Mesmo com a incerteza em torno da nova ameaça de Donald Trump de elevar para 25% as tarifas aduaneiras sobre o setor automotivo europeu, a iniciativa não deve atingir a indústria instalada em Portugal de maneira direta. Procuradas pelo Expresso, as duas maiores fábricas de automóveis no país - a Volkswagen Autoeuropa, em Palmela, e a Stellantis, em Mangualde - afirmam que praticamente toda a produção segue para mercados europeus, com a Alemanha como principal destino.
Dados reunidos pela Associação Automóvel de Portugal (ACAP) apontam na mesma direção: nos três primeiros meses de 2026, cerca de 98,5% dos veículos produzidos em Portugal tiveram como destino o exterior, com a Europa destacada nas preferências para os carros “made in Portugal”.
Segundo a entidade, o continente europeu é, de forma clara, o maior destino das exportações nacionais, concentrando 92% dos veículos produzidos, “com destaque para mercados como a Alemanha, Itália, Turquia e França”.
Apenas 2,4% das exportações nacionais seguem para a América
“Por contraste, o continente americano representa apenas 2,4% das exportações diretas da nossa produção, o que indica que a exposição direta ao mercado norte-americano é limitada”, explica Helder Pedro, secretário-geral da ACAP.
Ainda assim, o dirigente avalia que o cenário internacional em que essa ameaça tarifária surge “é particularmente relevante”.
Ele detalha que “a Administração Trump justifica o agravamento das tarifas (até 25%) com alegadas falhas da União Europeia no cumprimento de acordos comerciais, num quadro mais amplo de pressão sobre os parceiros europeus”.
Helder Pedro ressalta, porém, que a decisão “surge num clima de crescente tensão política entre Washington e Berlim, no seguimento das recentes críticas do chanceler alemão Friedrich Merz à atuação dos Estados Unidos no plano internacional”, especialmente no contexto do confronto militar em curso contra o Irã.
Na leitura do secretário-geral da ACAP, “esta medida, que anuncia o agravamento da taxa [de 15% para 25%] para os veículos fabricados na União Europeia e exportados para os Estados Unidos pode ser vista como uma retaliação, face àquelas declarações”.
“O principal risco reside nos efeitos indiretos”
Diante disso, Helder Pedro conclui que, apesar de o volume direto exportado de Portugal para os Estados Unidos ser pequeno, “o principal risco reside nos efeitos indiretos”.
O motivo, segundo ele, é a forte integração do país nas cadeias de valor europeias: “pelo que qualquer impacto sobre os principais mercados europeus tenderá a repercutir-se na produção automóvel em Portugal”.
Da mesma forma, acrescenta o dirigente, “os eventuais impactos económicos desta medida com possíveis quedas de mercado em países como a Alemanha ou a França também terão impacto direto no nosso país”.
Afinal as tarifas aduaneiras ficam em 15% ou 25%?
Enquanto isso, nesta terça-feira, o comissário europeu de Comércio, Maroš Šefčovič, pediu ao representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, que o governo norte-americano “regresse aos termos do acordo” comercial assinado em julho de 2025, que limita a 15% as tarifas sobre carros europeus.
Conforme um porta-voz da Comissão Europeia, durante o encontro Maroš Šefčovič teria apresentado a Jamieson Greer em que ponto está o processo de ratificação do acordo comercial com a UE e “o calendário mais provável” para a conclusão.
A mesma fonte acrescentou que também houve um apelo a um “rápido regresso” aos termos acertados no ano passado, que apontam justamente para uma tarifa geral de 15%.
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