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Parceria inesperada: formigas do deserto do Arizona e a “limpeza” entre *Pogonomyrmex barbatus* e *Dorymyrmex*, segundo Mark Moffett

Duas formigas carregam juntas um pedaço de areia em solo arenoso com cacto ao fundo.

A vida no deserto pode parecer dura e solitária, mas é justamente nos ambientes mais extremos que surgem alianças inesperadas. No interior do deserto do Arizona, cientistas registaram uma cena incomum que alterou a forma como entendemos as formigas.

Em vez de brigar ou disputar espaço, duas espécies diferentes de formigas aparentaram agir de modo cooperativo, num comportamento calmo e quase cordial.

O achado, relatado pelo pesquisador Mark Moffett, do Museu Nacional de História Natural, indica que até insetos minúsculos conseguem estabelecer relações complexas e surpreendentes.

Formigas do deserto ajudam umas às outras a limpar

Numa manhã cedo no Arizona, formigas-colhedoras chamadas Pogonomyrmex barbatus circulavam ao redor dos seus ninhos como de costume. De repente, algumas delas interromperam tudo e ficaram completamente imóveis. Num formigueiro tão agitado, pareceram verdadeiras estátuas.

Formigas-cônicas pequenas do género Dorymyrmex aproximaram-se dessas colhedoras paradas. Em vez de atacar, as menores subiram nas maiores e começaram a tocar, lamber e dar pequenas “mordiscadas” suaves pelo corpo. A sequência manteve-se por vários segundos e, em alguns casos, por minutos.

“Esta nova espécie de formiga é o equivalente, entre os insetos, aos peixes-limpadores no oceano”, disse Moffett. “As formigas-colhedoras, potencialmente perigosas, chegam a permitir que as visitantes façam a limpeza entre as suas mandíbulas abertas.”

Foi a primeira vez que alguém observou esse tipo de comportamento entre essas duas espécies.

O que significa “limpeza”?

A interação lembra o que acontece no mar. Certos peixes, conhecidos como peixes-limpadores, retiram parasitas e sujidade de outros peixes; os maiores permanecem parados e deixam os “limpadores” trabalharem.

No deserto do Arizona, as formigas-colhedoras pareciam desempenhar o papel desses peixes maiores. Já as formigas-cônicas comportavam-se como as “limpadoras”.

As maiores chegaram a abrir as mandíbulas e permitiram que as menores explorassem a parte interna. Um nível de confiança assim é raro no mundo dos insetos. Por isso, os cientistas passaram a questionar se este seria o primeiro exemplo de uma “formiga-limpadora”.

Formigas diferentes demonstram confiança

Em geral, as formigas reagem com agressividade a indivíduos de outras espécies. Aqui, porém, as maiores não exibiram sinais de ataque: não morderam nem investiram contra as menores.

Por vezes, uma formiga-colhedora caminhava até perto de um ninho de formigas-cônicas e ficava imóvel - quase como se estivesse a pedir a limpeza. Em algumas situações, várias formigas-cônicas subiam ao mesmo tempo na mesma formiga-colhedora.

“Dadas as tendências habituais das formigas, primeiro assumi que estava a observar agressão”, disse Moffett. “Mas as maiores pareciam procurar a atenção das menores ao visitar primeiro os seus ninhos e, em seguida, permitir que as pequenas as lambessem e mordiscassem por todo o corpo.”

O padrão sugere que as formigas-colhedoras aceitaram - e possivelmente até incentivaram - esse “serviço” de limpeza.

Por que as formigas do deserto fazem isso?

Os cientistas ainda não sabem ao certo qual é a razão desse comportamento. Mesmo assim, existem algumas hipóteses. Uma possibilidade é que as formigas-cônicas removam sujidade, micróbios nocivos ou parasitas minúsculos de áreas difíceis de alcançar no corpo das formigas-colhedoras.

Outra proposta é que as formigas-cônicas possam transferir bactérias úteis, com potencial para melhorar a saúde. Alguns pesquisadores também consideram que as formigas-cônicas possam obter alimento durante a atividade.

Como as formigas-colhedoras alimentam-se de sementes, podem transportar substâncias oleosas no corpo. As formigas-cônicas poderiam consumir esses compostos enquanto “limpam”. Esse tipo de relação em que ambos os lados se beneficiam é chamado de mutualismo.

Uma ligação química

Formigas comunicam-se e reconhecem-se por meio de substâncias químicas chamadas feromonas. O contacto próximo durante a limpeza pode facilitar a transferência desses sinais químicos entre espécies.

Essa troca pode diminuir a agressividade e ajudar as duas espécies a coexistirem mais próximas.

Também pode explicar por que as formigas-cônicas conseguem aproximar-se de formigas maiores sem serem atacadas. Esse possível intercâmbio químico acrescenta mais uma camada a uma relação que já parece bastante complexa.

Nem sempre é uma parceria perfeita

Apesar de a cena parecer cooperativa, os cientistas ainda não têm certeza se as duas espécies ganham na mesma medida. Em alguns casos, relações semelhantes na natureza acabam por favorecer apenas um lado.

Há insetos que aparentam ajudar, mas na prática roubam alimento ou outros recursos. Para entender o impacto real deste comportamento, ainda será necessário investigar mais.

Experimentos futuros podem comparar a saúde de formigas que recebem a limpeza com a de outras que não recebem. Os cientistas também podem analisar os microrganismos presentes nos seus corpos para obter respostas mais claras.

“Todo o tipo de descobertas incríveis ainda está por ser feito fora do laboratório”, disse Moffett. “Encontrar novas espécies e comportamentos na natureza muitas vezes exige prestar muita atenção às pequenas coisas - incluindo as formigas.”

Nova forma de ver as formigas

A descoberta muda a maneira como as pessoas costumam pensar sobre formigas. Muitos imaginam esses insetos como agressivos e competitivos. No entanto, este exemplo aponta para cooperação e, possivelmente, cuidado entre espécies.

O deserto, que à primeira vista pode parecer simples, esconde relações complexas que os cientistas ainda tentam decifrar. Até criaturas pequenas podem exibir comportamentos que lembram os de animais maiores, como os peixes.

O achado abre caminho para novas pesquisas e novas perguntas sobre cooperação na natureza. E mostra que, mesmo nos cantos mais pequenos do mundo, existem histórias surpreendentes à espera de serem descobertas.

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