Mobilidade no Porto e o peso dos municípios vizinhos
À primeira vista, a ideia de uma “revolução viária” no Porto tem seu apelo, mas não estou convencido de que o remédio apresentado por Luís Montenegro e por Pedro Duarte seja o mais adequado para o problema que dizem querer tratar. Para começar, soa fora de propósito discutir mobilidade na Invicta com o presidente do Município de Lisboa ao lado, em vez de trazer para a conversa os responsáveis políticos das autarquias vizinhas. Afinal, são esses municípios que administram os territórios de onde, todos os dias, saem centenas de pessoas em direção ao Porto - e que, inevitavelmente, sentirão os efeitos dos projetos anunciados.
O rebaixamento/enterramento da AEP, por exemplo, terá repercussões em Matosinhos. Já a proposta de uma via alternativa à Via de Cintura Interna terá um impacto evidente - além de outros menos imediatos, como mudanças nos hábitos de deslocamento - nos municípios do entorno, porque a futura estrada tende a atravessar áreas de Gaia, de Gondomar e, possivelmente, da Maia e de Valongo.
Rasgar mais vias: a VCI e a promessa de uma circular “alternativa”
Minha segunda ressalva está na própria lógica de abrir mais vias. Repetir, mais ao norte ou ao sul, a mesma “ferida” que a VCI já representa, apostando que ela vai esvaziar com a criação de uma circular alternativa, parece-me uma leitura simplista. É como tratar o volume de veículos que hoje cobre o asfalto da VCI como se fosse um curso d’água que pudesse ser desviado com facilidade por novos canais.
Antes de gastar milhões para construir essa alternativa vendida como milagrosa, por que não tentar destravar a alternativa que já existe - a Circular Externa Regional do Porto - eliminando os custos e acabando com os pedágios para todos?
Mais asfalto ou mais trilhos: que tipo de cura faz sentido?
A abertura de novas estradas de grande capacidade tem estimulado o uso do carro e, ao mesmo tempo, enfraquecido o transporte público. Em uma área metropolitana em que a dependência do automóvel é quase patológica - é a escolha de 69%, segundo a análise mais recente do Automóvel Clube de Portugal - faz sentido combater o problema com ainda mais estradas?
Os milhões destinados ao asfalto seriam bem mais úteis se fossem canalizados para trilhos e para novas linhas de transporte público, com cumprimento de horários, cobertura territorial, e alta frequência.
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