Pular para o conteúdo

Ricardo Mendes e a Tekever: drones, IA e a guerra da Ucrânia

Dois homens em sala moderna com drones sobre mesa e mapas digitais em holograma e tela de parede.

Reservado e pouco dado a holofotes, Ricardo Mendes, 48 anos, CEO e fundador da Tekever - referência europeia na fabricação de sistemas autônomos voltados para vigilância e segurança - raramente expõe o que pensa. Ainda assim, por trás da postura contida (também típica de quem lida com temas de segurança e assuntos de Estado), fica claro que ele pensa grande: tão alto quanto os pequenos computadores com asas que a empresa vende para vários países e que se tornaram decisivos na guerra da Ucrânia, ajudando a colocar Portugal no mapa da indústria de Defesa.

Ele imagina cidades em que o transporte acontece tanto no ar quanto no solo, além de teletransporte e máquinas do tempo. Diz que tudo isso vai existir - só não arrisca quando. Grande parte do dia é consumida por projeções de futuro: “não apenas onde estamos, mas onde podemos e queremos estar, e no que temos de fazer para lá chegar”. À frente de uma equipe de 1300 pessoas, de mais de 30 nacionalidades, trabalha com times distribuídos por Lisboa, Porto, Ponte de Sor, Caldas da Rainha, Toulouse, Cahors, Swindon e Bristol. Só em Portugal, já são cerca de 900 profissionais.

O conflito na Ucrânia - onde os drones apareceram como a nova arma secreta e a Tekever virou aliada em campo - deu novo impulso a uma empresa criada por cinco engenheiros do Instituto Superior Técnico. Em 2019, esteve perto de quebrar; hoje, fatura (ele não divulga) algo perto de uma centena de milhões de euros. Por enquanto, não se anima com uma ida à Bolsa e descarta a hipótese de parceria com o Estado.

Filho de um engenheiro que mudava com frequência de local de trabalho, aprendeu cedo a enxergar o mundo como um mapa para ser percorrido. E uma das frentes de crescimento da Tekever vai além de territórios: a empresa já participa de missões espaciais. Como ele mesmo resume, é uma trajetória que obriga o grupo “a empurrar os limites do possível em termos de tecnologia”. Em uma conversa longa no centro de produção de drones em Ponte de Sor - dentro do aeródromo, um ambiente privilegiado para testar máquinas voadoras - nem uma pneumonia com febre de 39 graus o fez parar. Em meio ao português, ele pontua a missão com termos em inglês, mas explica a ambição sem rodeios: “Estamos a construir uma empresa geracional, capaz de servir a sociedade nas próximas décadas.”

Curiosidade, cultura e organização na Tekever

A Tekever é líder europeia na área dos drones de vigilância. Como é que massaja o cérebro? Já está a pensar na próxima grande nova invenção?

Eu consumo muito livro, filme e música - e sou extremamente curioso. Desde criança. Tenho prazer em encontrar um paradigma novo, publicado por alguém, e mergulhar num assunto que eu ainda não domino. Isso se repete em casa e no trabalho e, para nossa sorte, também acontece com a equipe. Dentro da empresa, precisamos manter um ambiente que estimule a criação, porque estamos crescendo muito rápido, num setor fascinante e em que ajudamos a empurrar a sociedade e a tecnologia para a frente.

É na organização que gasta a maior parte do seu tempo?

Antes de qualquer coisa, eu me ocupo de como construir uma empresa que amplifique as pessoas, permita que se desenvolvam, sejam criativas e realizem. Minha função é entender para onde queremos ir e desenhar a estratégia para chegar lá. E boa parte disso passa por organização: como ser extremamente ágil, mas operando em grande escala, em contextos que exigem cumprir regulações diferentes - União Europeia, OTAN e as regras específicas de cada país. Ao mesmo tempo, observo para onde a sociedade caminha, como a tecnologia evolui e de que forma as pessoas vão adotá-la.

Hoje não se consegue pensar com muita antecedência.

A gente trabalha com dois horizontes: 3 e 10 anos. No curto prazo, o grande desafio é absorver o que aprendemos na Ucrânia e nas missões em outras regiões, e apoiar países a usarem essa tecnologia com foco em defesa e segurança.

Exatamente de que tecnologia fala?

De sistemas autônomos - ou, com mais precisão, de inteligência artificial embarcada em sistemas que podem voar, se deslocar no solo ou operar submersos.

A Tekever é reconhecida como uma empresa de drones, genericamente algo que voa, mas então não é só isso?

A evolução é exponencial porque acompanha a computação: quanto mais poder computacional, mais capacidade os sistemas têm de executar tarefas, coletar dados e processá-los. Isso exige desenvolvimento rápido e muito ágil. Só que, quando se fala em uso massivo, não basta evoluir tecnologia: é preciso lidar com soberania, regulamentação e tudo isso em grande escala - o que é bem difícil.

Quando é que os drones apareceram na Tekever?

Nos primeiros anos, nós criávamos software que rodava em dispositivos como celulares e outros. Em determinado momento, entendemos que dava para desenvolver dispositivos sob outra lógica e passamos a encará-los como computadores, não como aviões.

“Nenhuma empresa ou mercado está estável. Basta olhar para a IA nos últimos dois anos”

Os drones não eram populares nessa altura.

De fato, não. A aposta em sistemas autônomos começou em 2008, quando quase ninguém falava em drones. Até então, nosso foco era software, já ligado a sistemas distribuídos - tudo conectado - onde software e inteligência artificial (IA) permitem conectar muitos elementos e extrair valor disso. Mas nós não fazíamos o veículo em si. Ao entrar nessa área, vimos que ela era dominada por companhias vindas do universo mecânico da defesa e da aeronáutica, que tratavam drones como aviões menores. Para nós, é diferente: são computadores com asas. Um AR5 [aeronave não tripulada de média altitude e longa autonomia concebida principalmente para missões de vigilância marítima] é praticamente um centro de dados com asas.

Ouvi-lo remete-nos para alguém que lê ficção científica, e que vê cidades com circulação aérea e não em estradas.

Isso está no imaginário de quem consome ficção científica. É evidente que tudo já está - e vai ficar ainda mais - conectado. A Tekever entendeu que, quando isso acontecer em larga escala, precisaremos de IA para dar sentido ao que acontece ao nosso redor, com a certeza de que a robótica será onipresente. Propulsão e armazenamento de energia vão se miniaturizar; teremos coisas menores, movendo-se com muito mais facilidade. Para mim, era só uma questão de tempo. E eu queria participar dessa construção. Achei que o melhor caminho era pelo software, porque permite criar a partir do zero.

A Tekever está numa fase de transição?

Hoje somos uma empresa em escala; não somos uma empresa iniciante. Construímos uma base tecnológica, um conjunto de produtos e serviços e encontramos um mercado para isso. Agora, o momento é de escalar, o que, no nosso setor, significa atuar em geografia muito ampla.

É um momento perigoso?

Em tecnologia, eu nem sei o que não é perigoso. Computação, software e IA mudam o tempo todo, e em ritmo exponencial. Nada fica parado. É só olhar para o que aconteceu com a IA nos últimos dois anos.

Autonomia, IA e atuação multidomínio (aéreo, terrestre, aquático e espacial)

Falou há pouco em voar, andar, nadar debaixo da água. A Tekever está a alargar a produção?

Nosso principal foco de desenvolvimento é a autonomia em todas as camadas tecnológicas que permitem, em solo, explorar grandes volumes de informação e reconhecer padrões: entender o que está ocorrendo, olhar para históricos e cruzar com dados atuais. É o que chamamos de Pilha de Autonomia, um conjunto de sistemas que pode ser embarcado em veículos diferentes. Se eu tenho um sistema voando, uma parte dessa Pilha de Autonomia está no ar, controlando o veículo. Mas a mesma base pode ser usada em sistemas terrestres, subaquáticos ou até em um satélite.

Teremos o símbolo da Tekever num submarino?

Há áreas que estamos analisando e muitos projetos de pesquisa para desenvolver essas tecnologias e, possivelmente, virar produto. Uma coisa é a tecnologia; outra é o produto. Estamos concentrados em criar uma tecnologia de uso multidomínio: aérea, espacial, terrestre e aquática. Mas transformar isso em produtos depende também de mercado e da nossa capacidade de atender bem os clientes. Os desafios dos países em autonomia não são exclusivos de sistemas que voam. A discussão é sobre robotização e o chamado “habilitado por IA”: como combinar IA e robótica para executar missões sem colocar vidas humanas em risco.

Insisto, vamos ver a Tekever em outros produtos?

Nos próximos anos, será normal ver a Tekever em diferentes sistemas robóticos, com inteligência artificial aplicada a serviços de proteção da sociedade.

Fala em missões e em soberania, os vossos clientes são sempre países?

Nós não atuamos no mercado de massa. Começamos por vigilância marítima, com clientes governamentais e supragovernamentais. Fazemos detecção e apoio à prevenção de pesca ilegal, busca e salvamento, proteção da vida marinha e também atividades como prevenção de incêndios. Tudo isso é segurança. E existe outro segmento, o de defesa, com missões tanto de proteção quanto de ataque.

E que explodiu com a guerra na Ucrânia.

Sim, esse segmento ficou muito mais visível. A tecnologia mostrou que muda radicalmente o jeito de fazer defesa.

A guerra da Ucrânia mudou o vosso paradigma como empresa?

A Tekever já estava numa trajetória de crescimento exponencial em segurança marítima antes da guerra. Em 2019, aceleramos bastante e fomos conquistando clientes pelo mundo. De repente, o setor ganhou enorme notoriedade. Nossos primeiros grandes clientes de referência foram a Agência Europeia de Segurança Marítima (AESM) e o Ministério do Interior britânico, o Home Office. Achamos um segmento muito atrativo e viramos líderes europeus em vigilância marítima, cobrindo uma parte grande dos mares da Europa. Não vendíamos produtos: entregávamos inteligência como serviço.

Ucrânia, ciclos rápidos e a transformação da defesa

A Tekever bateu à porta dos ucranianos ou eles é que vos encontraram?

Foi um pouco dos dois. Tínhamos relação com a AESM, e tudo começou num projeto de pesquisa para a ESA [Agência Espacial Europeia] em 2014; juntos, percebemos que poderia ser uma forma muito diferenciada de apoiar a missão deles. Também trazíamos experiência de vigilância de oleodutos e outras infraestruturas críticas na África. Quando a invasão russa começou em 2022, como a maioria das pessoas, sentimos enorme empatia pelos ucranianos. Inclusive, criamos programas para recebê-los na Tekever. Só que, naquele momento, não era óbvio como ajudar, porque não éramos uma empresa com produtos formatados para defesa.

Uma característica nossa - que continua sendo - é que, além de fabricar os sistemas e controlar tudo o que acontece dentro deles, temos um modelo de desenvolvimento ágil, capaz de evoluir muito rápido. E também operamos nossos próprios sistemas: há uma equipe que opera e analisa os dados, entendendo o que está acontecendo. Isso cria um círculo virtuoso de retroalimentação entre operadores, engenheiros e produção.

Numa situação de guerra torna-se mais complexo.

Sim. O mercado de defesa costuma funcionar de outro modo: o cliente define requisitos e, tradicionalmente, o ciclo leva anos. Aquisição, desenvolvimento e produção são processos longos; mesmo um projeto rápido dura três ou quatro anos. Em sistemas autônomos, não dá para ser assim. Na guerra da Ucrânia, em poucas semanas, ficou claro que esses sistemas seriam decisivos. E também que se formaria um jogo de gato e rato entre ucranianos e russos no desenvolvimento de tecnologia. Para alguns clientes nossos, como os ministérios britânicos da Defesa e do Interior, era evidente que, pelo que fazíamos e pela forma como nos organizamos, nossos sistemas poderiam ser muito úteis naquele cenário.

“Quando a guerra na Ucrânia acontece, torna-se evidente que os sistemas autônomos iam ser determinantes”

Foram os ingleses que vos levaram para a Ucrânia?

Foi o governo britânico, foram as forças armadas ucranianas e também fomos nós, com a vontade de ajudar. Naquela altura, a Tekever já era bastante conhecida em sistemas autônomos, éramos líderes europeus em vigilância marítima e um componente importante da guerra é o Mar Negro. Mas foi determinante a leitura do governo britânico sobre o nosso modelo de retroalimentação constante entre desenvolvimento, produção e operação. Os primeiros sistemas enviados para a Ucrânia não estavam ajustados ao que o terreno exigia e não funcionavam bem; alguns meses depois, já eram eficazes.

Quando viu na televisão os russos a avançarem pela fronteira ucraniana foi o empresário ou o cidadão que reagiu?

A primeira reação foi a do cidadão. A Tekever tem valores humanos muito fortes, e o primeiro pensamento foi: como podemos ajudar? No mesmo dia, fizemos uma campanha para trazer pessoas para trabalhar conosco e falamos com a Prefeitura de Ponte de Sor para viabilizar alojamento. Articulamos também com as escolas locais. Só depois veio a reflexão do ponto de vista empresarial.

É uma posição ideológica?

É mais humana. São pessoas precisando de apoio, fugindo de algo terrível.

Ainda tem algum trabalhador dessa altura?

Provavelmente sim, mas não sei. Quando a pessoa entra, passa a ser colaboradora da Tekever.

Desde o início percebeu que os drones iriam ter um papel preponderante na guerra?

Nos primeiros dias, não. Depois de algumas semanas - e ao longo dos meses seguintes - ficou evidente que seriam centrais.

E porquê essa importância?

É curioso observar como essas tecnologias evoluíram muito pelo lado civil na última década. Houve uma entrada do civil na defesa, em vez do tradicional processo de derivação do militar para o civil. A Ucrânia não tinha acesso ao equipamento militar tradicional, e começou a usar o que existia no setor civil.

Que era barato.

E acessível. Ao perceber que não teria tecnologia militar nas quantidades necessárias, a Ucrânia precisou de alternativas para se defender. Foram ao mercado civil e encontraram drones amplamente disponíveis: dava para comprar online e receber em casa. Equipamentos tradicionais de defesa foram complementados e, em muitos casos, substituídos por esses equipamentos civis.

Porquê? Permitem progredir rapidamente no terreno?

Quando se diz que a Ucrânia usa ou fabrica quatro milhões de drones por ano, não estamos falando de equipamentos como os nossos: são pequenos, bem mais simples, com objetivos mais limitados. E com custo controlado, na casa das centenas - e não dos milhares - de euros. Ficou muito claro que esse tipo de tecnologia pode criar uma assimetria enorme diante de equipamentos muito mais caros.

Quando foi a primeira vez à Ucrânia?

No fim de 2022 ou começo de 2023. Levei algum tempo porque eu não era útil lá. Eu queria ir o quanto antes, mas era mais útil aqui, ajudando a organizar a empresa para contribuir.

As vossas equipas já estavam lá?

Foram enviadas no primeiro semestre de 2022.

Eram engenheiros?

Nós sempre mandamos equipes multidisciplinares, combinando operações - muitas vezes com histórico militar e prontas para zonas de conflito - e engenharia para suporte local. Temos muitos ex-militares e equipes técnicas junto. Começamos a montar equipes na Ucrânia sobretudo para treinamento e apoio logístico, além de ajudar pesquisa e desenvolvimento em campo.

A Tekever opera drones no terreno?

Não. Nossas equipes estão lá para apoiar a operação: desde a capacitação dos militares ucranianos até processos logísticos completos - chegada, preparação, manutenção do equipamento - e, se precisar, reparo.

Nessas equipas entram advogados ou diplomatas para lidar com questões de soberania?

Em geral, não. Questões de soberania aparecem mais no desenvolvimento, na produção e na logística.

Não é o que acontece na Ucrânia?

Como é um país em guerra, com conflito ativo, as questões regulatórias contam muito menos. Existe bem mais tolerância a falhas.

Como foi a experiência de ir à Ucrânia?

Quando fui, já estávamos bastante envolvidos e achei importante entender no terreno como poderíamos participar mais. Já havia equipes indo regularmente, sistemas operando e uma relação muito próxima com as forças armadas ucranianas. Eu queria compreender melhor o país. Para nós, a Tekever também precisa ser ucraniana, assim como é britânica, francesa e portuguesa. Para isso, temos que conhecer o lugar - não por ser cliente, mas por fazer parte de nós.

O que mais me ficou foi a imagem de um povo tentando resistir preservando, ao máximo, a normalidade. Eu nunca tinha estado num país em guerra aberta; esperava o cenário de filme, tudo destruído e gente escondida em casa. O que me chocou foi a enorme vontade de manter rotinas e hábitos do dia a dia. Senti uma empatia profunda.

Conheceu Volodymyr Zelensky? O que achou dele?

Estive em vários eventos em que ele também estava. Ele passa uma força e uma energia fantásticas. É alguém com missão muito marcada, um comunicador excelente, e consegue gerar grande impacto no público.

Sem ele, a Ucrânia já tinha vergado?

Eu não sou a pessoa ideal para responder. Não sou analista. Instituições, países e empresas precisam de líderes fortes, especialmente nos momentos mais difíceis: gente sem medo, que enxerga o caminho e ajuda os outros a se motivarem. Acho que ele conseguiu.

Ele considerou que os drones eram importantes?

A Ucrânia tem líderes e pessoas brilhantes - conheci vários. Eles juntam muita inteligência com muito senso prático. E houve quem enxergasse que, ao apostar em tecnologias vindas do mundo civil para preencher lacunas do mundo militar, isso não seria “militar de segunda”, mas quase uma reinvenção dos sistemas usados na defesa.

A Ucrânia transformou a Tekever em outra coisa?

Não. Eu diria que o mercado mudou muito. O que era mais voltado para segurança se reequilibrou, e ficou claro que o mercado de defesa seria bem maior e aceleraria nosso crescimento.

Já estão na área da defesa?

Quando trabalhamos com forças militares, estamos no segmento de defesa.

A Rússia tentou contactar-vos?

Nunca. Defesa é altamente regulado. Queiramos ou não, só podemos vender para países e entidades para os quais os países de origem - neste caso Portugal, Reino Unido ou França - autorizem exportação. Não poderíamos exportar para a Rússia; a regulação nos limita.

A Rússia estava atrasada na tecnologia dos drones?

Não sei. A Rússia tem capacidade científica impressionante. Hoje está claro que há muita capacidade tecnológica dos dois lados; não existe assimetria.

Os Estados Unidos não estavam tão despertos para estas tecnologias?

É um ponto interessante. Os EUA têm capacidade tecnológica extraordinária e, na defesa, têm equipamentos e tecnologias.

Com décadas à frente da Europa...

Não sei se isso é verdade, porque depende da tecnologia específica. Eles têm empresas fabulosas e desenvolvem tecnologia incrível há décadas, mas montaram organizações otimizadas para um certo modo de desenvolver. Só que, nos últimos quatro anos, a forma de criar e levar esse tipo de tecnologia para o terreno mudou radicalmente. Os ciclos passaram a ser de meses. Desde o fim da Guerra Fria, os ciclos eram lentos, com projetos enormes e muito planejados. Na Ucrânia, ficou evidente que isso não funciona no terreno.

Mas a guerra não se vai fazer só com drones. O equipamento tradicional é relevante?

Claro. Mas essas tecnologias têm peso crescente. A gente vê carros de combate de milhões de euros sendo destruídos por equipamentos de centenas, milhares ou poucas dezenas de milhares de euros. E isso se repete no mar e no espaço aéreo.

A guerra da Ucrânia dá oportunidade a David de derrotar Golias?

A Ucrânia conseguiu se posicionar como David. É uma boa metáfora para que países ocidentais, Europa e OTAN reinventem sua capacidade e sua indústria de defesa. Nós estamos no meio disso, muito envolvidos nas missões militares na Ucrânia.

Quando a guerra acabar, os ucranianos serão fortes na indústria da defesa?

A sociedade inteira está mobilizada para defender o país: uns inventam, outros fabricam, outros usam. Eles já construíram uma indústria, mas o grande desafio é que o que uma empresa precisa em guerra é diferente do que precisa em paz.

Já vê o cenário do fim do conflito?

O que a Ucrânia fez até aqui é inacreditável. Eles se reinventam o tempo todo. Às vezes estão à frente, outras atrás, mas não desistiram. Eu não sei como nem quando vai terminar. Mas é um povo que, de certo modo, já venceu porque não ficou parado.

Para a Tekever não é necessário que o conflito se perpetue?

De jeito nenhum. Queremos que acabe o quanto antes - não só para parar de morrer gente, mas porque as empresas precisam se concentrar em desenvolver a próxima onda tecnológica para uma sociedade em paz. E há muitos benefícios que podem migrar para o mundo civil.

A guerra da Ucrânia provocou uma transformação profunda no mercado de tecnologias de defesa, mas, na minha opinião, isso aconteceria de qualquer forma: era questão de tempo. Aliás, nossos planos de negócio diziam exatamente isso - vai acontecer, não sabemos quando. A mudança foi radical e não volta atrás.

“Foi determinante o Governo britânico ter percebido que o nosso modelo podia ser muito útil na Ucrânia”

A Europa está a reindustrializar-se na área da defesa, mas está atrás dos EUA e vai demorar a recuperar o atraso. A aprendizagem na Ucrânia permite dar o salto mais rápido?

Eu sou muito otimista. Por termos menos capacidade industrial em defesa, a oportunidade de avançar mais rápido é maior - como aconteceu em países africanos que passaram do “sem telefone” direto para o celular.

Já está a acontecer?

Sim. Estamos focados em desenvolver a guerra do futuro. E, na visão da Tekever e na minha, devemos apostar em tecnologias de duplo uso: equipamentos militares que também tenham impacto muito positivo na sociedade civil. O que fazemos - IA, robótica, software - já impacta e vai impactar ainda mais a sociedade pelos próximos 10 anos.

O mesmo dispositivo, com IA lá dentro, pode estar no lar de idosos ou no terreno de guerra?

Ele pode cumprir vários tipos de missão. Não sei se num lar de idosos, mas certamente não fica restrito à defesa. É por isso que eu penso tanto no horizonte de 3 a 10 anos. Em 3 anos, é muito claro para mim que vamos nos consolidar como uma das principais empresas globais nesta área, com foco em defesa e segurança - por ser o que a sociedade mais precisa agora e a forma mais direta de servir. E em 10 anos, porque acreditamos que essas tecnologias, impulsionadas pelo que acontece em defesa e segurança, vão causar um grande efeito no mercado civil.

Estamos a falar de quê exatamente?

De um fenômeno parecido com o que aconteceu com a internet décadas atrás. A internet nasceu no mundo militar e hoje está em todo lugar. A IA é uma força que vai transformar a sociedade de forma profunda. Ainda estamos na infância da IA, mas vamos acelerar muito rapidamente na IA incorporada.

Quando você pergunta a uma criança o que é IA, ela pensa imediatamente em ChatGPT, nuvem, GROK ou outra ferramenta digital. Daqui a 10 anos, a imagem será outra: a IA estará incorporada em robôs a nosso serviço. Tudo já está conectado - relógio, carro, geladeira. A Tekever nasceu imaginando uma sociedade assim. E isso vai acontecer não só nos dispositivos de computação (como hoje), mas nos dispositivos que se movem, pegam e fazem coisas.

Tem um humanoide em casa?

Não. Mas eu teria.

É para isso que a Tekever vai evoluir?

A Tekever vai sempre tentar servir a sociedade onde acredita gerar mais impacto. Nos próximos 3 anos, nosso foco principal será a proteção da Europa. Assumimos essa missão integralmente.

Acreditamos que a sociedade vai evoluir muito com o impacto da IA e da IA incorporada. Queremos participar e estamos desenvolvendo as tecnologias de base. E acreditamos que poderemos criar produtos e serviços muito interessantes em segmentos que ainda nem sabemos quais serão.

Capital, investidores, talentos e Portugal no mapa

A Tekever é para ficar na família Mendes?

A Tekever não existe “na família Mendes”. Há muitos acionistas. A cada rodada de investimento, entram novos.

A sua percentagem direta no capital é de quanto?

Essa informação não é pública.

É o acionista maioritário?

Não. Tenho muito orgulho em dizer que uma parte grande do nosso capital pertence a pessoas que trabalham na Tekever. Muitas estão conosco há muitos anos. Além disso, temos um grupo relativamente pequeno de grandes parceiros institucionais e investidores, que entraram ao longo de várias rodadas.

E que já salvaram a Tekever.

Foram essenciais. Todos os investidores contribuíram de formas diferentes em momentos distintos. Um dos primeiros foi a Iberius Capital. Temos a Ventura, a Baillie Gifford, o NATO Innovation Fund, o National Strategic Investment Fund do governo britânico e outros. A estrutura acionária é muito rica.

Nós reinvestimos integralmente todos os resultados no desenvolvimento da empresa. Nunca distribuímos dividendos. E temos a sorte de contar com investidores com visão de longo prazo.

Não é uma daquelas empresas de sucesso que acaba vendida a multinacionais?

Não. Nosso objetivo é levar a empresa até onde for possível.

Quando estava no Instituto Superior Técnico (IST) esperava vir a ter um unicórnio? Era uma meta?

Se o sonho é apenas a valorização, então não se deveria fazer. A gente sonhava em transformar o mundo com tecnologia. Hoje eu percebo como essa visão era inocente.

Quantos anos tinha?

Eu tinha 23 e era o mais novo. Éramos cinco ex-colegas do Técnico que decidiram criar uma empresa. Com perfis bem diferentes e históricos muito diversos.

Eram filhos de engenheiros?

Meu pai era engenheiro químico, mas um dos fundadores era filho de um jardineiro.

O que vos juntou?

A vontade de fazer algo diferente - e a sensação de que era impossível não fazer. Éramos todos engenheiros de computação, mas de áreas distintas. Eu e outro colega éramos de IA, e os outros três vinham de Sistemas Computacionais. Juntamos IA com sistemas oriundos de comunicações móveis. A Tekever nasce dessa visão.

Saíam à noite, bebiam, iam dançar?

Fazíamos tudo o que gente de 20 e poucos anos faz. Só que meu filho mais velho nasceu em 2001, o ano da criação da empresa. Então minha vida não era tanto de bar. Durante o Técnico, sim. Como qualquer colega, eu tinha vida social e vida acadêmica, mas virei pai muito cedo.

O Técnico foi importante na sua formação?

Muito. Eu sempre fui muito bom aluno, e os colegas que foram para o Técnico também. Lá, existe uma densidade grande de pessoas dedicadas, criativas, que escolheram engenharia. De algum modo, todos compartilham interesses comuns, mas podem ter vivências bem diferentes. Isso cria um espírito forte de debate e descoberta conjunta - e esse é o principal.

É algo que eu também gosto na Tekever, que eu costumo chamar de ímã de talentos. Mas não é só o Técnico: qualquer universidade excelente cria um ambiente de aprendizagem e condições para as pessoas crescerem. Atrai gente boa, que se desenvolve e atrai mais gente. O Técnico é uma escola de excelência, e hoje Portugal tem muitas outras, como a Universidade do Porto ou a de Aveiro.

O Técnico não tem um lado muito competitivo, com reflexo na saúde mental?

Isso vale para o Técnico e para outras universidades. O mais importante que eu aprendi lá foi aprender a aprender: método de trabalho e como evoluir melhor. Eu sempre fui extremamente competitivo e acho que isso é mais meu do que institucional.

É injusto que essas pessoas saiam de Portugal?

Estamos num mercado aberto, integrado à Europa, sem barreiras, e também no mercado global. O que precisamos fazer é criar em Portugal empresas e instituições que atraiam pessoas: com missão, desafios grandes, salários adequados e condições para seguir se desenvolvendo.

“Estamos a focar-nos em desenvolver uma tecnologia que pode ser multidomínio: aéreo, espacial, terrestre e aquático. Mas ter produtos não depende só da tecnologia”

A Tekever paga salários acima da média?

A gente não quer que alguém venha - ou deixe de vir - por salário. Queremos que se junte porque acredita na missão e quer trabalhar num ambiente extremamente desafiador. Não é para todo mundo. É muito exigente: empurramos as fronteiras do possível na tecnologia e nas pessoas. Essa é a condição principal. Depois disso, queremos garantir que ninguém deixe de vir por salário e que a remuneração seja competitiva.

O equipamento da Tekever pode ser usado num ataque militar? Ficaria confortável?

O que construímos são sistemas otimizados para levar a bordo muitos sensores, gerir grandes volumes de dados, processar em tempo real e transmitir. Isso cumpre funções numa operação militar bem diferentes, por exemplo, do que faz o equipamento de um míssil. Além disso, a tecnologia embarcada e o custo que ela traz fariam não ter sentido usar nossos equipamentos com esse objetivo. Seria como usar um Porsche para andar em trilha de cabras.

O vosso esforço não devia estar focado nos sistemas de defesa antidrone?

É uma área em que trabalhamos. O que aparece mais são os aviões, mas nossa tecnologia principal é a pilha de autonomia. Parte fica a bordo, parte no solo. Temos o sistema Atlas, que integra essa pilha e nos dá visão muito ampla do que acontece no terreno. Ele pode ser usado em cenários de defesa antiaérea.

Portugal não tem esses sistemas de defesa antiaérea. Estamos vulneráveis a um ataque de drones?

Essa pergunta é melhor dirigida ao Ministério da Defesa e às Forças Armadas. Alguns dos nossos sistemas, como o Atlas, também podem ser usados em missões de proteção antiaérea. Estamos trabalhando ativamente nisso com vários países. As Forças Armadas portuguesas estão atentas e muito conscientes, tanto das ameaças quanto das tecnologias que estão sendo desenvolvidas.

Não estamos a dormir?

De jeito nenhum. E há trabalho ativo. O cenário apocalíptico de “estamos completamente desprotegidos” não corresponde à realidade.

O almirante Gouveia e Melo defende que Portugal faça um cluster de drones. Concorda?

Portugal já tem empresas, como a Tekever, que construíram ao longo de muitos anos capacidades muito interessantes. Somos a entidade mais conhecida no país nessa área porque estamos entre as maiores empresas da Europa. Há outras surgindo, há empresas iniciantes e empresas mais consolidadas. Esse saber-fazer já existe, e Marinha, Exército e Força Aérea têm tido papel importante.

Portugal é exemplo, na OTAN, na utilização de equipamentos no meio marítimo. Tudo o que ajudar a colocar Portugal mais no mapa e a investir nessa área tecnológica é bem-vindo, porque é um campo em que Portugal pode ser muito bom. Então, eu vejo com ótimos olhos.

Portugal pode ser líder mundial se criar um produto inovador?

Precisamos escolher muito bem - não só as áreas que queremos, mas aquelas em que já temos vantagem competitiva - e aplicar energia numa estratégia de longo prazo. Uma área óbvia é a de sistemas autônomos. A Tekever não é apenas portuguesa; é multinacional, mas nasceu em Portugal.

Há outros campos em que também podemos ser muito fortes, como materiais técnicos vindos do setor têxtil. Portugal tem uma vantagem competitiva que pode parecer desvantagem: somos pequenos em terra, mas gigantes no mar. E temos tradição de diplomacia econômica; sabemos lidar com povos diferentes - isso é um ativo fantástico.

Portugal também é o país mais ocidental da Europa e consegue ter espaço aéreo mais desimpedido, o que pode criar condições excelentes para teste e treinamento. Esse território precisa ser vigiado e protegido, e disso pode nascer muito saber-fazer.

Dá para inovar em legislação e regulamentação e dar agilidade ao setor público. Se focarmos, nos especializarmos no que podemos ser excelentes e criarmos condições para fomentar isso, eu acho que Portugal consegue dar cartas.

Teletransporte, filhos e o medo (ou não) da IA

Se pudesse inventar um dispositivo, seria uma máquina do tempo ou de teletransporte?

As duas ideias são muito ligadas: espaço e tempo partem do mesmo princípio. O que fazemos hoje, acima de tudo, é logística de informação. Nossos sistemas levam informação do ponto A ao ponto B de forma praticamente instantânea. Seria ótimo para a sociedade se conseguíssemos transportar coisas e pessoas instantaneamente. Não dá, mas trabalhamos para facilitar e ajudar.

Como explica aos seus filhos o que faz? O pai tem uma empresa que faz o quê?

O pai não tem uma empresa; o pai trabalha numa empresa. Eu tenho a sorte de ter filhos com grande diferença de idade. Entre o Rodrigo e a Francisca há 18 anos, e cada um entende o que eu faço de um jeito.

A Francisca acha que eu faço aviões. O Frederico, que tem 19 anos, entrou na faculdade e está estudando IA; ele entende que tem mais a ver com IA do que com aviões. A Constança tem 21, é bióloga marinha e olha pela perspectiva de missões para proteger a vida marinha.

Tem medo da IA?

A gente precisa ser inteligente sobre como lidar com IA, que está causando uma transformação profunda. A minha perspectiva, quando eu estudava e depois dava aula, era diferente da de hoje. Agora o tema é mais comum. Mas ainda vem aí uma mudança ainda mais profunda.

A IA amplia o que uma pessoa consegue fazer, e todos nós vamos usar cada vez mais. Isso vai nos ajudar a identificar no que somos melhores e em que a IA pode, de fato, potencializar. O que é valorizado num trabalhador hoje não será o mesmo no futuro. Ninguém sabe exatamente o que vai acontecer, mas será muito diferente. A reflexão que precisamos fazer, como sociedade e individualmente, é o que vamos fazer para lidar com isso. Eu incentivo quem tem medo a entender como tirar melhor proveito da IA.

Mas como se controla?

Esse é o papel dos humanos: definir onde usar e quais limites impor.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário