Steinbeck e a mecanização agrícola: o “monstro” e a expulsão do campo
No capítulo 5 de “As Vinhas da Ira”, John Steinbeck apresenta o atrito crescente entre pequenos agricultores arrendatários e o que ele descreve como o “monstro” do sistema bancário. Bancos e grandes propriedades mecanizadas vão ocupando as terras e empurrando para fora famílias que, por gerações, haviam trabalhado o mesmo chão. “Um homem num trator pode substituir 12 ou 14 famílias”, explica um dos personagens. O trecho passa uma ideia de destino selado, quase trágico: para aqueles agricultores, parecia que o mundo terminava ali.
O romance acabou se firmando como um retrato marcante dos custos de ajustamento ligados à reconfiguração da economia norte-americana na primeira metade do século XX. Com a mecanização do campo, milhões e milhões foram deslocados. Famílias inteiras tiveram de largar suas terras e sair em busca de trabalho na Califórnia, em Detroit ou em outras regiões do país. Na vivência concreta desses trabalhadores, a mudança tinha mesmo feições de apocalipse.
Do choque individual à escala macroeconômica
Quando ampliamos a perspectiva - saindo do drama humano narrado por Steinbeck e olhando a dimensão macroeconômica -, o tamanho da virada fica ainda mais nítido. No começo do século XX, mais de 40% da população ativa dos Estados Unidos estava na agricultura. Nos anos 80, esse percentual já havia caído para menos de 2%. À primeira vista, a trajetória parece confirmar a leitura apocalíptica: um setor inteiro teria praticamente sumido.
Mas não foi isso o que ocorreu.
Ao longo do mesmo período, a economia americana viveu um avanço extraordinário de produtividade e de renda. Em média, o bem-estar subiu de forma relevante. A queda do emprego no campo veio junto da expansão industrial e, mais tarde, do crescimento dos serviços. O trabalho não evaporou; apenas mudou de lugar e de formato.
Portugal nos anos 80: produtividade e realocação de trabalhadores
Algo análogo também se passou em Portugal, só que mais tarde - com destaque para os anos 80. Como observava Silva Lopes em 1996, “o progresso técnico na agricultura, traduzido, nomeadamente, pela rápida difusão dos tratores e de outras máquinas agrícolas, permitiu aumentos significativos de produtividade e reduziu substancialmente a necessidade de mão de obra”. Assim como havia acontecido décadas antes nos Estados Unidos, o salto de produtividade no campo liberou trabalhadores para outros setores da economia.
Inteligência artificial (IA): disrupção sem apocalipse
Hoje, a transformação em curso é de outra natureza, mas tem uma semelhança estrutural: do mesmo modo que a mecanização marcou o século XX, a inteligência artificial (IA) se coloca como uma das grandes tecnologias de uso geral do século XXI.
A questão que hoje enfrentamos com a IA talvez não seja se ela provocará um apocalipse. A questão é como gerir a disrupção
Não faltam projeções pessimistas sobre o que a IA pode causar. Elon Musk assegura que “os robôs serão capazes de fazer tudo melhor do que nós”. Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee observam que “nunca houve uma altura melhor para ser uma máquina e nunca houve uma altura pior para ser um trabalhador com competências comuns”. Esse tipo de afirmação - entre outras - sugere que o trabalho humano poderia desaparecer ou, no mínimo, que os empregos deixariam de existir.
A frase de Brynjolfsson e McAfee, aliás, caberia muito bem em Steinbeck. Eu não sou - nem de perto nem de longe - especialista em IA, mas parto da ideia de que olhar para o passado ajuda a pensar o futuro.
Trabalho versus emprego
Nessa linha, vale separar trabalho de emprego. É possível - e até provável - que o emprego, do jeito que foi entendido no século XX, passe por mudanças profundas: a forma de organizar o trabalho, o conjunto de tarefas assumidas e os vínculos contratuais que firmamos - tudo isso tende a ser diferente. Ainda assim, o trabalho continuará existindo. Trabalhar faz parte da condição humana, da nossa disposição para criar, construir e participar da vida em sociedade. Não conseguimos, e talvez nem devamos, existir sem trabalho - mesmo quando isso não se manifesta como um emprego tradicional, com horário fixo e salário mensal.
A lição da história econômica é direta: grandes inovações tecnológicas trazem disrupção, muitas vezes com dor. Elas criam custos de ajustamento concretos para pessoas e comunidades. Mas disrupção não é sinônimo de apocalipse.
É exatamente isso que a história da mecanização agrícola evidencia. Para muitos indivíduos, a transição foi difícil. Para a economia no agregado, ela foi transformadora - e acabou abrindo espaço para novas formas de trabalho e de prosperidade.
A questão que hoje enfrentamos com a IA talvez não seja se ela provocará um apocalipse. A questão é como gerir a disrupção.
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