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Estudo na Estação Concordia, na Antártica, revela que contato frequente pode aumentar conflitos

Quatro homens em roupas de inverno discutem gráficos em laptop dentro de uma estação polar, com neve na janela.

Pessoas que se preparam para missões longas na Antártica e no espaço costumam seguir uma teoria prática sobre viver em espaços apertados.

Refeições em grupo, turnos de trabalho partilhados e corredores estreitos obrigam um punhado de indivíduos a funcionar como uma equipa. A ideia é que a convivência constante é o que cria laços.

Um estudo recente realizado num dos postos mais isolados do planeta indica, porém, que essa teoria tem um ponto cego.

O problema talvez não seja o tempo que as equipas passam separadas. Pode ser, ao contrário, a quantidade de horas em que ficam a menos de um braço de distância uns dos outros, dia após dia, sem qualquer porta para fechar.

O congelamento profundo da Antártica

A Estação Concordia fica num planalto elevado no Leste da Antártica, onde o gelo se estende por centenas de quilómetros em todas as direções e o ar permanece severamente imóvel.

No inverno, as temperaturas descem para cerca de -80 °C, e a base atravessa nove meses sem um único voo de reabastecimento. É justamente esse isolamento extremo que a torna valiosa para cientistas do comportamento.

Agências espaciais consideram a Estação Concordia uma das aproximações mais fiéis, no mundo real, do que seria uma viagem longa até Marte: a tripulação partilha uma área pequena e não tem como simplesmente ir embora.

Jan Schmutz, professor de psicologia na Universidade de Zurique (UZH), liderou uma equipa internacional que acompanhou uma dessas tripulações ao longo de dez meses.

O desenho do estudo incluiu 12 pessoas, quatro rondas de questionários e pequenos sensores capazes de registar quem ficou perto de quem - e por quanto tempo.

Contato frequente, mais atrito

O principal resultado contrariou o senso comum. Quem acumulou mais tempo de interação presencial com colegas não foi quem se sentiu mais amparado no grupo.

Foram essas pessoas, na verdade, as mais propensas a relatar aumento de conflitos, crescimento da desconfiança e a sensação de que o trabalho da equipa estava a deteriorar.

“Em pequenas equipas sob condições extremas, mais contato não equivale automaticamente a apoio social e, na verdade, pode aumentar as tensões”, afirmou Schmutz.

E o padrão manteve-se ao longo dos dez meses - não como um pico isolado numa única semana ruim.

Durante muito tempo, pesquisadores assumiram que a proximidade em ambientes extremos tenderia, em geral, a ajudar. Na lógica tradicional, dividir o mesmo espaço facilitaria conversas, apoio e a sensação de ser visto.

O novo artigo indica que o efeito pode inverter-se quando não existe um “botão de desligar” para a convivência.

O que os sensores revelaram

A equipa recorreu a sensores vestíveis pequenos que trocavam sinais de rádio curtos sempre que dois membros da tripulação permaneciam a curta distância um do outro.

Assim, os aparelhos registavam quem esteve perto de quem e por quanto tempo, sem depender de anotações nem da memória de encontros casuais dias depois.

Esse registo automático cobre uma lacuna que questionários não conseguem fechar. Alguém pode não se lembrar de ter passado 40 minutos perto de uma pessoa que preferia evitar. Os sensores registaram mesmo assim - cada minuto silencioso e desconfortável.

Trabalhos anteriores na Antártica já sugeriam que o apoio social tende a diminuir à medida que o inverno polar se prolonga.

Os dados de Concordia mostraram algo mais específico: não apenas menos apoio, mas mais proximidade “bruta” justamente entre pessoas cujas relações estavam a descarrilar.

Divisão em subgrupos

Com o passar dos meses, outro fenómeno apareceu. A tripulação, que começou como um grupo internacional misto, foi-se reorganizando em pequenos núcleos de pessoas que partilhavam o mesmo idioma ou nacionalidade.

Os mesmos círculos reduzidos repetiam-se, com as mesmas caras dentro deles.

Aproximar-se de quem fala a sua língua materna pode ser uma forma útil de lidar com o dia a dia num ambiente em que qualquer piada mal interpretada custa energia.

Ao mesmo tempo, isso corrói de maneira discreta a coesão do grupo inteiro - algo de que uma estação como Concordia depende.

Andrea Cantisani, psiquiatra e pesquisador associado na Universidade de Berna (UniBe), participou com Schmutz da análise.

O padrão de “linhas de falha” é conhecido em equipas antárticas de anos anteriores - pequenas alianças surgem, o atrito aprofunda -, mas os sensores permitiram, pela primeira vez, colocar números concretos nesse processo.

Correlação, não causa

As análises são correlacionais: mostram duas variáveis a variar juntas, sem demonstrar qual delas causou a outra.

Maior proximidade e piora dos relacionamentos caminharam lado a lado, mas a direção dessa ligação não ficou determinada.

Schmutz levantou uma alternativa plausível. É possível, observou, que membros mais solitários ou em dificuldade tenham procurado mais contato justamente por não estarem bem - e que essa aproximação extra não tenha trazido o alívio que esperavam.

Essa incerteza não diminui o recado prático. Quer o contato tenha alimentado o conflito, quer o conflito tenha aumentado o contato, o resultado para quem viveu a experiência foi o mesmo: uma missão percebida como pior.

Para além do gelo

A equipa encara o estudo como uma base prática para o que vem a seguir. Futuras missões a Marte vão confinar pequenos grupos em naves por anos, sem saída, sem rostos novos e sem a possibilidade de “sair para respirar” e clarear a cabeça.

Saber com antecedência quais padrões sociais sinalizam problemas pode ajudar planeadores a desenhar rotinas, alojamentos e acompanhamentos que evitem o pior.

As lições também se aplicam fora do espaço. Tripulações de submarinos, trabalhadores em plataformas marítimas e pesquisadores em estações científicas remotas vivem versões do mesmo mundo social comprimido.

Até este estudo, a fragmentação social em equipas isoladas era acompanhada sobretudo por entrevistas feitas depois.

Os sensores mostram que os mesmos sinais podem ser identificados quase em tempo real, enquanto a missão ainda está em curso - o que permitiria oferecer suporte a uma equipa em dificuldade antes que as rachaduras se ampliem.

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