Todos os dias, surgem oportunidades constantes de estímulo. Com acesso 24 horas por dia, 7 dias por semana a feeds de notícias, e-mails e redes sociais, muita gente acaba a rolar a tela sem parar, à procura da próxima dose de dopamina.
Esse padrão, porém, está a alimentar o stress - e o cérebro está a pedir descanso.
O que ele realmente precisa é de um tempo, muito necessário, longe da concentração. Quando deixamos de focar conscientemente em algo e permitimos que a mente vagueie, isso pode aliviar o stress e aumentar a agudeza cognitiva.
Fazer isso, na prática, nem sempre é simples. Ainda assim, a teoria da restauração da atenção (ART) pode ajudar a aprender a dar ao cérebro espaço para divagar. Embora pareça apenas um nome sofisticado para “não fazer nada”, trata-se de uma proposta sustentada pela neurociência.
O que é a teoria da restauração da atenção (ART)
A teoria da restauração da atenção foi apresentada pela primeira vez pelos psicólogos Rachel e Stephen Kaplan, em 1989. A ideia central é que passar tempo na natureza pode ajudar a recuperar o foco e a atenção.
Segundo os autores, existem dois tipos distintos de atenção: atenção dirigida e atenção não dirigida.
Atenção dirigida e atenção não dirigida
A atenção dirigida diz respeito à concentração deliberada - como estudar, deslocar-se por um local movimentado ou publicar nas redes sociais. Em termos simples, é qualquer atividade em que a atenção do cérebro é direcionada para uma tarefa específica.
Já a atenção não dirigida acontece quando não estamos a tentar focar conscientemente em nada - em vez disso, deixamos que estímulos captem a nossa atenção de forma suave, sem esforço. Pense em ouvir pássaros a cantar ou observar folhas a balançar levemente ao vento. Nessas situações, a atenção divaga naturalmente, sem que seja preciso forçar o foco.
Quando não há tempo para a atenção não dirigida, acredita-se que surja a "fadiga atencional". Com isso, torna-se cada vez mais difícil manter o foco e a concentração, e as distrações passam a ter mais probabilidade de capturar a nossa atenção.
No passado, enfrentávamos no dia a dia muitas situações que poderiam ser classificadas como “aborrecidas” - como esperar o autocarro ou ficar na fila do supermercado.
Esses momentos monótonos, porém, também ofereciam à mente uma oportunidade de desligar.
Hoje, os smartphones abrem caminho para entretenimento constante. Poder expor-nos o tempo todo a estímulos intensos e cativantes deixa pouco espaço mental para que um cérebro sobrecarregado recupere.
É por isso que a teoria da restauração da atenção chama a atenção para a importância de criar espaço para momentos que permitam ao cérebro dar um "reset".
Restauração da atenção
As raízes da teoria de Kaplan e Kaplan podem, na verdade, ser encontradas no século XIX. O psicólogo norte-americano William James foi o primeiro a formular o conceito de "atenção voluntária" - a atenção que exige esforço.
As ideias de James foram publicadas num contexto cultural marcado pelo movimento mais amplo do Romantismo, que enaltecia a natureza.
Desde então, as noções românticas sobre o poder restaurador da natureza foram apoiadas por estudos: diversas pesquisas mostram ligações entre tempo passado em ambientes naturais e menores níveis de stress, melhor atenção, melhorias na saúde mental, no humor e na função cognitiva.
A neurociência também sustenta esses benefícios. Exames de neuroimagem indicaram que a atividade na amígdala - a parte do cérebro associada ao stress e à ansiedade - diminuiu quando as pessoas foram expostas a ambientes naturais. Já quando expostas a ambientes urbanos, essa atividade não foi reduzida.
Além disso, muitos estudos passaram a dar suporte à teoria de Kaplan e Kaplan de que o tempo na natureza pode restaurar a atenção e o bem-estar. Uma revisão sistemática de 42 estudos encontrou associação entre exposição a ambientes naturais e melhorias em vários aspetos do desempenho cognitivo - incluindo a atenção.
Um ensaio clínico randomizado controlado, com neuroimagem do cérebro, identificou sinais de menor stress em adultos que fizeram uma caminhada de 40 minutos num ambiente natural, em comparação com participantes que caminharam num ambiente urbano. Os autores concluíram que a caminhada na natureza facilitou a restauração da atenção.
Há estudos que mostram, inclusive, que apenas dez minutos de atenção não dirigida podem gerar um aumento mensurável no desempenho em testes cognitivos, bem como reduzir a fadiga atencional. Até mesmo caminhar numa esteira enquanto se observa uma cena de natureza pode produzir esse efeito cognitivo.
Tempo na natureza
Existem várias maneiras de colocar a teoria da restauração da atenção à prova por conta própria. Para começar, procure qualquer área verde - pode ser um parque do bairro, a margem de um rio onde dê para se sentar, ou um trilho na mata por onde seja possível caminhar.
Em seguida, garanta que o telemóvel e outras distrações fiquem guardados.
Outra opção é aproveitar as pausas “aborrecidas” do seu dia: em vez de pegar no telemóvel, tente encarar esse intervalo como uma oportunidade de deixar a mente vaguear por um momento.
Cada pessoa pode perceber que certos ambientes facilitam mais naturalmente desligar e desengajar a mente.
Assim, se ao tentar praticar a teoria da restauração da atenção você notar que o cérebro a puxa de volta para tarefas estruturadas (como planear mentalmente a sua semana), isso pode ser um sinal de que vale ir a um lugar onde seja mais fácil deixar a mente divagar.
Quer você esteja a observar uma joaninha a atravessar a sua mesa, quer esteja a visitar uma grande extensão de natureza, permita que a sua atenção não seja dirigida. Não é preguiça; é manutenção neurológica.
Anna Kenyon, Professora Sénior de Saúde da População, Universidade de Lancashire
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário