Nos últimos meses, voltei a ler Aristóteles. Não foi por saudade da vida acadêmica, e sim por uma necessidade bem concreta: venho dando aulas sobre "método científico" e, quase sempre, isso me leva de volta às raízes do pensamento organizado.
E o campo que se abre é praticamente inesgotável.
Aristóteles, eudaimonia e o que é florescer
Entre as ideias que tenho redescoberto, uma se impôs com força: eudaimonia. Costumamos traduzir o termo, de modo reduzido, como felicidade. Só que, para Aristóteles, a noção era mais exigente: não se trata de um instante agradável, mas de uma existência que floresce. Uma vida plena, orientada por propósito, edificada com razão, virtude e ação.
Aceitando essa definição, a questão se torna difícil de evitar: de que maneira criamos sociedades em que mais gente consiga florescer?
Método científico como exercício de humildade
Para mim, a ciência ocupa um lugar decisivo nessa resposta. Não apenas pelo conhecimento que entrega, mas pelo caminho que oferece. Em essência, o método científico é uma prática de humildade: levantar hipóteses, testá-las, reconhecer falhas, ajustar a rota. Ele nos força a colocar nossas intuições frente a frente com o mundo real.
Quando uma sociedade valoriza esse método, ela tende a se tornar mais racional e mais transparente, além de ser mais capaz de corrigir os próprios erros. Em tese, isso a aproximaria de um ideal de florescimento coletivo - um cenário em que todos possam construir uma vida com sentido.
Só que a história aponta para outra direção.
Conhecimento, exclusão e o erro epistemológico
Enquanto aprimorávamos, de forma cada vez mais sofisticada, os instrumentos para compreender o mundo, fomos também excluindo sistematicamente uma parcela relevante de quem poderia compreendê-lo.
Ao ler sobre a Grécia Antiga, chamou-me a atenção - ou talvez nem tanto - descobrir que existiram várias filósofas cujos nomes quase nunca aparecem nos livros didáticos. Eram mulheres que pensaram, ensinaram e escreveram e que, ainda assim, foram quase apagadas da narrativa dominante. Não é só uma injustiça com o passado. Há algo ainda mais sério aí: trata-se de um erro epistemológico.
Se o conhecimento nasce de perguntas, de observação e de interpretação, então afastar de forma contínua uma parte - na verdade, a maior parte - da população significa restringir o próprio ato de conhecer. Significa estreitar a variedade de perguntas que fazemos. Significa empobrecer o conjunto de respostas a que chegamos.
Durante séculos - na filosofia, na ciência e na política - foi exatamente isso que fizemos. E, mesmo hoje, embora de maneira mais discreta, seguimos repetindo esse padrão.
Para uma sociedade baseada no conhecimento
Quando tratamos a ciência como motor do progresso, muitas vezes deixamos de lado uma evidência simples: não existe sociedade baseada no conhecimento se a possibilidade de produzir esse conhecimento não estiver amplamente distribuída.
Não é apenas uma questão de justiça - ainda que também seja. É, sobretudo, uma questão de eficiência.
Não dá para desejar uma sociedade mais racional, mais inovadora e mais preparada para enfrentar os desafios do futuro enquanto continuarmos jogando fora talento. E esse desperdício tem um desenho histórico inconfundível.
Se eudaimonia - esse florescimento integral da vida humana - é o objetivo, então não pode ser um privilégio de poucos. E não pode depender de gênero, origem ou circunstância.
Uma sociedade que considera aceitável que só parte de seus cidadãos floresça está, na prática, escolhendo ser menos do que poderia.
Talvez Aristóteles não tivesse como antecipar o mundo em que vivemos. Ainda assim, ele nos deixou uma exigência: viver bem não é só estar vivo - é realizar o próprio potencial. E, na sua proposta, essa realização não acontecia de qualquer jeito, mas por meio da razão, da virtude e da ação.
A pergunta que fica é direta, embora incômoda: estamos mesmo criando as condições para que todos consigam fazer isso? Ou seguimos, mais ou menos conscientemente, aceitando que o florescimento humano seja apenas parcial?
Se queremos uma sociedade baseada no conhecimento, é por aqui que precisamos começar.
Florescer não pode ser pela metade.
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