem ou porque alguma coisa acontece.”

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