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Estudo global da Universidade da Basileia revela como o limite das árvores nas montanhas se desloca

Pessoa de jaleco branco observa montanhas com neve e floresta, ao lado de área com tocos de árvores cortadas.

Lá no alto das montanhas existe um limite discreto em que a floresta, de repente, deixa de aparecer. Esse traço - conhecido como limite das árvores - pode parecer algo simples à primeira vista.

Muita gente imagina que ele esteja subindo, pouco a pouco, por causa do aquecimento global. Só que evidências recentes pintam um quadro bem menos linear: em muitos lugares, esse limite avança montanha acima, recua ou simplesmente fica onde está.

Um estudo global coordenado pela Universidade da Basileia indica que a natureza não obedece a um único padrão. Em vez disso, o limite das árvores reage a uma combinação de clima, uso humano do território e perturbações naturais.

Limites das árvores se movem para cima e para baixo

A ideia mais difundida é que temperaturas mais altas empurram as árvores para altitudes maiores. Em parte, isso acontece mesmo. A pesquisa aponta que cerca de 42% dos limites das árvores subiram entre 2000 e 2020.

Ao mesmo tempo, o levantamento identificou que aproximadamente 25% desceram. E perto de um terço não apresentou mudança. Em outras palavras, o comportamento do limite das árvores varia muito conforme a região do planeta.

Os cientistas também observaram que, quando há deslocamento, ele tende a ser lento. Em média, a variação foi de apenas cerca de 0,12 metro por ano - um ritmo bem menor do que se poderia supor apenas a partir do aumento das temperaturas.

“Essa mudança do limite das árvores acontece devagar; levaria uma vida inteira para compreender plenamente as transformações”, disse o Dr. Mathieu Gravey, da Academia Austríaca de Ciências.

Um descompasso entre clima e realidade

Os pesquisadores confrontaram dois conceitos centrais. O primeiro é o “limite das árvores observado”, que indica onde as árvores de fato conseguem crescer. O segundo é o “limite das árvores potencial”, que representa onde elas poderiam crescer se a única variável fosse o clima.

A análise revelou um intervalo entre esses dois limites. Em muitos locais, as árvores não chegam tão alto quanto, em tese, o clima permitiria. Isso reforça que a temperatura, sozinha, não determina até onde a vegetação arbórea se estabelece.

De fato, quase metade dos limites das árvores do mundo já tinha alcançado, em 2000, o seu teto imposto pelo clima. Em outras áreas, porém, as árvores permaneciam muito abaixo desse teto devido a pressões de outra natureza.

Essa diferença ajuda a explicar por que o limite das árvores nem sempre reage de forma rápida ao aquecimento.

Clima não é a única razão

A temperatura segue sendo um fator crucial. As árvores precisam de um nível mínimo de calor para se manter. Os cientistas identificaram que, durante a estação de crescimento, as árvores costumam deixar de avançar quando as temperaturas caem abaixo de um determinado patamar.

Só que a temperatura não atua isoladamente. Regime de chuvas, características do solo e quantidade de luz também interferem no crescimento. Em algumas regiões, inclusive, o excesso de chuva pode contribuir para rebaixar o limite das árvores.

“Quando se fala com as pessoas sobre mudanças climáticas, geralmente duas imagens vêm à mente: o recuo das geleiras e o deslocamento dos limites das árvores”, disse a professora Sabine Rumpf, da Universidade da Basileia.

“Os limites das árvores muitas vezes são atribuídos exclusivamente às mudanças climáticas. Mas não é tão simples. Embora as mudanças climáticas sejam claramente a causa do recuo das geleiras, os motivos por trás da posição dos limites das árvores são complexos.”

O conjunto dessas evidências mostra que o limite das árvores é moldado por vários fatores interligados.

Ações humanas deixam uma marca forte

A atividade humana também pesa muito na movimentação do limite das árvores. Em diversas áreas montanhosas, o uso do terreno para pastoreio ou agricultura impediu que as árvores avançassem para altitudes maiores.

Em alguns lugares, com a redução desse uso, as áreas foram sendo abandonadas. Aos poucos, as árvores retornam e o limite tende a subir novamente.

“Não se trata de saber se a região alpina está sendo usada, mas de como esse uso da terra está mudando”, disse Rumpf.

“Quanto mais as pastagens alpinas são abandonadas, mais as árvores voltam a crescer em lugares onde poderiam estar desde sempre.”

O estudo também indica que o histórico de interferência humana continua influenciando o presente. Regiões que sofreram perturbações intensas no passado exibem, hoje, um deslocamento mais lento do limite das árvores.

Incêndios empurram as árvores para baixo

Os incêndios têm um papel decisivo em movimentos de descida do limite das árvores. A pesquisa mostra que quase 38% dos recuos estão associados a eventos de fogo.

“Os incêndios são um exemplo de perturbações naturais”, disse o Dr. Tianchen Liang, da Universidade da Basileia.

“Mas muitos incêndios florestais, como os da América do Norte, já não podem ser completamente separados das influências humanas. As mudanças climáticas e outras atividades humanas estão aumentando sua frequência e escala.”

O fogo prejudica o solo e elimina árvores jovens, o que dificulta a regeneração da floresta e limita a expansão para cima.

Outros episódios extremos, como secas e ondas de frio, também restringem o crescimento. Esses eventos reduzem a sobrevivência das sementes e tornam a expansão da floresta mais lenta.

A natureza não reage de imediato

Mesmo quando as condições melhoram, as árvores não “avançam” rapidamente. Há barreiras biológicas que retardam esse processo.

As sementes nem sempre se dispersam com facilidade para áreas mais altas. Mudas podem ter dificuldade para sobreviver em condições severas. E outras plantas podem competir por espaço e recursos.

Por causa desses limites, o deslocamento do limite das árvores muitas vezes fica atrasado em relação às mudanças climáticas. Em algumas regiões, o aquecimento sugeriria uma subida rápida, mas o movimento real segue devagar.

Esse atraso evidencia que os ecossistemas precisam de tempo para se ajustar.

Um sinal da influência humana

O limite das árvores é mais do que um tema acadêmico. Ele oferece uma forma clara de enxergar como ações humanas vêm moldando o planeta.

“O deslocamento dos limites das árvores é uma peça de um grande quebra-cabeça para entender o impacto das mudanças climáticas”, observou o Dr. Gravey.

“Mas sua importância vai além da ciência”, disse Rumpf. “Os limites das árvores são um exemplo marcante de como nós, humanos, estamos mudando o nosso ambiente, diretamente por meio do uso da terra e indiretamente pelas consequências das mudanças climáticas induzidas pelo ser humano.”

Diferentemente de muitos outros sinais ambientais, mudanças no limite das árvores são fáceis de perceber. Fotografias antigas e recentes mostram com clareza como as paisagens se transformam ao longo do tempo.

Assim, o limite das árvores funciona como um registro vivo de ações passadas e presentes - revelando como decisões pequenas, repetidas ao longo dos anos, vão redesenhando o mundo ao nosso redor.

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