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Ferramentas de pedra na Idade do Gelo revelam parente humano de 150,000 anos na China

Arqueólogo analisando artefatos de pedra em escavação ao ar livre com caderno e tubos de ensaio ao lado.

Um parente humano de cérebro grande que viveu durante uma Idade do Gelo, há quase 150,000 anos, teria enfrentado o frio intenso recorrendo a uma indústria de ferramentas de pedra surpreendentemente elaborada - aponta um novo estudo baseado numa costela incrustada de cristais encontrada na China.

Descrita num artigo recente, a descoberta reforça uma ideia contraintuitiva: a criatividade não se manifesta apenas em fases tranquilas; em cenários difíceis, quando a inovação se torna mais necessária, ela também pode ganhar força.

"Descobrir que essas ferramentas de pedra foram feitas durante uma Idade do Gelo rigorosa conta uma história diferente", afirma o arqueólogo antropológico Yuchao Zhao, da Universidade de Shandong, na China.

"Tempos difíceis podem nos obrigar a nos adaptar."

O sítio arqueológico de Lingjing e as evidências de uso

As ferramentas de pedra já vinham sendo identificadas em toda a área do sítio arqueológico de Lingjing, no centro da China. Para os investigadores, o local teria servido sobretudo para o abate e processamento de animais - e não como base de moradia - em parte por oferecer acesso estratégico a uma nascente.

Ao longo de vários estratos, esse sítio especialmente produtivo já rendeu quase 15,000 artefatos líticos, predominantemente de quartzo.

Pelo menos uma parcela desses materiais é atribuída ao Homo juluensis, um parente humano arcaico proposto recentemente, com cérebro volumoso e uma combinação de características de hominíneos, que teria vivido no leste da Ásia entre cerca de 300,000 e 100,000 anos atrás.

Ferramentas de pedra de Lingjing: técnica, planeamento e precisão

À primeira vista, os objetos de pedra de Lingjing podem parecer apenas rochas lascadas ao acaso. Porém, na prática, eles revelam um grau de sofisticação notável - indícios de avanços em capacidades cognitivas e em domínio técnico.

"Isso não foi uma produção casual de lascas, mas uma tecnologia que exigia planeamento, precisão e uma compreensão profunda das propriedades da pedra e da mecânica de fratura", explica Zhao.

Um exemplo é o facto de os fabricantes preservarem, de propósito, certos ângulos nas pedras, criando superfícies adequadas para desprender lascas com função clara, como cortar carne junto aos ossos.

Além do trabalho minucioso, esse conjunto de ferramentas também funciona como uma ponte entre diferentes regiões e populações:

"A lógica subjacente desse sistema - e as capacidades cognitivas que ele reflete - mostra semelhanças importantes com tecnologias do Paleolítico Médio frequentemente associadas a neandertais na Europa e a ancestrais humanos na África, sugerindo que o pensamento tecnológico avançado não se limitava ao oeste da Eurásia", acrescenta Zhao.

Essa leitura ajuda a enfraquecer a suposição, sustentada por muito tempo, de que as populações dessa região teriam ficado estagnadas em termos tecnológicos por dezenas de milhares de anos.

Datação por urânio-tório: o que os cristais na costela revelaram

Antes, os investigadores estimavam que as ferramentas teriam sido produzidas num período ameno, em que a vida seria relativamente mais fácil.

"As pessoas muitas vezes imaginam a criatividade como algo que floresce em tempos bons", diz Zhao.

Neste estudo, a equipa reavaliou a idade das ferramentas ao datar uma costela de um animal semelhante a um veado que foi abatido no sítio.

Isso foi possível porque o osso continha calcita, um mineral extremamente comum que incorpora urânio - elemento que, com o tempo, decai lentamente e se transforma em tório.

Ao medir a razão entre urânio e tório nos cristais de calcita, os investigadores tiveram uma surpresa decisiva:

"Antes, achávamos que essas ferramentas tinham sido feitas há 126,000 anos, durante um período interglacial quente, mas, com base nas novas datas sugeridas pelos cristais, algumas dessas ferramentas foram na verdade produzidas há 146,000 anos, durante um período glacial rigoroso e frio", afirma Zhao.

Criatividade em tempos difíceis e implicações para a evolução humana

O resultado cria um pequeno paradoxo: a criatividade seria um luxo de épocas mais folgadas ou, como sugere um ideal supostamente platônico, seria filha da necessidade?

Ainda será preciso investigar mais para saber se Lingjing foi um núcleo local de inovação ou, em vez disso, um ponto onde técnicas circulavam e eram transmitidas entre gerações ou entre diferentes grupos.

De todo modo, as ferramentas encontradas ali representam um salto cognitivo quando comparadas às populações mais antigas de Homo erectus que também ocuparam o mesmo sítio.

"Mesmo que essas ferramentas sejam apenas um pouco mais antigas do que pensávamos, toda a história muda", diz Zhao.

Num plano mais amplo, uma análise comparativa que reuniu 100 sítios do Paleolítico na China encontrou evidências de que esse tipo de fabrico de ferramentas se tornou uma adaptação mais disseminada diante de um ambiente e de uma cultura em transformação.

O aparecimento dessa complexidade no talhe lítico também coincide com o surgimento de um mosaico morfológico, conectando avanços tecnológicos à evolução - ou até à hibridização - de parentes humanos arcaicos.

"No conjunto, esta pesquisa revela uma história muito mais rica de inovação, inteligência e evolução humana no leste da Ásia", conclui Zhao.

A pesquisa foi publicada na Revista de Evolução Humana.

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