Quando cientistas do clima tentaram, pela primeira vez, estimar como os microplásticos em suspensão no ar influenciam o aquecimento global, eles os representaram como algo limpo e sem cor - basicamente, pequenas esferas transparentes carregadas pelo vento.
Essa era a hipótese mais simples e, durante anos, foi a única sustentada por dados suficientes.
Só que o plástico real que circula na atmosfera quase nunca é transparente. Ele costuma ser tingido, impresso e desgastado pelo tempo - e um novo estudo mostrou que essas partículas coloridas absorvem cerca de 75 vezes mais luz solar do que as partículas claras.
A diferença é grande o bastante para colocar o plástico em uma discussão climática que, até aqui, mal tinha começado.
Como o microplástico vai parar no ar
O plástico não apenas escoa para rios ou se fragmenta em praias. Partes dele também se levantam para a atmosfera, pegam correntes de vento e conseguem viajar por milhares de quilómetros antes de se depositarem novamente em qualquer ponto do planeta.
Pesquisadores já encontraram essas partículas em montanhas remotas, na neve de glaciares e no ar muito acima do oceano aberto. Estudos anteriores indicaram que já não existe lugar na Terra totalmente intocado.
Por muito tempo, esse cenário foi visto principalmente como um problema de poluição. O novo estudo, liderado por Hongbo Fu, professor de ciência ambiental na Fudan University, em Shanghai, trata o tema como um problema climático.
Plástico no ar captura a luz do Sol
A equipa de Fu começou no laboratório, medindo como partículas reais de plástico absorvem luz. Esses resultados alimentaram modelos atmosféricos que acompanham para onde as partículas viajam no mundo. O foco recaiu sobre microplásticos - fragmentos com menos de alguns milímetros - e sobre os ainda menores nanoplásticos.
Um fragmento de plástico transparente, recém-saído da fábrica, praticamente não interage com a luz solar. Já os pedaços tingidos e pigmentados que compõem a maior parte do plástico do mundo real absorvem luz com uma intensidade cerca de 75 vezes maior do que a dos transparentes. Isso muda o cenário.
Um aquecedor inesperado
É a absorção de luz que faz uma partícula aquecer o ar ao seu redor. O carbono negro - a fuligem da queima de combustíveis e biomassa - há muito tempo aparece nos cálculos climáticos justamente por esse motivo.
Até este estudo, ninguém havia quantificado se o plástico no ar conseguiria produzir o mesmo efeito em escala global. Pelos modelos de Fu, consegue - num nível equivalente a cerca de 16 por cento do que o carbono negro gera.
Em termos absolutos, não é um valor enorme. Ainda assim, chama a atenção por se tratar de uma substância que muita gente continua a associar apenas à poluição em praias, e não a algo capaz de alterar o balanço energético do planeta a muitos quilómetros de altitude.
Sobre a mancha de lixo
A média global esconde o que acontece em determinadas regiões. Sobre o Giro Subtropical do Pacífico Norte, o redemoinho que aprisiona a chamada mancha de lixo, o aquecimento causado por partículas de plástico transportadas pelo ar fica em torno de 4.7 vezes o do carbono negro no mesmo local - pelo menos segundo os modelos.
Dois fatores parecem explicar essa diferença. O lixo plástico no oceano libera material para o ar por ação das ondas e do aerossol marinho. Além disso, o giro está sob céus relativamente limpos, com pouca fuligem para “abafar” o sinal.
Um artigo anterior, de 2021, havia estimado o aquecimento provocado por plástico no ar partindo de hipóteses sobre um material limpo e sem cor.
A nova análise indica que aqueles números ficaram baixos - porque, no mundo real, o plástico é tingido, impresso e envelhecido.
Envelhecimento dos microplásticos em suspensão
É razoável imaginar que sol e intempéries alterem a forma como o plástico interage com a luz. Alteram - mas em direções opostas. Partículas brancas tendem a amarelar com o tempo e passam a absorver mais luz. Já as vermelhas desbotam e absorvem menos.
Considerando o conjunto de partículas na atmosfera, os dois efeitos se compensam aproximadamente. De acordo com a modelagem, um fragmento de plástico parece continuar contribuindo para o aquecimento pelo tempo em que permanecer no ar, independentemente da idade.
A grande incógnita
Quanto plástico, afinal, está lá em cima? Essa ainda é uma pergunta em aberto. Há medições diretas para algumas cidades e para um número reduzido de locais remotos, e o modelo da equipa preenche o restante do planeta com estimativas.
Greg Carmichael, professor Karl Kammermeyer de engenharia química e bioquímica na University of Iowa e coautor do artigo, ajudou a construir parte importante do trabalho fundamental sobre carbono negro décadas atrás.
“Eles são importantes o suficiente para serem levados a sério e para quantificar melhor o seu papel”, disse Carmichael sobre os fragmentos de plástico em suspensão no ar. Ele acrescentou que, no mundo todo, as observações ainda são escassas demais para determinar uma concentração global com plena confiança.
Microplásticos atmosféricos e modelos climáticos
Pela primeira vez, a poluição por microplásticos em suspensão no ar passa a ter um número associado a ela no registo de fatores climáticos - e não é um número pequeno.
A contribuição para o aquecimento é grande o suficiente para ficar ao lado da fuligem e de outras partículas já reconhecidas como aquecedoras, como algo que os cientistas agora precisam considerar.
Disso decorrem duas consequências. Os modelos climáticos podem começar a tratar o plástico na atmosfera como um agente de aquecimento, em vez de simplesmente ignorá-lo.
E a pressão para reduzir a produção de plástico, normalmente defendida por motivos de saúde e de ecossistemas, ganha também um argumento climático.
Menos plástico em circulação - especialmente o material tingido e pigmentado - significa menos plástico acabando no vento. E isso implica menos aquecimento vindo de uma fonte que o mundo só agora começou a contabilizar.
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