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# Baleias-beluga e o teste do espelho: o que o estudo mostrou

Dois golfinhos em tanque tocam seus focinhos na parede de vidro, enquanto pessoas observam ao fundo.

As baleias-beluga têm uma habilidade curiosa que falta à maioria das outras baleias: elas conseguem alterar a forma da própria testa. A estrutura arredondada na parte frontal da cabeça, chamada de melão, se desloca e se remodela no meio de interações, criando “expressões” que outras belugas conseguem interpretar.

Até agora, essa capacidade de exibir um “rosto” mutável nunca tinha sido avaliada diante de um espelho. Quatro belugas mantidas em cativeiro em um aquário de Nova York acabaram de oferecer aos investigadores a primeira visão de como elas lidam com o teste do espelho.

Animais e o teste do espelho

O procedimento básico é simples. Animais como as belugas recebem acesso a um espelho e são estimulados a observar a própria imagem.

Na maioria das espécies, o primeiro impulso é tratar o reflexo como se fosse um desconhecido. Depois de horas ou até semanas, alguns passam a usar o espelho para examinar partes do corpo que não conseguiriam ver de outro modo.

Essa sequência foi confirmada apenas em poucas espécies: grandes primatas, golfinhos-nariz-de-garrafa, elefantes-asiáticos, pegas e um peixe conhecido como bodião-limpador. Incluir cada novo animal nessa lista costuma exigir anos de trabalho para se chegar a uma conclusão sólida.

Diana Reiss, professora do Hunter College da City University of New York, ajudou a demonstrar há duas décadas que golfinhos tinham autoconsciência. Agora, a equipa dela voltou a atenção para as baleias-beluga.

Baleias-beluga e o teste do espelho

Os testes ocorreram no próprio aquário, onde quatro baleias-beluga fêmeas dividiam um conjunto de piscinas interligadas. Três eram adultas; a quarta era uma jovem chamada Maris, nascida ali, filha de Natasha.

Os investigadores instalaram um espelho semitransparente numa janela de observação subaquática. Do lado das baleias, parecia um espelho comum; do lado dos investigadores, funcionava como vidro unidirecional, permitindo filmar sem ser notado.

Duas das quatro quase não interagiram com o dispositivo. Já Natasha e a filha Maris voltavam repetidamente ao local: faziam círculos diante do vidro e, ao longo de semanas, começaram a mostrar comportamentos que não tinham aparecido nos testes de referência.

Bolhas e giros em tonel

Em geral, animais que “passam” no teste do espelho atravessam três etapas. Primeiro, encaram a imagem como outro indivíduo.

Depois surgem movimentos estranhos e repetitivos, uma forma de verificar se o reflexo acompanha cada ação. Por fim, o espelho passa a ser usado como ferramenta para observar a si mesmo.

As duas belugas pareceram seguir esse percurso. No começo, repetiram movimentos de cabeça - inclinações, balanços e sacudidas - típicos da fase em que o animal testa se a imagem imita o que ele faz. Em poucas horas, já tinham avançado além desse ponto.

As bolhas vieram antes: expelidas pelo orifício respiratório e, em seguida, mordidas bem junto ao vidro. Depois apareceram giros lentos em tonel. Maris também bateu as nadadeiras em rajadas verticais rápidas, algo que ninguém a tinha visto fazer em outras áreas da piscina.

Baleias-beluga, espelhos e marcas

Comportamentos orientados ao próprio corpo são sugestivos, mas a área usa um critério mais rigoroso, chamado teste da marca. Coloca-se uma marca temporária num local que o animal não consegue ver diretamente; quando ele vira essa região para o espelho, isso é interpretado como reconhecimento de si.

Em várias sessões, treinadores aplicaram pequenas marcas de batom preto em Natasha e Maris. Para controlo, também usaram um brilho transparente como marca simulada, caso alguma baleia reagisse apenas à sensação do toque, e não por perceber algo diferente.

Natasha foi aprovada na terceira tentativa. A marca ficou atrás da orelha direita, uma área fora do seu campo de visão. Na sessão seguinte, ela passou a pressionar esse lado do corpo contra o vidro e a retornar ao reflexo repetidas vezes.

Nessa mesma sessão, ela também exibiu ações que não tinham aparecido em nenhum mês anterior. Sacudidas rápidas de cabeça. Movimentos repetidos de “mergulhar” para baixo. Abrir e fechar a boca. Todo esse período destoou do resto do seu histórico.

Brinquedos junto ao vidro

No meio do processo, Natasha atravessou a piscina, pegou um arco e levou o objeto até o espelho. Ela o manteve ao lado da cabeça marcada, soltou-o, depois o apanhou de novo e nadou para baixo, saindo do campo de visão.

Maris realizou algo parecido com um brinquedo de corda com nós. Levou-o até o vidro, girou em círculos lentos enquanto o segurava e então o soltou. Em duas sessões, voltou mais de uma dúzia de vezes.

Outras espécies dessa lista, incluindo elefantes e golfinhos, também já carregaram objetos até um espelho. Esse padrão é visto como evidência forte de atividade dirigida a si mesmo. Pesquisas anteriores observaram um comportamento semelhante num elefante.

Preferência pelo olho direito

As duas belugas mostraram uma preferência clara na forma de observar o reflexo. Na maior parte do tempo, posicionavam-se de frente para o espelho, usando os dois olhos. Quando olhavam com apenas um olho, quase sempre era o direito.

Essa escolha pode ter significado. Belugas normalmente usam o olho esquerdo para observar outra baleia, um padrão relatado em diferentes baleias e golfinhos.

A preferência pelo olho direito diante do espelho sugere que Natasha e Maris não estavam a tratar o reflexo como uma beluga companheira.

A posição dos olhos, por si só, não revela o que se passa na mente de um animal. Mas, somada às brincadeiras com bolhas, aos giros em tonel, ao transporte de brinquedos e ao nado de Natasha orientado pela marca, ela acrescenta mais um elemento ao conjunto de indícios de autorreconhecimento em belugas.

Baleias-beluga e o reconhecimento no espelho

O resultado amplia o registo de mamíferos que reconhecem a própria imagem para além de primatas, golfinhos e elefantes. As belugas pertencem a uma família científica diferente - a mesma que inclui os narvais - e, até aqui, ninguém tinha documentado essa capacidade nesse grupo.

Um estudo anterior consolidou o teste em golfinhos-nariz-de-garrafa, com achados posteriores sugestivos em orcas e falsas-orcas.

O trabalho com belugas é o primeiro a cumprir ambos os critérios numa baleia que não é um golfinho: produzir comportamentos dirigidos ao próprio corpo e passar no teste da marca.

Com isso, o “mapa” de quais animais exibem essa forma de autoconsciência foi alterado. Ele é mais amplo do que o campo supunha. Estudos futuros, com belugas de idades e histórias diferentes, devem completar essa imagem.

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