Pular para o conteúdo

Como Marte influencia o clima da Terra a cada 2,4 milhões de anos

Mulher cientista aponta para tela com planeta Terra e sistema solar em laboratório moderno.

A Terra e Marte não apenas orbitam o Sol: eles também exercem atração gravitacional um sobre o outro. Como os dois planetas ficam separados por dezenas de milhões de quilómetros, esse puxão é relativamente fraco.

Mesmo assim, a influência da gravidade nunca deixa de existir e, ao longo de eras geológicas, pequenos efeitos vão-se somando até se tornarem mensuráveis - às vezes de formas inesperadas.

Os cientistas chamam esses puxões minúsculos entre a Terra e Marte de perturbações gravitacionais. Aproximadamente a cada 26 meses, os planetas entram em oposição, quando ficam mais próximos. Nesses períodos, Marte dá um leve “empurrão” na órbita da Terra.

Esse empurrão não “conduz” a Terra de maneira dramática. Porém, ao longo de milhões de anos, ele pode alterar discretamente o formato da órbita terrestre e também o modo como o planeta se inclina.

Mudanças lentas desse tipo podem modificar quanto de luz solar chega à Terra em intervalos muito longos, o que ajuda a influenciar padrões climáticos.

Correntes e redemoinhos do oceano profundo

O oceano profundo está em movimento contínuo. Ele transporta calor, sal e gases dissolvidos ao redor do globo. Além disso, ajuda a modelar o relevo do fundo do mar. Quando as correntes profundas ficam mais intensas, podem remexer sedimentos e deixar registos irregulares.

Evidências geológicas que cobrem mais de 65 milhões de anos indicam que as correntes de águas profundas na Terra passam por ciclos recorrentes de intensidade a cada 2,4 milhões de anos.

Os cientistas chamam esses ritmos de “grandes ciclos astronômicos”. Nas fases de maior força, o oceano profundo pode formar redemoinhos potentes que alcançam as profundezas abissais e erodem sedimentos que se acumularam lentamente por muito tempo.

O que a equipa observou

Investigadores da Universidade de Sydney recorreram a dados de satélite para mapear, ao longo de milhões de anos, como os sedimentos se acumularam no fundo do oceano.

Nesse registo, eles identificaram lacunas. Essas interrupções podem surgir quando correntes profundas mais vigorosas atrapalham a deposição normal de sedimentos.

“Os campos gravitacionais dos planetas no sistema solar interferem uns com os outros, e essa interação, chamada de ressonância, altera a excentricidade planetária, uma medida de quão próximas de circulares são as suas órbitas”, explicou o coautor do estudo Dietmar Müller, professor de geofísica na Universidade de Sydney.

Um pulso climático de longa duração

A proposta do estudo é que a ressonância entre a Terra e Marte faz a excentricidade da órbita terrestre variar de forma repetitiva. Em certos pontos desse ciclo, a atração gravitacional de Marte puxa a Terra para uma posição ligeiramente mais próxima do Sol.

Nessa configuração, a radiação solar aumenta e o clima aquece. Depois, a Terra volta a afastar-se. O padrão completo repete-se aproximadamente a cada 2,4 milhões de anos.

“Os nossos dados de mar profundo, abrangendo 65 milhões de anos, sugerem que oceanos mais quentes têm uma circulação profunda mais vigorosa”, explicou Adriana Dutkiewicz, autora principal do estudo e sedimentóloga na Universidade de Sydney.

Os investigadores também salientaram um ponto relevante para o presente. Esse ciclo lento, de milhões de anos, não explica o aquecimento climático rápido observado hoje.

As emissões humanas de gases de efeito estufa aquecem o planeta num intervalo muito mais curto e por uma causa física diferente.

AMOC e redemoinhos oceânicos

Cientistas do oceano acompanham de perto a Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico (AMOC). Muita gente refere-se a ela como uma “esteira rolante” oceânica.

Ela leva água quente dos trópicos em direção ao Hemisfério Norte e ajuda a transportar calor para o oceano profundo. Alguns investigadores alertam que esse sistema pode enfraquecer acentuadamente nas próximas décadas.

“Sabemos que há pelo menos dois mecanismos separados que contribuem para o vigor da mistura de águas profundas nos oceanos”, observou Müller.

Mesmo que um grande padrão de circulação perca força, a mistura em escalas menores ainda pode impedir que as águas profundas fiquem estagnadas. Redemoinhos conseguem redistribuir água, ajudar a espalhar oxigénio e evitar que o calor fique preso numa única camada por tempo prolongado.

“Isto poderá manter o oceano longe da estagnação mesmo que a circulação de revolvimento meridional do Atlântico desacelere ou pare por completo”, concluiu Adriana Dutkiewicz.

A ligação de Marte com o clima da Terra

Costumamos imaginar o oceano profundo como algo passivo: um ambiente frio e lento, onde materiais se depositam e ficam parados. O estudo inverte essa ideia.

Segundo essa leitura, o oceano profundo tem um pulso - e esse pulso segue um ritmo definido a dezenas de milhões de quilómetros de distância. Terra e Marte, presos nesse vai-e-vem gravitacional, deixam marcas no fundo do mar a cada 2,4 milhões de anos.

Quando o ciclo atinge o auge, o abismo deixa de ser calmo. As correntes aceleram. Redemoinhos agitam as profundezas. Sedimentos que vinham-se acumulando silenciosamente por eras são varridos.

É uma imagem incomum: um planeta que mal se vê no céu noturno ajudando a mexer o fundo do nosso oceano.

Nada disso muda o que está a acontecer com o clima da Terra agora - e os investigadores deixam isso claro. Marte não é o responsável pelo calor que estamos a sentir. Isso é consequência das nossas ações, numa escala de tempo medida em décadas, não em milhões de anos.


Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário